janeiro 26, 2004

Praia da Nazaré antes do Porto de Abrigo

Quando o primeiro bote se aproximou da rebentação, um silêncio pesado caiu sobre todos, como se toneladas de água os sufocassem. O Zé Gato fixou aquele minúsculo barco; os homens remavam com saber e com toda a energia de que dispunham. Não eram principiantes; eram marinheiros experimentados: Ora remavam rápido ora abrandavam, tentando esquivar-se ao quebrar de cada onda. Num instante, como um gigante emergindo das profundezas, uma onda envolveu-os num rodopiante castelo de espuma. O barquito voltou à tona, de casco para cima. O Zé Gato, como todos presentes, ficaram sem respiração. Os dois homens batiam-se como possantes animais encurralados pelo fantasma da morte. Na praia, as mulheres soltavam gritos que ecoavam contra o rugido trovão do mar. Repelavam mãos cheias de cabelos e rasgavam as próprias faces. Os homens pareciam pregados na própria areia. Imóveis, sem um gesto, sem um único som.
Ao seu lado, um deles contraía a face, cerrando os dentes. Tinha os olhos fixos, as mãos crispadas, as unhas penetrando a carne como se quisesse transmitir toda a sua energia aqueles a quem a própria se ia esgotando.
O som de uma sirene cortou o ar pesado. Saindo do portão de ferro da capitania, um barco guarnecido de bóias era empurrado para o areal. Alguns marinheiros vestiam coletes e saltavam para o barco. Mas era tudo tão longe, tão lento. Da capitania ao mar um areal tão extenso, que tudo levaria muito tempo, demasiado tempo para ser posto a navegar.
O Zé Gato sentiu crescer dentro de si a força e a raiva. Eram homens do mar como ele, batendo-se contra a morte, tão perto dele. Num gesto brusco despiu o casaco e atirou fora os sapatos, pronto para se atirar de cabeça contra aquelas pesadas muralhas de água espumosa em movimento. Uma mão pesada e forte segurou-lhe o ombro. Um velho, em que as brancas barbas e a tez queimada mostravam muitos anos de mar, mas a rigidez do corpo apresentava ainda muito vigor, tinha os músculos retesados e as lágrimas retidas a custo, disse em tom brando, mas de quem está habituado a ser obedecido:
Não jovem!... o seu gesto é nobre e valente !... Aqueles que ali se batem contra a morte, são meus filhos... mas se o salva- vidas não chegar a tempo....- e susteve, por momentos, a voz cortada pela dor.... Se eles não conseguem sair, muito menos alguém conseguirá entrar neste mar cão.... morreriam eles e todos os que tentassem salvá-los. A experiência ensinou-nos que ninguém tem o direito de deixar que se matem quatro ou mais um que seja para tentar salvar outro, quando temos a certeza de que morreriam todos.... É a nossa miséria.... o nosso destino!...
E em poucos minutos, que pareceram um infinito espectáculo dramático da impotência humana contra a força bruta da Natureza, aqueles homens valentes desapareceram perante o desespero de todos os outros como se a morte fosse uma fatalidades, como se fosse um tributo, o preço a pagar pelo direito de outros continuarem vivos e a sofrer.

Trecho do meu livro "O Vale do Moinho"

Publicado por João Norte em janeiro 26, 2004 10:52 AM
Comentários
um retrato neo-realista das gentes do mar. muito bem escrito. Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 26, 2004 10:33 PM