O silêncio tem uma estranha forma de gritar.
É um grito que nos sai directamente dos lábios e nos entra no cérebro sem passar pelos ouvidos.
Assim há quem diga que não o ouve... mas garanto que o sentem.
É impossível não sentir o silêncio a gritar entre duas pessoas que fingem dormir no leito, sem fazerem amor, sem gritarem de prazer, sem apertarem as mãos, sem desenharem os rostos... Que fingem dormir e esquecer a miséria que é a sua vida em comum.
Ou quando uma mãe vê o filho toxicodependente entrar em casa e murmura consigo mesma "é tão sossegado o meu filho, tenho tanto orgulho dele..." e depois fica o silêncio a quebrar esses pensamentos.
É isso que as pessoas receiam. A capacidade que os gritos do silêncio têm de desmascarar até a mais bela esfinge. É impossível fingir que não se sente o constrangimento, o amargo de boca.
O mais belo acto de amor é partilhar o silêncio.. Deixá-lo estender-se nas nossas mãos e beijar-nos docemente os lábios. Os amantes mais felizes são aqueles que não receiam o silêncio e as suas revelações.
O silêncio é a antítese das palavras... A negação da arte. E porém é todo ele artístico, todo ele cheio de palavras, cheio de gritos, cheio de tudo e cheio de nada...
Quando ela terminou este discurso poético ele sorriu-lhe, tomou-a nos braços e sussurrou-lhe ao ouvido: "hei-de capturar a essência do silêncio numa flor de cristal para te oferecer e ver-te chorar de felicidade...". Ela retorquiu num murmúrio ainda mais subtil.. "não meu amor... o silêncio é livre. e é essa liberdade que aprendemos a recear."
Silvia Fairy
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Os meus agradecimentos à autora.
Publicado por João Norte em março 30, 2004 07:13 PM