maio 16, 2004
CARTA À SOLIDÃO
Solidão.
Esta carta é para ti. Não sei bem porque te escrevo. Podia antes falar-te, moras tão perto. Mas sei que moras em tantos lugares, em tantas cabeças, em tantos corações, em tantas personalidades. Sim!... tu não te alojas em qualquer lado nem em qualquer pessoa. Escolhes!...escolhes as mentes mais ricas, mais complexas, mais sensíveis, mais informadas. Eu sei!...Não te interessas pelos analfabetos, os brutos, os ignorantes. Esses não te ligam, têm o futebol, as revistas cor-de-rosa, a taberna para se distraírem, sem preceitos nem preconceitos.
Não te alojas nos corações rudes, duros, que não se preocupam com sentimentos, com o amor ou a falta dele, com a pobreza, com a guerra nem com as injustiças. Esses batem sempre ao mesmo compasso, não mudam de ritmo com as emoções porque com nada se emocionam. Não te implantas nas personalidades simples porque essas aceitam qualquer coisa sem exigência, não reclamam.
É verdade que não foste tu que pediste para te instalares, a culpa é deles, dos solitários. Deles e das circunstâncias. As circunstâncias mudam, mas os solitários têm dificuldade em mudar porque tu, quando te instalas, fechas o cerco, cada vez mais num aperto de anéis que vão tapando todas as saídas.
Ah pois ... os amigos!....os solitários fogem dos amigos porque tu és viciante, como o álcool, como o tabaco, como a droga. Os solitários amam a própria solidão?!... Não! Têm medo! Medo de romper o cerco, medo do primeiro passo, medo da aventura, meda da própria insegurança. O medo é a tua arma.
Por isso, aos solitários eu só posso dizer:
- Não tenhas medo!
Publicado por João Norte em maio 16, 2004 09:15 PM
Excelente texto.
No entanto (pelo menos é o meu caso), creio que, muitas vezes nos isolamos, porque à medida que a vida vai decorrendo, nos tornamos mais exigentes no que às companhias diz respeito, e se não tivermos oportunidade de conhecer pessoas com quem estabeleçamos laços de empatia comunicativa, acabamos por preferir estar sózinhos.
Contudo estar sózinho, não significa sentir solidão; trata-se de uma opção, pessoalmente, sinto mais solidão quando estou num ambiente que me impede de conviver, partilhar e aprender... do que, solitário em frente a este monitor, escrevendo.
Escrever transmite-me paz interior, liberdade moral e alívio espiritual... partilho o que penso e sinto, ajuda-me a ter uma melhor compreensão da vida, pelo menos é o que me parece; e é ainda o meu humilde (mas não desprezível) contributo pessoal em prol da libertação da humanidade.
Dar-me-ia prazer integrar uma associação cultural, que tivesse um projecto pedagógico visando o desenvolvimento integral do ser humano, dando relevo à aprendizagem das artes, ao respeito pelo meio ambiente, etc... que promovê-se passeios pedagógicos ao ar livre, a fim de ajudar a aprender a conhecer a fauna e a flora duma dada região, o uso das plantas na alimentação e no tratamento de doenças; a história e o património, não para realçar patriotismos sem interesse, mas para ajudar os mais jovens a perceber, que a interpretação do presente nunca será cabalmente feita, sem estabelecer as devidas ligações com o passado. Promover idas a concertos, que regra geral, não fazem parte dos hábitos dos portugueses, enfim podia prosseguir... mas se lhe disser, que se contam pelos dedos de uma mão, entre amigos, conhecidos, colegas de trabalho e familiares, encontrar quem queira perder o seu tempo a debater as questões citadas. Se ouço música clássica, foi mais um dos meus emprendimentos solitários, do qual sou quotidianamente recompensado; quanto à leitura, é raro conversar sobre as minhas leituras, porque raros são os interlocutores, que sejam simultaneamente leitores, não estão para aí voltados e em certos casos, nem percebem o que ganho eu com leituras!
Portanto, posso de alguma forma afirmar que sou um solitário, porque penso poder considerar-me um resistente, e não por medo, ou receio de qualquer espécie, não que me considere particularmente corajoso, mas porque é verdade.
Pois, mas às vezes tenho medo! E isolo-me, fecho-me em casa, choro...porque queria ter força, ter coragem para enfrentar tudo e todos...mas não tenho...fico-me a sós comigo...
Abraço, WB
Gostei imenso! Revi-me! Reli-te (-me)... e... "que não tenhamos medo!" Um abraço.
profundamente excelente
Achei curioso o texto, pois há anos ao definir-me como "gregarious loner" a um amigo dinamarquês , obtive como resposta uma interrogação sobre se não seria o medo a empurrar para a solidão. Interrogo-me até hoje.
Bom texto.
k.regards
É um bom texto, anexado a uma verdade profundamente real. C.