Uma sondagem dava-nos há pouco tempo como o povo mais pessimista de Europa. Já sabíamos que ser pessimista, fatalista, saudosista, gostar de fado, não acreditar em nada que seja nosso, gostar de comprar tudo o que é feito lá fora ainda que seja pior do que os portugueses fazem, são características que nos vêm de muito longe, talvez desde que verificámos que a Índia não nos enriquecia e que nos estão coladas como parte da nossa pele.
Porém o problema actual não é infelizmente apenas uma característica. Não era disso que a sondagem falava como não é disso que falam os números, tanto os do FMI como os do Banco de Portugal. Esses números falam da quebra do poder de compra e da quebra do consumo daí resultante. Os números falam da diferença entre a média dos salários nacionais e a média europeia. Os números falam do maior custo de vida em Portugal do que a média europeia. Os números falam de muitos milhares de pessoas portuguesas que passam fome. Os números falam da falta de cuidados de saúde e da espera por cuidados que deviam ser imediatos. Os números falam de creches a fechar e nenhuma a abrir. Os números falam de meio milhão de portugueses sem emprego. Os números falam dos lucros desenfreados da banca e das grandes companhias de serviços necessários e seguros. Os números falam do défice descontrolado, apesar do governo nos querer tapar os olhos vendendo o que outros anteriores tinha guardado. Os números falam de corrupção que se estende pela sociedade portuguesa como uma epidemia de tuberculose incurável, misturando política com futebol e negócios imobiliários, os números falam da compra de carros de luxo atentatório à dignidade de quem paga impostos. Os números falam-nos em tantas coisas que nos deixam envergonhados quando falamos com estrangeiros.
Há dois anos estávamos de “tanga” agora estamos a nu.
Será que ainda alguém espera que os portugueses tenham vontade de rir?