Desde muito novo sempre gostei de viajar. Era como sair dum sufoco quando conseguia atravessar a fronteira. Foi das coisas que mais me fez revoltar contra o regime antes de 74 as dificuldades de obter passaporte. Apesar do meu pai ser um pequeno proprietário rural era muito conceituado nos meio concelhio, mesmo assim várias vezes só com o empenho do seu amigo presidente da Câmara conseguia que nos passassem passaporte. Não ia muito longe mas dava para ir ali a Espanha. O meu irmão, mais velho do que eu 9 anos, um dia viu o passaporte recusado com a indicação da PIDE de que ele queria ir para França trabalhar. A situação tornou-se caricata porque o próprio funcionário do Governo Civil de Leiria onde ele pediu o passaporte era inclino dele num prédio na Marinha Grande. Então quando o meu irmão foi para levantar o passaporte o funcionário ficou embaraçado. Não tinha poderes para contrariar a PIDE mas estava perante o senhorio e sabia que o meu irmão vivia de rendimentos. Foi ele próprio apresentar o caso ao Governador Civil que, obviamente, também ficou embaraçado.
Isto é apenas um episódio de muitos que aqueles que nasceram depois de Abril de 74 não sabem avaliar. E agora com a facilidades de viajar pela Europa apenas com Bilhete de Identidade, sem parar nas fronteiras é um alívio, um sabor a Liberdade que não consigo ficar sem me emocionar com a União Europeia como uma realidade. Sempre desde muito novo odiei os nacionalismos. Mais tarde, quando estudante( e digo tarde porque estudei só em adulto) conheci a célebre frase de Sócrates “não sou Ateniense nem Grego, sou um cidadão do mundo) considero dos pensamentos mais importantes da História. Era assim que gostava de me sentir. Foi isso que sempre ensinei aos meus alunos. O ser humano pertence ao planeta Terra. Foram os interesses políticos que lhe criaram fronteiras e lhe limitaram os movimentos.