Sentado na fria soleira e abrigado do vento do mar pela grossa cantaria oval da porta da igreja, eu esperei por ti. Soprava das mãos o frio que tolhia os dedos, e batia no chão molhado as botas cardadas, que não eram suficientemente grossas para proteger os pés da humidade gelada daquela noite de Natal.
Prometeras vir e eu nem sequer me interrogava da verdade dessa presença que seria o presente mais importante que o Pai-Natal, em que eu já não acreditava, me poderia oferecer.
Como qualquer criança que coloca o sapatinho na chaminé e fica na cama, fingindo dormir, mas à escuta do mais leve ruído na cozinha, eu escutava quaisquer rangidos que me anunciassem os teus passos.
As badaladas do sino a cada quarto de hora, a cada hora, mantinham a minha cabeça desperta do sono e aumentavam a ansiedade e a angústia do tempo que passavam sem que deslumbrasse a tua imagem ao virar da esquina.
Segurava entre as mãos regeladas um frasquinho de perfume, que comprei com as moedas tiradas do mealheiro com a ponta da faca, para que os meus pais não percebessem que gastava o que os tios e padrinhos me davam pelos anos ou nas visitas em dia de festa.
Gostaria de ter um ramo de flores para te oferecer mas em Dezembro não havia flores, e assim, aquele perfume seria a minha primeira prenda, que tu irias guardar com tanta ansiedade como a que eu sentia quando o comprei sem conseguir evitar um sorriso trocista da Fatinha da farmácia.
O sino bateu as doze badaladas e tu não apareceste. Em cada casa soavam as vozes alegres da ceia e os cânticos de graças pelo Menino que acabara de nascer.
Eu guardei o frasco na algibeira das calças crispando as mãos e rangendo os dentes de frio, de raiva e desilusão.
Na esquina da rua chocámos, tu corrias ao meu encontro enquanto os teus pais ceavam.
Aquele beijo foi a minha melhor prenda de Natal.
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