maio 18, 2004

O DIA da CIDADANIA

A cidadania é um conceito quase desconhecido dos portugueses. Portugal passou da Monarquia, num pequeno salto atribulado da primeira República, para a ditadura. Não há em Portugal uma vivência duradoura de Democracia que, através da prática, tenha dado ao cidadão tempo e maneira de interiorizar a cidadania. Embora exista nos programas da Escola, a Educação para a Cidadania, é daqueles conceitos a que todos tem direito mas muito poucos sabem o que significa. Em Portugal nunca se passou da letra dos programas escolares, continuamos a não ter nas escolas aulas de educação para a cidadania. Os governos nunca tiveram a coragem de implantar essas aula. E não eram tão difícil como parece. Existem professores, especialmente das áreas da Filosofia, História e Sociologia muito capazes de dar essas aulas com qualidade. As Escolas conhecem os professores. Não seria difícil atribuir esses horários a pessoas ponderadas e habilitadas. Continuamos a ter nas escolas apenas a Educação Moral e Religiosa. Não tenho nada contra a Educação Moral e Religiosa. Todavia, esta é geralmente dada por pessoas pouco habilitadas, que mais não sabem do que o catecismo primário. Dou como exemplo a Escola a que pertenço. Das cinco professoras de Educação Moral apenas uma é licenciada em História, as outras nem o 12º ano têm.

Poucos portugueses sabem como é organizada a nossa sociedade. Por exemplo, se perguntarmos a um ministro se alguma vez pensou que são os cidadãos que lhe pagam o ordenado, nunca terá pensado nisso. Da mesma forma o cidadão também não sabe. Na sua maioria os portugueses confundem Estado com governo, e o governo confunde-se a si próprio com o Estado, e julga-se dono e senhor do país.

Há em Portugal uma confusão generalizada de direitos e deveres. O cidadão ou sabe que tem alguns direitos dos quais abusa e esquece ou procura fugir aos deveres, e os governantes esquecem os seus deveres ou nem sequer sabem que os têm.
A nossa falta de civismo e os nossos comportamentos terceiro mundistas vêm-nos desta falta de educação para a cidadania. O nosso quase desprezo pelos assuntos colectivos, a maledicência generalizada dos políticos, não são atitudes pensadas, opções políticas, são apenas comportamentos ignorantes de um povo habituado à ditadura. Da mesma forma os políticos, uma vez eleitos, comportam-se não como mandatários do povo que os elegeu e lhes paga para governarem no interesse do povo, mas como se o país fosse uma cotada para seu belo prazer e enriquecimento do seu bolso.

É isto a que estamos assistindo, no governo, nas escolas, no futebol, nas estradas, enfim neste país que cada vez mais se afasta dos comportamentos europeus.

Publicado por João Norte em maio 18, 2004 03:58 PM
Comentários
Muitas verdades aqui estão escritas de uma forma muito clara! Usar de cidadania seria um exercício mais do que desejável. Fez-se a revolução, quantitativamente o país deu uns passos em frente. Mas o ESSENCIAL - sim, pq estradas, pontes e afins fazem-se em qq altura - que seria mudar as mentalidades, essa está ainda por fazer. Abraços, amigo. Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 18, 2004 06:03 PM
E é exactamente por essa razão, ou seja pela consciência de que o Estado somos nós todos e o Governo é uma forma de nós sermos representados que não consigo compreender a desmotivação crescente do eleitorado na participação da vida cívica e de uma vez por todas se impor a si próprio a necessidade de escolher acertadamente os seus legitimos representantes no Estado. Afixado por: congeminações em maio 18, 2004 07:21 PM
Pois é, mas eu pergunto é quantos portugueses compreendem isso. Afixado por: João Norte em maio 18, 2004 07:54 PM
Assino por baixo. Mais uma vez! Afixado por: Guilherme em maio 18, 2004 11:33 PM
Não sei se terei alguma razão, mas o que sinto, é uma enorme cultura, do individualismo. O Português é um desenrascado, por natureza, ou por anos de isolamento. Quando chamado, a pronunciar-se, invariavelmente, olha apenas para o umbigo. Ainda estão muito enraizados, os preconceitos de outrora, do Sr. Padre, do Presidente da Junta, do cabo da Guarda, etc. Portugal, em 25 de Abril, libertou-se do jugo fascista, mas o seu povo, trinta anos depois, ainda não se emancipou. O empurrão que ainda falta dar, tem de ser dado diariamente, nas escolas, nas tertúlias, nos cafés e até mesmo aqui. Afixado por: jgonçalves em maio 18, 2004 11:44 PM
Totalmente de acordo! E não é por esquecimento ou falta de tempo. Hoje sou levado a acreditar que os partidos políticos e seus eleitos cultivam mesmo um desprezo de proximidade aos seus eleitores, representando não uma via de acesso, mas sim um entrave às manifestações de cidadania que são a substância da democracia. Afixado por: carlos a.a. em maio 19, 2004 01:32 PM
Sim, sim , sim...só posso concordar.... As escolas têm muita responsabilidade no assunto...mas a família também; no fundo a responsabilidade é de todos nós... Abraço, WB Afixado por: whiteball em maio 19, 2004 05:16 PM