novembro 30, 2003

Contra o aborto por deficiência

D. José Policarpo no 17º Econtro Nacional da Pastoral da Saúde.

Por mais que me esforce não consigo compreender.
Ou eu sou muito pouco inteligente mas sou sensível. Ou D. José Policarpo é muito inteligente mas insensível.
Com todo o respeito pela figura de D. José Policarpo, não consigo entender e muito menos aceitar que, qualquer homem inteligente e informado, diga coisas como D. José disse ontem.

“ Diante das pessoas com deficiência temos de estar preparados para intuir”(..) “ A vida não é só útil. A vida pode justificar-se apenas por ser bela”.

Não compreendo que é que D. José pretende dizer que devemos intuir. Intuir o quê?
Depois dizer que a vida pode justificar-se apenas por ser bela é uma verdade. É aqui, a meu ver, a grande contradição nas palavras e no pensamento de D José Policarpo.

Que beleza existe na vida de um deficiente profundo?

Será que D. José Policarpo alguma vez visitou um centro de deficientes profundos? Que beleza terá encontrado? Existirá alguma beleza na vida de um ser retorcido, babando-se, completamente dependente, sem ser capaz de se mover, de se alimentar, de comunicar. Será que D. José alguma vez se colocou no lugar dos pais que têm por infelicidade um filho deficiente profundo? Na tragédia que é a vida desses pais?... e desses filhos?
Não!... Com toda a certeza que não. Porque se o fez e continua a dizer coisas desta, é a personificação do cinismo, da crueldade, do desrespeito pelo sofrimento dos outros. Isso não é, não pode ser religião nenhuma.

Visitei algumas vezes, por obrigação profissional, centros de deficientes profundos. Fiquei sempre completamente apavorado. Apavorado com medo de vir a ter um filho naquelas condições. Apavorado pelo que sentia no rosto daquelas pessoas, no rosto dos pais.

Publicado por João Norte em novembro 30, 2003 02:31 PM
Comentários
Encontro, e não econtro. Já agora, esse afã de corrigir os outros é falta de educação ou amor?... Um abraço mais calmo, Francisco Nunes Afixado por: Planície Heróica em novembro 30, 2003 08:15 PM
Além de tudo o que foi dito o mais grave é que o não evitar-se o nascimento de um ser que à partida está confirmado possuir deficiência que às vezes é profunda, tão pouco se faz uma análise séria dos custos que tal situação representa quer para os pais quer para a Nação, que tão pouco possui instituições de acolhimento para proporcionar condições de vida ao deficiente.Em conclusão analisam-se as situações sem a devida profundidade. Afixado por: congeminações em dezembro 4, 2003 10:03 PM
Apetece-me dizer, a propósito do palavreado do D.J Policarpo: «Perdoai-lhe, Pai, que não sabe o que diz». Mas não digo. Nem devo. Porque o D. Policarpo sabe muito bem o que diz e até sabe dar a volta às situações e mascarar o essencial da questão com palavras melífluas. E porque D. Policarpo fala em nome de uma instuição - a Igreja católica - com muito peso e influência na sociedade portuguesa. Por isso, parece-me, mais importante que encolher os ombros, mais importante até que enxovalhar os D. Policarpos deste mundo, é desmontar-lhes os esquemas mentais. No caso particular em questão, o aborto por deficiência, o João Norte, com as suas interrogações e reflexões tão sentidas, fá-lo muito bem. E o que também me deixa agoniada nisto tudo são as repercussões e efeitos secundários do palavreado do D. Policarpo, figura de topo da igreja portuguesa. Ele fala e dá o tom. Os padres, por essas igrejas das vilas, vilarejos e aldeias do país, repetem coisas como esta e outras, nas homílias das missas de Domingo. E as pobres das mulheres, que até já se viram na necessidade de abortar mais do que uma vez, mas até são crentes e praticantes, vão ficando cada vez mais enredadas em confusões mentais e sentimentos de culpa. (culpa e castigo, coisas tão preciosas à igreja católica!...). E esses sentimentos de culpa são torturantes, não matam mas moem. Por isso, ao palavreado do D. Policarpo, só me apetece responder: Vade Retro!... Afixado por: Vanda Duarte em dezembro 5, 2003 04:06 PM
blabla Afixado por: lurdes em dezembro 6, 2003 07:50 PM
Afinal sempre deu,...um aparte! O meu descontentamento sobre o aborto prende-se com a manifesta incredulidade de senhoras, ditas de grande pregação catolica, associarem aos seus actos de carência moral necessidades sociais, tais como, o aborto. Assim sendo é de lamentar que certas mulheres ainda contestem esta necessidade real, usem e abusem das suas imaculadas frustações e façam publicidade às suas cumplicidades mesquinhas, com causas como esta, o aborto! Houve um referendo, que infelizmente serviu para lavagem de roupa suja politica, contestatários abriram as suas programadas edeologias para garantir, "através desse referendo", uma quinta no parlamento; em Portugal é assim, contestam-se vontades mudam-se opiniões, não existe ligação social ou democrática, mas sim um manifesto interesse do poder.Mas não deixando cair o brilho, penso que deveria haver um outro referendo e mais tantos quantos pudessem advertir com seriedade esta questão, que é tão humanamente brutal para a mulher em geral. Em todas as sua vertentes, o aborto é um acto de manifesta necessidade, e a mulher é quem sente este acto com toda a implacável furia social, económica e psiquica que isso possa implicar. NUma sociedade, ainda excluvista e maxista, o aborto assume identidade mascarada, resoluta e absoleta, pela ordem catolica,ao mesmo tempo que assume uma outra identidade;a necessária, a alternativa, a imposta pela lei e sobre a lei. O aborto sendo a esperança de um contra senso é um acto praticado por toda a mulher, independente do extrato social, da cor, da idade...o aborto é a realidade assumida da não procriação.Chamemos anti-natural, mas no fundo com o avanço da biotecnologia, que será para nós o anti-matural? Afixado por: Bábá em dezembro 6, 2003 08:09 PM
Boa noite, Quanto a esta questão, não sendo jurista, parece-me que isto faz todo o sentido: A jornalista Fátima Campos Ferreira entrevistou, julgo que no decorrer do ano 2003, uma investigadora da área da genética, na circunstancia sobre a clonagem, dado que na altura se divulgou que um grupo clonou um bebé humano. Quando questionada sobre o assunto, a sra. investigadora disse que a generalidade da classe cientifica considera que sensivelmente a partir do 8 DIA de gestação estamos perante um novo SER HUMANO. Ora, a Constituição da República Portuguesa diz no seu artigo 24º alínea 2 "A vida humana é inviolável", donde qualquer lei que despenalize ou legalize o aborto parece-me inconstitucional. A discussão sobre o aborto está demasiado centralizada no ponto errado: O sofrimento da mulher que faz aborto e a vergonha de ter de ir a tribunal. Em primeiro lugar, se não fizer aborto, não lhe acontece nem uma coisa nem outra; Depois, mais que o sofrimento ou a vergonha de ter de ir a tribunal, é a perda daquele novo ser humano, que perde tudo: A vida. É ridícluo que, num país onde se garante que qualquer criminoso, condenado pelos tribunais pelos piores crimes possíveis, em caso nenhum será condenado à morte, nem tãopouco pode legalmente ser alvo de castigo cruel ou desumano, mas quanto àqueles que são absolutamente inocentes, a estes diz-se "matem-nos"! Afixado por: Ricardo em janeiro 19, 2004 11:13 PM
Aborto. Sim ou não? Ontem, 19-01-2004,no programa Prós e Contras do Canal 1, a Exma sra dra eng. arquitecta paisagística Ana Benavente fez repetidas vezes uma afirmação extraordinariamente brilhante: "A comissão europeia já fez a distinção entre VIDA HUMANA e PESSOA HUMANA", sendo a última aquela que já nasceu. Art. 24º al. 2) da Constituição da República Portuguesa: "A VIDA HUMANA É InVIOLÁVEL". Qual é a parte que não percebe? Quanto às acusações de intolerância que a deputada comunista fez aos que são contra o aborto, só tenho isto a dizer: Não se trata de intolerância. Trata-se sim de duas coisas distintas. Por um lado, o zelo pela lei fundamental deste país. Não se pode fechar os olhos, porque se começamos a fechar os olhos, às tantas isto torna-se uma selvajaria onde se pode fazer tudo, desde burlar até tirar olhos. Por outro lado, não posso ser a favor, e nem sequer posso me abster nesta questão, porque nesse caso tornar-me-ia cúmplice dos crimes e do sangue inocente derramado. Por isso, tenho que me opor e fazer tudo ao meu alcance para que tal lei não venha a vigorar neste país. Afixado por: Ricardo em janeiro 20, 2004 01:45 PM