junho 15, 2004

PALAVRAS VÃS

Hoje não escrevo. Não sei escrever. Não tenho mais nada do que palavras vãs. Palavras que não dizem nada porque não falam de ti. As palavras que falavam de ti levaste-as contigo. De ti só existe ausência e as palavras não servem para gritar a tua ausência. Só o silêncio fala de ti. Apenas o coração grita com pancadas fortes e descontroladas pela falta do doce calmante das tuas palavras de amor. Dói-me o peito do teu vazio. Os meus olhos que procuram os teus, não encontram nenhuma imagem do teu corpo, escondido em qualquer madrugada que não voltou. As plantas do jardim que tu regavas, secaram pela falta da tua presença fresca. A água do ribeiro da nossa infância já não salta de pedra em pedra na cascata da nossa pressa de amor. Os salgueiros que nos escondiam perderam as folhas. São esqueletos cúmplices de uma morte que levou o amor que eles abrigavam. Já não há borboletas coloridas. Tudo é cinzento. A música dos bosques, o silvo das montanhas, o gorjeio dos pássaros silenciaram. O vento do tempo parou. Os pássaros deixaram de cantar no beirado da nossa casa. Já não há andorinhas. As minhas mãos tacteiam no vazio do espaço pesado da noite, onde a tua pele sedosa se perdeu. As bocas da madrugada sonolenta que se beijavam não se encontram. Procuro o abrigo do teu regaço. Apenas abraço o frio do lugar deixado pelo calor do teu corpo, e afago a almofada onde os teus cabelos repousavam despenteados pelos meus dedos em momentos de amor intenso. Acordo da solidão quando o medo me desperta, salto no vazio do caos do espaço entre mudas, e um tecto que ameaça cair-me em cima com toneladas que me esmagam como um mosquito na sola do sapato, olho no espelho as rugas da minha pele que já não beijas, e saio pelas estradas da noite deserta da minha tristeza onde caminhas nua nas imagens da minha memória.

Publicado por João Norte em junho 15, 2004 07:10 PM
Comentários
gralha... leia-se - entre paredes mudas e um tecto Esta mania de escrever directamente, por vezes dá asneira. Afixado por: João Norte em junho 15, 2004 07:16 PM
Importante é que se entende. Há dor, angústia, tristeza. E mtª mtª nostalgia. A vida acaba por ser madrasta de muitos e mãe de poucos. Abraços, caro amigo João Afixado por: LetrasAoAcaso em junho 16, 2004 10:34 AM
"...da pele que já não beijas..." Fiquei perdida nestas palavras. Afixado por: fairy_morgaine em junho 16, 2004 11:41 AM
muito imagético... sente-se a vida por detrás das palavras. Obrigada. Afixado por: lu. em junho 16, 2004 03:16 PM
É a primeira vez que te leio. Letras ao Acaso me trouxe até ti. Gostei, do que senti...não são palavras vãs, são palavras despidas por ti.Espero poder voltar, um abraço. Afixado por: Kiara em junho 18, 2004 04:04 PM