abril 22, 2004

Com Palavras se faz a Poesia


A poesia ocorre-me com o sonho. Meio a dormir meio acordado, naquele estádio sem ser estado, o sonho já sonhado se separa e foge. As palavras correm, vêm e voltam, porque a noite que as trouxe se vai afastando, e o dia que as leva vai chegando. Não há ainda realidade. Não há verdade. Há sombras e imagens, há sonho inacabado. O dia traz o real e, no real, não há sonho. O real penetra nos sentidos, afasta o sonho, abafa a poesia. O real magoa. E, se fechamos os olhos, ficam os sons e os ruídos que ferem os ouvidos. O real permanece dentro de nós, impõe-se sem perguntar se o queremos suportar.
De manhã, antes do dia chegar, havia poesia. Eu não escrevi a poesia, deixei fugir as palavras que havia no poema. Quanta poesia ficou por escrever? Quanta poesia ficou por fixar. Então eu chamei as palavras, uma a uma, por vezes, só uma sílaba, uma frase solta, desordenada. As palavras que eu queria fixar na poesia. Coloquei as palavras, cada uma no seu lugar. O verbo, o adjectivo. Organizei o sentido, compus o texto. E o texto foi crescendo, foi falando, foi dizendo o que eu sentia e nasceu a poesia. Por vezes correndo à minha frente impondo-se na minha mente. Apenas me pedindo a caneta e o papel. A poesia organizando-se dentro de mim.Com rimas ou sem rimas. Apenas texto, apenas ideias, sentimentos, dores, amores e sofrimentos. Passado, memória, às vezes sem glória. Palavras tristes, sem cor, falando de mim, falando do que amei e do que sofri. Outras coloridas como flores plantadas num jardim. Canteiros de palavras geométricas. Palavras tétricas, falando de morte. Palavras sem norte, desvairadas, desorientadas. Palavras ácidas, que ferem, que não se querem , palavras agressoras que magoam. Palavras inimigas, ofensivas, carnais, intestinas, cretinas, rudes, brutais. Palavras sem importância, de circunstância, banais. Palavras finas, delicadas, preparadas, doces enfeitadas, cativantes, aliciantes, encantadas. Palavras perdidas, sofridas sem rancor. Palavras de AMOR.

Publicado por João Norte em abril 22, 2004 03:09 PM
Comentários
UI...oa ssunto tem pano para mangas...minha jóia! Abraço, WB Afixado por: whiteball em abril 22, 2004 10:14 PM
Muitas vezes somos simples veículo delas. Afixado por: fairy_morgaine em abril 22, 2004 10:43 PM
Tenho para comigo um conceito de poesia, que não obriga a rimas, quadras, tercetos, sonetos. A poesia é para mim, o nosso sentido de vida. Quanta poesia encerra, um simples escrito, quando damos asas à nossa liberdade interior. Afixado por: jgonçalves em abril 22, 2004 10:56 PM