Dentro da urna parecia dormir serenamente. Ali estava imóvel. Pareceu-me mais bela do que nunca.(...) Pousei-lhe um beijo na testa gelada e com um gesto de desalento, coloquei a seus pés, as flores que tinha comprado ainda com tanta esperança.
Fechei os olhos e vi pontos de luz. Pequenos pontos que nos habitam quando fechamos os olhos. Pontos de luz que se aproximam e se afastam na escuridão cada vez mais negra, cada vez mais absoluta. Eu avançava naquela escuridão. Eu avançava na escuridão dela. Aquela mulher que eu amava, aquela mulher partira de dentro de mim, do lugar onde tinha estado durante muito tempo. E, nesse lugar tinha deixado um buraco negro que devorava, uma dor, um frio, uma escuridão. Agora, que eu sentia essa dor, que só via essa escuridão, nessa dor eu ouvia as palavras dela, as nossas palavras, ditas em momentos de amor. Agora fazíamos ambos parte de um infinito na escuridão. E, nesse infinito, era real cada um de nós. E as nossas palavras perdiam-se no vazio dessa escuridão.
Ouvi as palavras dela, as palavras de nós, que tinham sido ditas em momentos de amor, e senti culpa. Culpa e medo. Culpa porque fugira dela, fugira de mim, fugira do amor. O único que tivera. Medo das suas palavras doces e meigas que ressoavam na minha memória e me culpavam da sua perda, da perda do amor dela. Medo do castigo, da esperança que corria na minha frente sem se deixar alcançar. O espaço do medo infinito. O espaço da culpa era grande. Só a escuridão continuava, espessa e impenetrável.
Quis dizer-lhe tantas coisas que ficaram por dizer. Quis dizer-lhe que era mentira, que não estava ali no silêncio daquela sala de morte. Quis dizer-lhe que queria dançar com ela aquela música suave e alegre no clube da vida. Para toda a vida. Quis dizer que não haveria mais música sem a sua presença. Quis dizer-lhe que o gerente tinha fechado o clube.
Quis dizer-lhe a dor que sentia dentro de mim, que a sua imagem caminhava dentro de mim. O silêncio daquele lugar onde dormia o sono da morte caminhava dentro de mim. Tudo o que tinha estado antes daquele lugar avançava dentro de mim. A luz as sombras, os sons e os silêncios avançavam dentro de mim como facas cortantes. Quis dizer que errei, que fracassei. Quis dizer-lhe que também estava morto.
Recostei a cabeça e quis descansar da exaustão. Eu via uma estrada negra por onde ela caminhava e eu caminhava também nessa estrada negra. A sua beleza afastava-se. Devagar, muito devagar, para longe, para muito longe, até desaparecer sem lhe poder tocar.
Trecho de um romance meu em preparação.