maio 25, 2004

A Estrada de Macadame

Combinámos encontrar-nos ali. Na beira da estrada. Era uma manhã de Primavera daquelas em que o Sol nasces brilhante, mas o frio da noite ainda se faz sentir até a meio da manhã. Tudo tardavas. Eu esperei sentado na berma sobre um monte de brita. Brita partida à mão por homens de tronco nu, que durante doze horas, sentados ao sol, martelavam sem descanso as grandes pedras ali deixadas. Dois homens fardados e armados de espingarda montavam guarda aqueles outros cerçando-lhe as liberdades.
Sentado ali sentia-me suspenso sobre o vale como borboleta na brisa fresca da manhã, sustendo a minha ansiedade pela tua demora.
Eu só pensava em ti e via em todas as imagens que se aproximavam a tua figura. Mas tu não vinhas. As horas passavam. Eu brincava atirando pedrinhas que planavam no ar, sobre o vale como aves de rapina.
Olhava o firmamento cristalino e procurava a lua que nos tinha acompanhado no nosso primeiro beijo. A lua não estava lá. Ela muda. Muda de face e de posição. Uma constante mudança que me assustava. Serias tu como a lua?! Terias mudado?! Recordava as tuas palavras. Dentro das palavras procurava o sentido e a solidez dos teus pensamentos ditos à luz do luar. Procurava o som das palavras e só encontrava o silêncio, o peso do silêncio maior do que o peso das pedras da estrada de macadame que eu pisava. O silêncio doía. O tempo corria com a ausência do teu corpo, das tuas palavras, e eu já via o fim da tarde, o sol que desaparecia por trás do outeiro, e de ti nem o cheiro que eu guardava nas minhas narinas. Eu a sentir-me destruído com a ausência das tuas palavras. Eu que pensava que o amor não necessitava de palavras. Isso seria verdade se houvesse presença. Se o teu corpo estivesse ali. Se eu pudesse sentir-lhe o calor, tocar-lhe, percorrê-lo com os meus dedos ou com os meus lábios, as palavras seriam desnecessárias. Mas não havia nada. Esse nada tornou-se demasiado denso, demasiado pesado, o meu corpo foi vergando. A dor da tua ausência foi-se instalando. A luz do sol fugiu, os homens que partiam as pedras foram embora, os pássaros calaram-se, a lua voltou sozinha.
E eu fiquei com as lágrimas da primeira desilusão.

Publicado por João Norte em maio 25, 2004 11:50 AM
Comentários
Que por ser a primeira nunca mais esquece. Lamentavelmente a vida acaba por se tornar numa série continuada de desilusões. Brindemos, porém, à alegria. Ficou, meu amigo uma doce recordação. Abraços. Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 25, 2004 02:25 PM
Os meus agradecimentos pelo desejo das melhoras do meu pai. Felizmente está a reagir bem. Desejo tb eu o seu rápido restabelecimento. Um abraço de amizade: A. Pinto Correia. (É o meu nome) embora por ter José como segundo nome, toda a gente me trata por Zé. Pode ler as minhas opiniões em: www.Jornaltorrejano.pt, clicando em opinião. Pode ainda ler anteriores, voltando à 1ª pág e clicando "edições anteriores". Assino A. Pinto Correia. Trabalho a tempo inteiro no jornal "Voz das Beiras" um outro Regional. Está tb online. www.VozDasBeiras.com Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 25, 2004 02:30 PM
a primeira nunca se esquece. pensando bem, a segunda e a terceira tb não... é bom que seja assim Afixado por: kachia em maio 25, 2004 09:51 PM
da certeza à incerteza... incerteza sempre plena de esperança, desejo que a voz se revele numa qualquer sombra trazida pela luz da lua... quietos, espectantes... suspensos na certeza de que na presença tudo seria diferente... e aos poucos a incerteza dilue-se numa outra maldita certeza... obrigada pelo texto, pela partilha. Afixado por: lu. em maio 26, 2004 01:05 AM
cada vez melhor. Afixado por: fernando esteves pinto em maio 28, 2004 03:21 PM