A cidadania é um conceito quase desconhecido dos portugueses. Portugal passou da Monarquia, num pequeno salto atribulado da primeira República, para a ditadura. Não há em Portugal uma vivência duradoura de Democracia que, através da prática, tenha dado ao cidadão tempo e maneira de interiorizar a cidadania. Embora exista nos programas da Escola, a Educação para a Cidadania, é daqueles conceitos a que todos tem direito mas muito poucos sabem o que significa. Em Portugal nunca se passou da letra dos programas escolares, continuamos a não ter nas escolas aulas de educação para a cidadania. Os governos nunca tiveram a coragem de implantar essas aula. E não eram tão difícil como parece. Existem professores, especialmente das áreas da Filosofia, História e Sociologia muito capazes de dar essas aulas com qualidade. As Escolas conhecem os professores. Não seria difícil atribuir esses horários a pessoas ponderadas e habilitadas. Continuamos a ter nas escolas apenas a Educação Moral e Religiosa. Não tenho nada contra a Educação Moral e Religiosa. Todavia, esta é geralmente dada por pessoas pouco habilitadas, que mais não sabem do que o catecismo primário. Dou como exemplo a Escola a que pertenço. Das cinco professoras de Educação Moral apenas uma é licenciada em História, as outras nem o 12º ano têm.
Poucos portugueses sabem como é organizada a nossa sociedade. Por exemplo, se perguntarmos a um ministro se alguma vez pensou que são os cidadãos que lhe pagam o ordenado, nunca terá pensado nisso. Da mesma forma o cidadão também não sabe. Na sua maioria os portugueses confundem Estado com governo, e o governo confunde-se a si próprio com o Estado, e julga-se dono e senhor do país.
Há em Portugal uma confusão generalizada de direitos e deveres. O cidadão ou sabe que tem alguns direitos dos quais abusa e esquece ou procura fugir aos deveres, e os governantes esquecem os seus deveres ou nem sequer sabem que os têm.
A nossa falta de civismo e os nossos comportamentos terceiro mundistas vêm-nos desta falta de educação para a cidadania. O nosso quase desprezo pelos assuntos colectivos, a maledicência generalizada dos políticos, não são atitudes pensadas, opções políticas, são apenas comportamentos ignorantes de um povo habituado à ditadura. Da mesma forma os políticos, uma vez eleitos, comportam-se não como mandatários do povo que os elegeu e lhes paga para governarem no interesse do povo, mas como se o país fosse uma cotada para seu belo prazer e enriquecimento do seu bolso.
É isto a que estamos assistindo, no governo, nas escolas, no futebol, nas estradas, enfim neste país que cada vez mais se afasta dos comportamentos europeus.