julho 16, 2004

Saudades da Minha Infância

O inverno passou lento, pesado, frio, cortante e destruidor. Alguns idosos cuja fraca seiva vital se esgotou no maior consumo de energias enlutaram algumas famílias da vila.
A primavera desejada voltou, trazendo consigo o calor do sol e os ventos cortantes de frio deram lugar às brisas das manhãs calmas.
Nas encostas batidas pelos raios solares e abrigadas da brisa mais fresca do mar nas noites ainda longas, as primeiras flores silvestres animaram a paisagem salpicada de pétalas brancas e rosa.
Nas tardes mornas, a sombra dos salgueiros junto ao ribeiro que cantava de águas cristalinas, era o nosso ponte de encontro marcado, fora da vila, libertos dos olhares indiscretos e recriminatórios das velhas, repositório da moral e dos bons costumes tradicionais. O nosso amor, a nossa juventude e nossa pureza magoava as suas consciências cristalizadas de uma infância distante, perdida e talvez mal vivida.
Saltitávamos de mão dada, pés descalços pela corrente fresca, segurando na outra mão os sapatos descalços que tinha de voltar secos.
Assustávamos os cardumes de pequenos robalos e os pássaros que, como nós, pipilavam na música da primavera renovadora da natureza no seu eterno movimento.
Guardo na memória a frescura dessas tardes, a beleza da tua fresca juventude, o sabor dos teus beijos perfumados, a sinceridade ingénua das nossas promessas de amor e a sua lembrança serve-me de suave alento nos dias frios do inverno que se vai instalando no aproximar do outono da vida.

Publicado por João Norte em julho 16, 2004 05:32 PM
Comentários
gostaria de ao chegar ao outono ter apenas metade do teu perfume e da tua escrita. Afixado por: fairy_morgaine em julho 16, 2004 09:29 PM
Esse perfume fez-me voltar a ser criança :) Um beijo doce Afixado por: MissLadyMystery em julho 16, 2004 10:16 PM
Que "poesia" ..., João Norte. Afixado por: Maria Oiveira em julho 16, 2004 10:30 PM