janeiro 15, 2004

Sexo e Violência

Esta sociedade cada vez mais complicada em que vivemos, parece começar agora a acordar para um problema que, há muito vem emergindo e pondo em choque quem estava demasiado distraído. Refiro-me à violência e, mais exactamente, ao sexo e a violência.
Segundo os manuais da psicologia e da psiquiatria, o sexo sempre esteve aliado à agressividade, a força da “libido” a energia criadora. Todavia, é necessário diferenciar agressividade e violência. A agressividade é um atributo, é criativa, construtiva, a violência é brutalidade, necessidade de destruir, de vencer, de dominar, de humilhar. É um acto covarde.
Somos o único animal dotado de uma característica especial – a emotividade. E também o único em que o sexo não está apenas ligado à continuidade da espécie, mas à emoção e ao prazer. Como somos o único animal cujo comportamento sexual não é apenas resultado da força natural criativa mas também da educação. E esta resulta de múltiplos factores que seria impossível aqui referir sem tornar este texto muito chato.
A violência banalizou-se na nossa sociedade de tal maneira que deixámos de a ter em atenção nos seus efeitos imitativos. Assiste-se à violência na televisão, no cinema, nas revistas, na estrada e em casa. Se juntarmos as disfunções do comportamento humano, as taras, os traumas, a necessidade de vencer, de dominar, com os maus exemplos da educação , ou falta dela, encontraremos o caldo onde fermenta muita da violência sexual.
Não sou um especialista em psicologia, sou professor de uma disciplina que pouco tem a ver com isso. Tenho é uma larga experiência com crianças e adolescentes, e não resisto a contar aqui um caso ilustrativo.
Um dia cheguei à sala de aula e deparei com um grupinho de adolescentes muito atentas a ler uma revista. Mandei que arrumassem para começar a minha aula. Porém, os alunos insistiram para que eu visse a revista. Fiquei chocado. Era uma revista pornográfica. (tratava-se de adolescentes com 12/13 anos). Como sempre tive capacidade de dialogar com as crianças e adolescentes, chamei-lhes a atenção para os perigos que corriam. Muito educadamente as alunas pediram-me que lhes explicasse algumas coisas porque, diziam, os adultos só sabiam repreender e ninguém lhes explicava nada. Assim prestei-me a uma aula de educação sexual. Com muita calma e cuidado fui tentando fornecer explicações científicas para as dúvidas que me foram postas e alertando para os perigos de ordem psicológica física e social que o sexo pode trazer, sem fugir às respostas. Devo dizer que foi uma experiência interessante pelo comportamento respeitoso que os alunos mantiveram e como aceitaram as explicações. Mas um dos alunos, o mais indisciplinado da turma, manteve-se sempre calado. Eu perguntei-lhe:- e tu não tens dúvidas? Resposta do aluno (12 anos).
Eu... Stor, passo os serões dos Sábados a ver filmes pornográficos com o meu pai.

Publicado por João Norte em janeiro 15, 2004 04:53 PM
Comentários
É por estas e por outras (pelas ignorâncias e equívocos que existem nos nossos jovens) que eu defendo que é absolutamente fundamental haver Educação Sexual mas escolas logo desde o 1º Ciclo e com um carácter transdisciplinar. No momento presente, e com esta equipa governativa, está a haver um recuo muito grande na matéria. Enfim, com a Dra Mariana Cascais como Secretária de Estado da Educação, o que é que se estava à espera? De qualquer forma, se não fosse com ela, seria com outro qualquer. Lamentavelmente parece que a sexualidade é uma questão ideológica (o que se estende tb à questão do aborto). De qualquer forma julgo, também, que os Pais/Encarregados de Educação (com excepções, obviamente), são bastante culpados pelo muito que os jovens pensam, julgam saber e que, ignoram, de facto. Não é escondendo a realidade que se evitam os problemas. Antes pelo contrário! A acrescentar e, da mesma forma, problemático, a preparação pela parte dos professores. E também o seu interesse (ou falta dele) para tal preparação. Uma nota: não concordo com a designação "Educação Sexual". Prefiro, antes, "Educação para a Sexualidade". Esta sim, é verdadeiramente ilustrativa da abrangência da questão. É que Sexualidade não é só sexo. Esse é um equívoco brutal. E um contributo igualmente enorme para a reticência que muitos pais têm da abordagem do(s) assunto(s) com os seus educandos, nos estabelecimentos de ensino. Afixado por: Sandra em janeiro 15, 2004 06:56 PM
Obrigado pela correcção. Concordo plenamente, quando eu falo em sexual penso realmente em sexualidade, mas são frases feitas a que nos habituamos. Afixado por: Joao Norte em janeiro 15, 2004 07:23 PM
Lembrou-me a nova musica da Rita Lee, que faz em sua letra uma comparação entre Amor e Sexo. E lembrei também da novela das oito, "Celebridades", que nunca assisti um capitulo todo, mas antes de ontem as 4 primeiras cenas do dia, foram em cima de uma cama, om lençóis, mulher batendo na amante, intrigas, lingeries, enfim... "Esta novela se passa em camas??" Triste. beijos Afixado por: Mari em janeiro 16, 2004 12:08 PM
gostei deste texto. penso que devias desenvolver mais assuntos deste género neste espaço. como professor deves ter histórias muito interessantes para nos contar. Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 17, 2004 08:25 PM