novembro 07, 2003

"O Vale do Minho" trecho

Iria até ao moinho.
O Vale estava já mesclado de cor. Manchas verdes. Vários verdes das ervas
naturais e das culturas de inverno. O verde prata das faveiras, o verde cinza
das ervilhas cobertas de flores brancas e azuis, os tremoceiros de verde
garrafa, carregados de cachos de flores amarelas. Pequenas manchas de
árvores. As pereiras de flor branca, as searas de verde viçoso, as vinhas
despontando as primeiras parras, alternavam com os castanhos da terra
cavada de fresco. A cima da meia encosta, subiam os pinhais de verde
escuro e troncos castanhos listados de cinza, com flores amarelas, espa-
lhando, no ar, um cheiro resinoso e um pólen que causava alergias.
Vistas do fundo do Vale, as encostas assemelhavam-se a mantas de
retalhos coloridos, penduradas na parede, sob um tecto verde e amarelo
dos pinhais, encrostados no azul cristalino do céu.
No ar, aromas tão vários e tão agradáveis, que apetecia encher o peito
daquele ar fresco e perfumado. Enxames de abelhas atarefadas,
carregavam as suas patas do aromático e doce pólen, num vaivem
incansável, para fabricarem o líquido viscoso e tão doce, com que a mãe
lhe melava as torradas ao café, nas manhãs de Inverno.
A Maria desceu a encosta, passou a pequena ponte de pedra em arco
sobre a vala que conduzia a água ao moinho. (....) Nos salgueiros, de verde
cinzento, debruçados sobre as águas como chapéus de chuva abertos no
rio, brincavam cardumes de pequenos robalos. Melros e rouxinóis,
flauteavam, ao desafio, sem parar. O sol alegre e radioso das onze, cintilava
estrelinhas que dançavam na superfície móvel do rio, cujo movimento
constante era sempre diferente a cada remoinho, a cada curva, a cada
queda mais rápida.(....) A ar aquecido por jorros de luz solar, formava
miragens fantasmagóricas e coloridas.
Toda a Natureza brotava em vida, em cor, em viço, em música, em luz,
em movimento, acasalamento e amor, no eterno retorno cíclico da Vida,
habilmente marcado no tempo por mão de mestre infalível e sábio, no
qual o homem apenas se adapta e se integra.(....)
Assim que avistou a Maria, o Rafael pousou o picão, sacudiu a sua roupa
onde se misturava a farinha e o pó de pedra.(....)
- Sua marota!...faz tempo que não aparece. Esqueceu o velho amigo.(...)
Já não se lembra...tem outras coisas em que pensar?!
Dizendo isto, o Rafael esboçou um sorriso cúmplice(....)A Maria corou(...)
e não conteve as lábrimas.
....../.......
Trecho do meu romance "O Vale do Moinho"

NOTA. Este livro encontra-se ainda em apreciação nas editoras.

Publicado por João Norte em novembro 7, 2003 02:50 PM
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