maio 01, 2004

VIVA A EUROPA ALARGADA

Desde muito novo sempre gostei de viajar. Era como sair dum sufoco quando conseguia atravessar a fronteira. Foi das coisas que mais me fez revoltar contra o regime antes de 74 as dificuldades de obter passaporte. Apesar do meu pai ser um pequeno proprietário rural era muito conceituado nos meio concelhio, mesmo assim várias vezes só com o empenho do seu amigo presidente da Câmara conseguia que nos passassem passaporte. Não ia muito longe mas dava para ir ali a Espanha. O meu irmão, mais velho do que eu 9 anos, um dia viu o passaporte recusado com a indicação da PIDE de que ele queria ir para França trabalhar. A situação tornou-se caricata porque o próprio funcionário do Governo Civil de Leiria onde ele pediu o passaporte era inclino dele num prédio na Marinha Grande. Então quando o meu irmão foi para levantar o passaporte o funcionário ficou embaraçado. Não tinha poderes para contrariar a PIDE mas estava perante o senhorio e sabia que o meu irmão vivia de rendimentos. Foi ele próprio apresentar o caso ao Governador Civil que, obviamente, também ficou embaraçado.
Isto é apenas um episódio de muitos que aqueles que nasceram depois de Abril de 74 não sabem avaliar. E agora com a facilidades de viajar pela Europa apenas com Bilhete de Identidade, sem parar nas fronteiras é um alívio, um sabor a Liberdade que não consigo ficar sem me emocionar com a União Europeia como uma realidade. Sempre desde muito novo odiei os nacionalismos. Mais tarde, quando estudante( e digo tarde porque estudei só em adulto) conheci a célebre frase de Sócrates “não sou Ateniense nem Grego, sou um cidadão do mundo) considero dos pensamentos mais importantes da História. Era assim que gostava de me sentir. Foi isso que sempre ensinei aos meus alunos. O ser humano pertence ao planeta Terra. Foram os interesses políticos que lhe criaram fronteiras e lhe limitaram os movimentos.

Publicado por João Norte em maio 1, 2004 09:37 PM
Comentários
Totalmente de acordo: barreiras e fronteiras para quê? Mas muita gente desconhece o papel e a actuação da Pide: eu era muito pequena mas tomei consciência de que eram poderosos quando um dia , ou melhor, uma noite, o meu pai quase ia sendo levado para os calabouços; é bom que não deixemos isto cair no esquecimento, porque a memória dos homens é curta e a História tem tendência a repetir-se...não é colega? Abraço, WB Afixado por: whiteball em maio 1, 2004 11:41 PM
Este alargamento embora desejado tem, do ponto de vista do nosso benefício no quadro dos apoios comunitários, desvantagens, mas isso era esperado. No entanto penso que teremos como sociedade muito mais a ganhar visto que banidas as fronteiras os técnicos altamente especializados que alguns países agora aderentes têm, podem vir para cá e apoiarem convenientemente o empresariado industrial de forma a porem as suas empresas a funcionarem convenientemente o que agora não acontece por falta de qualidade dos técnicos da nossa praça. Afixado por: congeminações em maio 2, 2004 12:11 PM
Neste texto nem sequer pensei nas vantagens ou desvantagens para nós portugueses que advêm do alargamento.Fica para um próximo. Apenas expressei a minha emoção pelo que ele representa no conceito de liberdade dos povos, coisa que me é muito cara e referi um pequeno episódio da minha infância. Afixado por: João Norte em maio 2, 2004 02:15 PM
Quem não viveu antes do 25 não sabe dar o valor a estas coisas. Ás vezes conto coisas deste tipo à minha filha que tem 19 anos e pela cara de espanto dela, até parece que lhe estou a contar uma anedota. Amigo João e ser multado por usar um isqueiro, e ser multado por urinar na rua (na valeta) em plena província, onde o saneamento básico só chegou para aí em 76 ou 77. Afixado por: canzoada em julho 19, 2004 09:19 PM