março 18, 2004

Escrevo no corpo dela

O corpo dela é página em branco estendida na minha frente. Branca, inerte, sem oposição, sem luta, sem ódios, sem traços, sem marcas do tempo nem passado, à espera dum tempo que marque com traços de fogo, cicatrizes de sangue o rasto da minha caneta.
A minha mão pega na caneta e treme. Treme de fúria, de força e vigor, de ânsia e de incertezas. Treme, mas escreve. Escreve como se traçasse caminhos num espaço vazio de sombras, como se rasgasse montanhas e vales na escuridão dos desejos por realizar, das esperanças prometidas, dos projectos guardados, do amor contido dentro da alma que deseja e sofre.
Escrevo, e a caneta é lâmina marcando na sua pele sedosa caracteres pessoais que só eu entendo, que só eu sei o que dizem, que só eu sei o que significam. Caracteres indecifráveis a quem não ama, a quem nunca amou com paixão.
Contorno com a minha mão as formas do seu corpo com curvas de dessejo rasgando sentidos e escrevo na sua carne a força da minha carne. Escrevo uma realidade em retalhos de sonho e pedaços de sexo e hesito naquilo que escrevo primeiro. Sonho ou sexo? Sem saber o que me move com mais força, mais pressa, mais urgência. Sem saber o que vem primeiro, o sonho o sexo, o amor? Ou será o sonho, a paixão, o amor e o sexo? Que importa?!... Escrevo!
Com os meus dedos desenho o desejo no corpo dela, nos lábios dela que se estendem e oferecem aos meus lábios, aos dedos, à minha caneta que os escreve. Escrevo o meu corpo no corpo dela em texto indelével que o tempo não apagará. Escrevo no seu corpo as minhas paixões, as minhas vaidades, as minhas volúpias, os meus erros, os meus medos, as minhas ânsias a máscara da vida e da morte, antes que a morte me interrompa, e a escrita inacabada deixe o texto na escuridão da noite que se consome no tempo do espaço vazio.
Escrevo nos seus olhos o brilho que me alumia o caminho, que não sei precorrer na noite sem escrever. Escrevo como quem percorre a casa ligando as lâmpadas, abrindo as portas para que o vento empurre a alma, liberte o corpo, deixe o espírito vaguear no espaço sem limite, e o sonho correr para lá do horizonte, para lá do possível.
Na sua boca escrevo as palavras sentidas, deixadas cair em momentos de paixão sem concrole, em que o sangue nos corre nas veias fervendo, queimando os sentidos. Escrevo os silêncios. Escrevo o vento, companheiro da nossa aventura, porta-voz do nosso sofrimento.

Publicado por João Norte em março 18, 2004 10:36 AM
Comentários
sugestivo. cinematográfico. imagens emotivas. tenho concorrente. outra coisa: os teus textos de intervenção social são uma maravilha. continua ainda mais nesse registo. Afixado por: fernando esteves pinto em março 18, 2004 10:50 AM
Não tens concorrente. As capacidades são menores, o estilo é diferente. Mas porque também escrevo sei dar o valor a quem escreve tão bem como tu. Quanto aos textos sociais foram há tempos a minha experiências no Jornal local. Afixado por: Joao Norte em março 18, 2004 11:45 AM
Subscrevo a 1ª frase do Fernando. Continua, João. Presenteia-nos com mais textos deste género. A prática contribuirá, eventualmente, para a tua qualidade crescente (para além da já existente, obviamente). :)*** Afixado por: Sandra em março 19, 2004 08:44 PM
Escrever os silêncios é sempre muito difícil. Exige dedicação e entrega sem limites. :*** Afixado por: fairy_morgaine em março 23, 2004 06:10 PM