Para quem atravessa o Rio todos os dias
Tínhamos chegado ao Martinho. Sentámo-nos numa mesa cá fora, sob as arcadas, observando as torrentes humanas que desaguavam das ruas descendentes e se misturavam no estuário da grande praça, num colorido formigueiro que se atropelava e deaparecia em todas as direcções. Bandos de pombos levantavam da estátua equestre, que se mostrava de flanco, e voavam na sua graciosidade descontraía, indiferentes às graves decisões, aos assuntos sérios que, lá dentro, homens sisudos, nos seus fatos escuros, decidiam e assinavam.
Os barcos acostavam ou partiam com lentidão, sulcando a água turva do Rio.
. Os eléctricos passavam junto a nós, tilintando, as todas de ferro rangendo nos carris. Pessoas corriam para apanhar o primeiro transporte, ainda que houvesse outro logo a seguir, como se a vida dependesse desse gesto apressado, desse ganhar de um instante antes de terminar ali mesmo, como se esse transporte fosse o último. É um espectáculo impressionante, estar sentado e ver correr as pessoas nesta luta apressada pela vida. Todos nós nos comportamos assim, mas só quando paramos junto de um destes locais, nos apercebemos da espantosa, quase ridícula, pressa com que as pessoas quase lutam, se atropelam por um transporte imediato.
É espantoso como eu só me apercebi deste espectáculo pelo facto de estar parado. E, pela primeira vez, perguntei a mim mesmo:- Porque será que as pessoas não param?!...Será que, andando sempre a correr, se ganha tempo ou se perde tempo?!...Mesmo não falando, da ansiedade, do “stress”, quantas coisas boas nos passam ao lado sem que as vejamos?...Nesta praça, além dos arcos e da estátua, não há muito que apreciar e, sobretudo, não há algo de muito belo que nos cative a atenção. Mas não é por isso as pessoas têm necessidade de ir sempre a correr. Lisboa tem tantos recantos lindos, tantos jardins floridos, os famosos jacarandás, quem é que repara nisso, quem é que pára para cheirara uma flor, descansar, um minuto que seja, no banco do jardim, em vez de ir sempre a correr, com a ilusão de ganhar tempo. Parece que todos queremos embarcar no comboio que seja o mais rápido, na máquina do tempo, à velocidade da Luz, na ânsia de não deixar nada para trás, resolver tudo, como se cada dia fosse o último da vida, disso tivéssemos conhecimento antecipado, e não quiséssemos deixar nada por fazer, como se após a morte alguém nos apresentasse a lista do que ficou por acabar.
Naquele momento senti uma espécie de saudade da infância vivida na quinta do meu pai, onde o tempo era o que o Sol marcava, a velocidade era a da Natureza, do passo dos animais e não das máquinas. Ali, levantar cedo permitia aspirar o ar puro da manhã, iniciar as tarefas sem ir a correr para lado nenhum, nem acotovelar ninguém. E à noite, tudo parava naturalmente.
Trecho do meu livro "amores em tempo trocados"