setembro 14, 2004

Não Escondas O Teu Rosto

Se passares por mim não esconda o teu rosto. Ele continua a ser jovem, lindo, e fresco como quando nos amámos. Fizemos juras de amor como se tivéssemos nas nossas mãos o destino das nossas vidas. Juras de amor até que a morte nos levasse. Tínhamos uma ideia de morte como coisa longínqua. Mas não foi a morte que nos separou, foram as circunstâncias cuja força nós não conhecíamos. Seria o destino? Talvez. Não sei.
O tempo passou mas a memória persiste e a memória é a nossa diva. Percorri o espaço em que vivemos memórias, recordações dum passado onde fomos felizes, onde os nossos pais e os nossos avós viveram e onde deviam permanecer essas referências que construíram a memória colectiva que nos unia. Tudo o que nos rodeava mudou. O ribeiro de água fresca que nós bebíamos é agora um fio de esgoto. Já não há pássaros a cantar nas árvores melodias que embalavam o nosso amor, porque já não há árvores.. O velho carvalho junto à fonte, companheiro e esconderijo dos nossos encontros, já não existe. As frescas hortas onde caçávamos borboletas já não existem. No seu lugar crescem moradias de novos ricos, de telhados estrangeirados, com gradeamentos dourados e palmeiras no quintal, como se quisessem transformar a nossa velha aldeia em qualquer paisagem norte africana.
É o progresso, dizem-nos. Que progresso?
Como dói ver desaparecer todas as referências dos amores vividos. Como dói ver desaparecer todos os lugares que acolheram os nossos sentimentos, os caminhos que percorremos de mãos dadas. Tudo aquilo nos corria nas veias como o sangue que nos alimentava. Tudo aquilo escorria nos beijos que trocávamos. Como dói ver o nosso mundo transformado em nada que nos diga respeito ou em coisa nenhuma. Como dói ver transformar a Natureza viva, fresca e bela em decadência e mau gosto, onde o verde e o colorido das flores silvestres deram lugar ao betão e às pedras da calçada sem relevo.
Porém, na minha memória, existe tudo como quando segurava esse teu rosto, belo e frágil, que temia quebrar com a força do desejo de o beijar. As rugas que ambos temos não alteraram os sentidos, antes nos tornaram mais sensíveis e, na incapacidade de fazer voltar o tempo aos dias da nossa infância, revivemo-lo na lembrança dos momentos felizes que passámos.
Toda a vida vale a pena se dela guardarmos as recordações dos gestos mais felizes.

Publicado por João Norte em setembro 14, 2004 06:05 PM
Comentários
Belo texto. Parabéns. Afixado por: púrpura em setembro 14, 2004 10:33 PM
Por entre traços de nostalgia desiludida, a poesia, o acreditar... sempre. Fica-nos um sorriso... João, que regresso em força! Afixado por: lu. em setembro 14, 2004 10:46 PM
joão... doce joão. não direi que é o progresso mas sim o movimento imparável dos tempos. mas pensa meu amigo.. eu e os da minha geração nem essas recordações poderemos ter. nascemos e crescemos na aldeia do betão. Afixado por: fairy_morgaine em setembro 15, 2004 11:54 PM
João, esta é a primeira que visito este teu espaço. Encantou-me o que encontrei aqui, as tuas palavras e a forma como te desenhas e revelas nelas! Quanto a este teu texto, ocorre-me um sublime, dois mundos que se alteram e transformam, um deles fruto da evolução, outro fruto do destino, ou talvez o sejam os dois. Infelizmente o que fica desses dois mundos não é o que desejariamos. Mas um dia tanto num como no outro existiu algo que nos fez felizes, e são essas as recordações que deveremos guardar, viver da mágoa prende-nos ao passado impedindo-nos de crescer, de caminhar! Parabéns pela tua fantástica escrita! Desejo de um excelente fim de semana! Afixado por: Maria Branco em setembro 18, 2004 12:18 AM
João, a paisagem mudou, o tempo passou, tudo ficou desigual e sem memória. A essência, porém, ficou no seu coração, na lembrança terna de ter vivido numa paisagem tranquila e cheia de vida, de ter amado a terra e as pessoas, de ter sido amado e terrecebido o amor da natureza. São os seus tesouros, que vc terá para sempre. Outros tesouros estão à sua volta, observe bem. Um abraço, João, e tenha um lindo domingo dourado! Afixado por: Neusa em setembro 19, 2004 05:20 AM