novembro 08, 2003

Não pagamos/comentário

Não pagamos. Reitoria fechada a cadeado.

Tenho, até hoje, evitado pronunciar-me sobre os movimentos
infanto/estudantis do "não pagamos".
Sou do tempo em que, nas faculdades, nos batíamos com a pide.
Isso deixou-me uma espécie de trauma que me coíbe sempre que
pretendo criticar qualquer movimento, e leva o meu inconsciente a
defender a liberdade estudantil.
Porém, o que se passa hoje nas faculdades do país, não tem nada
a ver com as lutas do meu tempo. Nós tínhamos falta de liberdade.
Eles têm liberade. (não digo a mais porque é um conceito que nunca
é de mais. O que é de mais é o uso ou abuso que se faz dele).
Nós tínhamos consciência do mundo e da sociedade em que vivíamos,
das suas necessidades, e batíamo-nos por valores que queríamos ex-
tensivos a todos.
Hoje batem-se por situações egoístas. Olham apenas para o seu umbigo
e reclamam, para si, privilégios que outros, com os mesmos direitos, não
podem reclamar. E é aí que perdem toda a razão.
Não só o valor das propinas não é nada comparado com as despesas que
os mesmos "meninos" gastam em festivais, em roupas de marca e outras
futilidades, como muito bem aponta Helena Matos no seu artigo "Geração
bledine" - Público-7-11-03, como não é nada comparada com i que pagam
aqueles que, por décimas de diferença nas notas do Secundário, tiveram de
recorrer ao superior privado. Estes pagam num mês o que os do público
pagariam num ano. Sei que o ensino devia ser gratuito para todos. Mas, se
o país o não pode dar?!
Os meninos mimados do público julgam-se superiores e esquecem qualquer
sentido de solidariedade para com os colegas que, por variadas razões,
ficaram com essas décimas a menos.
Isto levava-nos a uma análise mais profunda que não cabe aqui. Por agora,
direi apenas que sou professor há 36 anos, conheço o sistema e as suas
mazelas.
Pode criticar-se, penalizar-se ou esquecer-se os alunos que tiveram médias
de 17, 16 ou 15 valores, mas cujo curso para que se sentem vocacionados
exige 19?
O problema é demasiado complexo. Mas, o mínimo que se deve exigir
aqueles que tiveram o privilégio, nem sempre merecido, de frequentar
o ensino público, pago por todos os portugueses-sublinhoTodos-, é que
sejam conscientes, solidários, e deixem de olhar apenas para o seu umbigo.

Publicado por João Norte em novembro 8, 2003 08:03 PM
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