Levanto-me com o peso da solidão sobre as costas vergadas e doridas, não sei se do colchão se dos anos ou se de tudo junto e somado.
Olho-me no espelho do guarda-fatos que, sem piedade, revela na cara daquele outro eu, as rugas que o tempo cavou. O tempo não. O tempo não existiu nem teve efeitos, nem em mim nem em ninguém. Maneiras de dizer. As rugas são efeito dos trambolhões, dos trabalhos e canseiras da vida e do ganha-pão.
Nunca me dei bem com esse outro eu que aparece do outro lado do espelho e me estampa na cara a outra cara, todos dias igual, todos os dias diferente. Mais velha, mais enrugada, mais baça, mais triste, menos bonita o que é uma forma mitigada de dizer mais feia.
É impiedoso este outro eu.
Arrasto-me até à casa de banho. Só o chuveiro me faz acordar, sair do torpor da noite, recuperar alguma energia. No banho, se estou bem disposto, costumo cantar, poucas vezes, são mais as vezes que grito ou simplesmente falo. Falo com o banho, com o sabão, com as paredes. Falo muito com as paredes que, com uma arrogante falte de educação, nunca me respondem.
Não há ninguém para me responder, ninguém para dizer bom dia, ninguém para dar um beijo, ninguém para servir o café. Já estou habituado. Ou melhor, vou-me habituando, isto dos hábitos é um processo lento que não muda um homem de um dia para o outro. Vai mudando. Deixei para trás as intenções de mudar o mundo à minha maneira e fui eu mudando à maneira do mundo.
Onde foi parar aquele jovem que aparecia, anos anteriores, do outro lado do espelho? Evaporou-se por aí. Perdeu-se pouco a pouco, como a árvore vai perdendo as folhas que o vento levou, até ficar o tronco de pé ressequido.
Eu fui mudando, não só por minha vontade, mas também pela força das circunstâncias. Digo por força, porque essa coisa das circunstâncias têm muita força, muito mais do que nós. No entanto, eu também mudei por minha vontade própria. Sempre quis ser alguém. Fui agricultor, fui estudante, aprendiz, operário, chefe encarregado, empregado e desempregado, fui patrão, fui professor. Nunca fui aldrabão! Algumas vezes menti. Tive muita dificuldade em mentir, foi mais fácil não dizer toda a verdade. Toda a verdade é uma presunção. Sei lá o que é a verdade, quanto mais toda a verdade. Coisas da Linguagem.
Valeu a pena? Não tenho a certeza. Mas penso que valeu a pena. Perdi muitas coisas, ganhei outras. Importante é a forma como valorizamos o que se ganhou e desvalorizamos o que se perdeu, não lhe dando importância. Colocarmo-nos na beira da estrada, deixar passar e não nos colocarmos no centro de tudo. Uma simples flor pode valer um milhão se nos faz sorrir. Um sorriso de criança pode valer uma vida. Eu vi sorrir muitas crianças. Também vi chorar algumas.
Há dias em que aceito a vida tal como é, e deixo que o tempo passe por mim e leve o seu sopro para onde quiser. À força de viver sozinho perde-se a comunicação. Não há vontade de comunicar, o tédio toma conta de nós e afasta as pessoas, ou nós afastamo-nos delas. Ficam os livros como sedativos, como paliativos. O gosto pelo estudo, a ânsia do saber, o prazer da leitura vão-nos ocupando, monopolizando a nossa inteligência. Mas o que fica, o saber, nem sempre nos torna mais felizes. Por vezes é até o contrário. O saber transforma as coisas em nada, retira-lhes a importância, arruma-se tudo o que se aprendeu no armazém da memória, geralmente, na gaveta da nostalgia. Não lucrámos nada? Sim lucrámos. A vida, o estudo e o olhar do mundo com outros olhos enchem-nos de histórias. Tenho muitas histórias para contar.
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trecho de um romance em preparação