Não quero o teu silêncio. O teu silêncio é opressor dos nossos sentimentos. Quero que grites. Quando nos amamos não gritas. És egoísta. Guardas para ti aquilo que sentes ou não sentes nada. Eu quero partilhar aquilo que sentes. Tu não fazes amor comigo. Tu fodes em silêncio como se foder fosse uma obrigação, um acto banal, comezinho sem interesse e sem entusiasmo. Como uma refeição sem fome e sem tempero, em qualquer dia banal da vida quotidiana. O teu orgasmo é apenas físico, mera explosão de energia, mudo, contido, sem som, nem expressão do teu rosto. Fodes sem raiva, cada vez com menos raiva. Eu não quero foder sem amor nem raiva. Não quero ser passiva, abrindo as pernas como quem abre gavetas e se deixa encher das tuas vaidades imundas. Quero esse acto como acto de amor partilhado. Quero gritar bem alto o prazer e a dor, para que o prazer e a dor penetrem nas minhas veias, no meu inconsciente, no fundo do meu passado. Quero que o teu grito fique indelével, gravado na minha memória, percorra as minhas veias como o sangue que me alimenta. Não quero que o reu grito se perca no vazio do espaço silencioso, na penumbra das noites sem história, no fundo perdido da nossa memória. Quero que os nossos gritos de amor façam calar o ruído do mar, o uivo do vento que sopra nos montes gelados do inverno do nosso viver, o grito dos fantasmas que me atormentam. Que se calem os tambores, as flautas dos poetas falhados. Quero que este grito passe de geração em geração. Se transmita no meu sangue como o pecado que herdam todos os amantes.