Se passares por mim não esconda o teu rosto. Ele continua a ser jovem, lindo, e fresco como quando nos amámos. Fizemos juras de amor como se tivéssemos nas nossas mãos o destino das nossas vidas. Juras de amor até que a morte nos levasse. Tínhamos uma ideia de morte como coisa longínqua. Mas não foi a morte que nos separou, foram as circunstâncias cuja força nós não conhecíamos. Seria o destino? Talvez. Não sei.
O tempo passou mas a memória persiste e a memória é a nossa diva. Percorri o espaço em que vivemos memórias, recordações dum passado onde fomos felizes, onde os nossos pais e os nossos avós viveram e onde deviam permanecer essas referências que construíram a memória colectiva que nos unia. Tudo o que nos rodeava mudou. O ribeiro de água fresca que nós bebíamos é agora um fio de esgoto. Já não há pássaros a cantar nas árvores melodias que embalavam o nosso amor, porque já não há árvores.. O velho carvalho junto à fonte, companheiro e esconderijo dos nossos encontros, já não existe. As frescas hortas onde caçávamos borboletas já não existem. No seu lugar crescem moradias de novos ricos, de telhados estrangeirados, com gradeamentos dourados e palmeiras no quintal, como se quisessem transformar a nossa velha aldeia em qualquer paisagem norte africana.
É o progresso, dizem-nos. Que progresso?
Como dói ver desaparecer todas as referências dos amores vividos. Como dói ver desaparecer todos os lugares que acolheram os nossos sentimentos, os caminhos que percorremos de mãos dadas. Tudo aquilo nos corria nas veias como o sangue que nos alimentava. Tudo aquilo escorria nos beijos que trocávamos. Como dói ver o nosso mundo transformado em nada que nos diga respeito ou em coisa nenhuma. Como dói ver transformar a Natureza viva, fresca e bela em decadência e mau gosto, onde o verde e o colorido das flores silvestres deram lugar ao betão e às pedras da calçada sem relevo.
Porém, na minha memória, existe tudo como quando segurava esse teu rosto, belo e frágil, que temia quebrar com a força do desejo de o beijar. As rugas que ambos temos não alteraram os sentidos, antes nos tornaram mais sensíveis e, na incapacidade de fazer voltar o tempo aos dias da nossa infância, revivemo-lo na lembrança dos momentos felizes que passámos.
Toda a vida vale a pena se dela guardarmos as recordações dos gestos mais felizes.