maio 05, 2004

Os mortos não escrevem

O serão é ponto de encontro. Depois do trabalho. Encontro na nossa sala. Não há televisão, não outra distracção, só música. A música dos discos que ouvimos, baixinho, muito baixinho para não quebrar a intimidade da tua voz. E eu escrevo. Escrevo a tua voz que penetra no meu coração. Não! Não é nos ouvidos porque tu não estás. Sou eu que te invento. Invento a tua presença. Invento o teu corpo. Invento o teu amor. Invento a tua voz e escrevo as palavras que me dizes. As palavras que tu me dizes não precisam de ruído nem de som, estão gravadas na minha memória. Na memória que eu escrevo porque só se escreve memória. A realidade narra-se, descreve-se, não se escreve. O que eu escrevo está para lá do espaço sem sair desta sala onde o nosso encontro se realiza sem a tua presença, porque ela vive em mim. E se eu estou aqui tu também estás. És parte do meu ser, essa identidade que se foi formando de vivências, que somadas e integradas fizeram o tempo. O meu tempo. Os meus dias e os meus serões. Não! Não há solidão. A nossa solidão somos nós que a fabricamos. A solidão existe quando não temos ninguém. Eu tenho-te a ti. E tu nunca me abandonas quando escrevo. Tu não me pedes para escrever nem para não escrever. E se pedisses eu não podia atender-te. A escrita não é minha. A escrita é tua e de todos os que fizeram todo o meu passado. O nosso passado. O meu passado, só meu, não existe, porque eu nunca vivi sozinho. Só vivi enquanto acompanhado. Se escrevo estou vivo, prova que não morri. Os mortos não escrevem, mas os vivos escrevem os mortos. Porém tu não estás morta. Está aqui comigo, eu sinto a tua presença, lembro o teu olhar, sinto o teu cheiro, o teu calor, as tuas formas e invento as tuas palavras. Sei que se estivesses aqui dirias:- Eu amo-te! E adormecias ao meu colo no sofá desta sala.
E eu escrevo. – Eu amo-te!... E adormeço na tua ausência.

Publicado por João Norte em maio 5, 2004 07:07 PM
Comentários
Li e reli ou melhor dizendo saboreei. O João tem sempre umas "reservas" de qualidade invejável. Obrigado! Afixado por: Guilherme em maio 5, 2004 11:41 PM
um texto visceral. gostei. Afixado por: fernando esteves pinto em maio 6, 2004 09:50 PM
gosto disto! :D Afixado por: Nadir em maio 8, 2004 01:20 AM