Tinha uma daquelas turmas em que as escolas agrupam os filhos dos professores, dos médicos conhecidos, e os alunos que, no ano anterior, obtiveram as melhores notas. Depois escolhem-se os melhores professorers. É um erro pedagógico em que incorrem muitas escolas. Prejudica os outros alunos e também não beneficia estes, a não ser pela escolha dos professores. Por outro lado, limita-lhes a realidade e a sociabilização.
Um dia, acabada uma unidade didáctica, entreguei a respectiva ficha de avaliação. Um dos alunos, o Paulo, filho de um casal de médicos, catorze aninhos, inteligente e sensível, amochou a cabeça na mesa e nada de trabalhar. Pensei:
- Malandro não estudou.
- Paulo, estás com sono ou o quê?
Não houve resposta. Levantei a voz.
- Paulo!...Faz o exercício!...Não vou fazer outra ficha só para ti!
O Paulo desatou a chorar convulsivamente. As lágrimas a molharem o papel e o trabalho por fazer.
Sentei-me na minha cadeira pensando comigo.
- Bonito serviço!... Para que raio andaste a estudar Pedagogia? Gritaste com o aluno sem saber o que se passa.
Mas não podia, ali em frente dos outros alunos, fazer mais nada. Quando a aula acabou, mandei sair os outros e disse-lhe.
- Paulo anda aqui falar comigo.
- Ó Paulo, eu não estou zangado contigo. Só queria o trabalho feito. Agora vou ter de preparar outra ficha só para ti. Isso dá trabalho. Entendes? Porque é que não estudaste?
Novo ataque de choro.
- Não é nada com o Stor. Desculpe! Eu faço a ficha com outra turma. Eu estudei Stor, eu sei a matéria toda.
- Então o que é que se passa?
- Eu estou apaixonado!
- Mas isso é óptimo, Paulo! Não é razão para não fazer a ficha nem para chorar!
- Pois ...Stor. Mas eu estou apaixonado pela Catarina, e ela namora com outro.
- Bom. Acalma-te lá. Para a próxima semana fazemos a ficha. Vai lá embora.
Fiquei a bater o lápis nas fichas dos alunos e a pensar. Porque é que nós esquecemos como nos marcou a primeira paixão, como foi difícil lidar com ela, quanto nos doeu? Se tivéssemos isso sempre presente, quando lidamos com os adolescentes, evitaríamos muitos conflitos, muitas incompreensões.