Lembras-te daquele passeio que eu te ofereci. Naquelas tardes em que nos amávamos secretamente em espaços proibidos como proibido era o nosso amor. E cada vez que nos encontrávamos sem espaço e sem tempo e tínhamos de, com mil truques de imaginação, inventar o tempo para o nosso amor. O nosso tempo. Prometíamos um ao outro que o tempo havia de chegar. O dia em que o tempo fosse só nosso, em que ninguém pudesse dar-nos ordens, impedir os nossos encontros vigiar os nossos actos. Como éramos felizes na nossa ingenuidade de adolescentes! Como pensávamos que a conquista do tempo e da liberdade é coisa fácil e que apenas o tempo nos permitiria alcançar todos os nossos desejos, realizar todos os nossos projectos. Como éramos felizes no sonho!...
O tempo correu e passou sem precisar do nosso esforço, sem ninguém para empurrar o sol na sua giratória, deixando-nos as noites, o brilho pérola da lua que nos acompanhava, conivente das nossas fugas, dos nossos desvarios, testemunha da nossas promessas, participante do nosso amor e dos nossos sonhos, inspiradora dos versos amorosos que escrevíamos.
E um dia lá fomos no passeio prometido, tantas vezes repetido que já existia, estrada a estrada, passo a passo, rua a rua, na nossa imaginação. Paris. A Paris dos poetas, dos artistas, A Paris da cultura. A Paris da Liberdade. A Paris dos apaixonados. Paris era o nosso destino imaginário.
Subimos a Torre Eiffel onde nos sentimos a voar sobre a cidade e mais perto do céu. Percorremos as galerias do Louvre. Almoçávamos apenas um croissant para tomármos café nas esplanadas dos Campos Elísios. Descemos o Sena nos barcos turísticos onde se falam todas as línguas e todos se divertem acenado para as margens ainda que ninguém nos olhe. Ninguém nos perguntou nada. Ninguém nos impediu de nada. Ali éramos livres. Éramos sempre crianças. Como nós, muitos pares de apaixonados passeavam nas ruas de Paris. Também eles tinham sonhado com a sua liberdade. Eu ofereci-te um perfume, um chanell 4, lembras-te?!
Depois veio a realidade e tu desapareces-te.
Conservo o aroma do teu perfume e, escrevendo, invento a tua existência.