janeiro 20, 2004

A primeira paixão

Tinha uma daquelas turmas em que as escolas agrupam os filhos dos professores, dos médicos conhecidos, e os alunos que, no ano anterior, obtiveram as melhores notas. Depois escolhem-se os melhores professorers. É um erro pedagógico em que incorrem muitas escolas. Prejudica os outros alunos e também não beneficia estes, a não ser pela escolha dos professores. Por outro lado, limita-lhes a realidade e a sociabilização.

Um dia, acabada uma unidade didáctica, entreguei a respectiva ficha de avaliação. Um dos alunos, o Paulo, filho de um casal de médicos, catorze aninhos, inteligente e sensível, amochou a cabeça na mesa e nada de trabalhar. Pensei:
- Malandro não estudou.
- Paulo, estás com sono ou o quê?
Não houve resposta. Levantei a voz.
- Paulo!...Faz o exercício!...Não vou fazer outra ficha só para ti!
O Paulo desatou a chorar convulsivamente. As lágrimas a molharem o papel e o trabalho por fazer.
Sentei-me na minha cadeira pensando comigo.
- Bonito serviço!... Para que raio andaste a estudar Pedagogia? Gritaste com o aluno sem saber o que se passa.
Mas não podia, ali em frente dos outros alunos, fazer mais nada. Quando a aula acabou, mandei sair os outros e disse-lhe.
- Paulo anda aqui falar comigo.
- Ó Paulo, eu não estou zangado contigo. Só queria o trabalho feito. Agora vou ter de preparar outra ficha só para ti. Isso dá trabalho. Entendes? Porque é que não estudaste?
Novo ataque de choro.
- Não é nada com o Stor. Desculpe! Eu faço a ficha com outra turma. Eu estudei Stor, eu sei a matéria toda.
- Então o que é que se passa?
- Eu estou apaixonado!
- Mas isso é óptimo, Paulo! Não é razão para não fazer a ficha nem para chorar!
- Pois ...Stor. Mas eu estou apaixonado pela Catarina, e ela namora com outro.
- Bom. Acalma-te lá. Para a próxima semana fazemos a ficha. Vai lá embora.
Fiquei a bater o lápis nas fichas dos alunos e a pensar. Porque é que nós esquecemos como nos marcou a primeira paixão, como foi difícil lidar com ela, quanto nos doeu? Se tivéssemos isso sempre presente, quando lidamos com os adolescentes, evitaríamos muitos conflitos, muitas incompreensões.

Publicado por João Norte em janeiro 20, 2004 02:22 PM
Comentários
Assim que entra o coração, acaba-se a lógica. Não foi a primeira nem será a última. Afixado por: vmar em janeiro 22, 2004 10:39 PM
Não é apenas a primeira paixão que esquecemos. Esquecemos demasiadas coisas belas... E depois não as vemos nos olhos dos outros. Afixado por: fairy_morgaine em março 24, 2004 09:46 PM