maio 28, 2004

AMOR E ÓDIO

Odeio-te porque não me amas. Embora julgues o contrário. O contrário de tudo. Julgas que te amo só porque me deito contigo. És cega. Não distingues amor de desejo. Sim, eu desejo-te. Desejo-te porque te amei. Amei-te e criei em mim a ilusão que podia criar em ti o amor como se o amor se plantasse como quem planta legumes ou flores, as rega e as vê crescer. O amor não é uma planta, é um sentimento. Agora eu compreendo que em ti não há sequer sentimentos. O único sentimento que se podia dizer que possuis é da posse, mas isso não é um sentimento é um “ismo” uma força bruta que te arrasta e te faz arrastar os outros que queres possuir e chegas a confundir isso com amor. Também eu confundi. Confundi a realidade com os meus desejos. Eu queria amar-te e ser por ti amado. Queria sentir a tua presença mesmo na tua ausência. Queria que estivesses dentro de mim e que nada conseguisse expulsar-te. Que fizesses parte de todos os meus actos, de todas as minhas decisões, de todos os meus movimentos, como se fosse a tua inteligência a decidir com a minha numa só. Queria sentir o teu cheiro e o teu corpo em tudo o que tocasse, como se, na ponta dos meus dedos, estivesse sempre o veludo da tua pele.
Odeio-te pelo sangue das feridas que deixaste abertas e que eu lambo para te sentir. E não consigo expulsar-te porque enquanto as feridas sangram tu estás presente, sinto a dor como se te sentisse. Elas são o teu rasto, a tua obra, o sinal da tua presença, a tua modificação do meu sentir, do meu ser. Um ser que se acomodou à ilusão de te amar e se confunde como tu te confundiste. Odeio-te pela tua ausência, em cada recanto da casa, no frio dos lençóis, na mesa que não enfeitas. Odeio-te na pessoa da florista a quem já não compro flores, porque não há ninguém a quem as oferecer. Odeio-te na figura das outras que se parecem contigo. Odeio-te nos cigarros que fumo para matar o tempo infinito em que não existes, e não sei se são os cigarros que me vão matando se é a tua lembrança. Odeio o cheiro do perfume que te ofereci e que nunca desapareceu deste quarto onde os nossos corpos se abraçavam, se comprimiam, se misturavam, no tempo em que ambos julgávamos que o sexo era amor. Odeio lembrar-me de ti e não conseguir esquecer-te. Odeio esta necessidade do teu sexo esperando por mim.
Odeio-te porque talvez ainda te ame!

Publicado por João Norte em maio 28, 2004 08:29 PM
Comentários
Certamente é isso: muito amor estará para vir! Abraço, WB Afixado por: whiteball em maio 28, 2004 10:20 PM
Geralmente os dois sentimentos estão próximos qd se ama até à loucura. Acredito na felicidade João. E acredito que o meu amigo, como todos/as nós será tb feliz. Abraços Afixado por: LetrasAoAcaso em maio 29, 2004 05:51 AM
Ahahahah, ficaste inspirado lool sim podes (re) publicar o outro q tanto gostas olha o link para o Unus nao tá a funcionar bjs :) Afixado por: Nadir em maio 29, 2004 05:24 PM
Como sentes! Como vives! Como és intenso... Há uma riqueza infinita que brota em cada palavra, em cada imagem. Continua a partilhá-la connosco. Afixado por: Amyas em maio 31, 2004 09:59 AM
Difícil dizer te amo a quem nos machuca, a que nos faz sofrer e sangrar, ae tentamos nos convencer que o ódio é o melhor recurso, e nos mergulhamos em sentimentos torpes e inversos... Quero te odiar, mas meu coração te ama... Estou passando por isso, ainda bem q em tuas palavras encontrei um porto, talvez uma prova de meus sentimento não são tão anormais quanto eu imaginava...Não existe somento eu q quer odiar... Bem espero poder voltar por aqui Afixado por: BiOnDa em setembro 12, 2004 03:36 AM