junho 02, 2004

O TEMPO

Partiste sem deixar recado. Não houve um aviso, qualquer sinal que pudesse dizer que não te encontraria ao voltar. Nem um bilhete sobre a mesa-de-cabeceira. Um adeus. Não, isso não, porque deus é uma palavra que não usavas. Não acreditavas dizias tu. Todavia tinhas medo. Tanto medo que ainda que fosse apenas um simples cumprimento, socialmente usado, tu não dizias. Talvez a tua consciência pesasse tanto que nem assim tivesses à vontade para usar palavras que te assustavam. Havia outras palavras que te assustavam. A palavra Amor. A palavra carinho. A palavra amizade. Dizias:- são palavras! Tudo são palavras! Nós somos palavras. Palavras e gestos. Como as palavras são a tradução dos gestos, tudo são palavras. Tu foste embora e não tiveste nem uma palavra nem um gesto. Apenas ausência. Não disseste até um dia, porquê? Porque sabes que esse dia nunca virá, ou tens medo dele? Não quiseste deixar rasto. Deixaste a casa limpa. Tão limpa para que as tuas impressões não ficassem nos objectos, porque tudo eram objectos para ti. Porém as tuas marcas ficaram. Há marcas nossas que são involuntária. Há marcas nossas que nunca poderemos apagar. Até a limpeza da casa que fizeste para limpar as tuas marcas é uma marca tua. Não ficou gravada nos lençóis que a máquina lavou, nem nos objectos que os detergentes limparam e desinfectaram, ficou gravada numa espécie de infecção, uma doença incurável que é a tua ausência. Não a tua ausência da casa que não a sente, mas a tua ausência de mim. E dentro de mim, a tua meticulosa limpeza, os detergentes, os desinfectantes não actuam. A tua ausência está gravada no tempo. No meu tempo. No tempo da minha memória. Esse tempo em que tu estiveste, e nós construímos não pertence a um de nós, mas a ambos e aos outros. O tempo colectivo ninguém o apaga. Talvez tenhas a ilusão de apagar o teu, embora nem isso consigas fazer. O tempo, essa entidade tão subjectiva que ninguém conseguiu ainda definir nem limitar, são os gestos e as palavras que vivemos e se sedimentaram em nós, e em redor de nós construíram o mundo. Nós, e todos que vieram antes, construímos o tempo.
Partiste, mas, numa infinitésima partícula ficaste. Ficaste no meu pensamento.

Publicado por João Norte em junho 2, 2004 06:58 PM
Comentários
E os outros, mesmo quando se trata de relações afastadas, ficam sempre, não apenas no nosso pensamento - até porque esse ao fim de algum tempo é ultrapassado pelo esquecimento -, mas em nós, na forma como nos construímos, no modo como vamos Sendo. Bonito texto sobre o tempo e a ausência (ou os seus contrários)... Afixado por: lu. em junho 2, 2004 07:42 PM
Tempo, saudade, ausencia... pq? Afixado por: nadir em junho 4, 2004 06:14 PM
NADA será esquecido! Recordaremos cada minuto, cada gesto, cada palavra... Assim vamos completando arquivos de memórias com dimensão sensorial que justificam e comprovam a nossa existência... Ninguém passa por nós sem deixar rasto! Afixado por: Amyas em junho 9, 2004 03:53 PM