Há dias disse que visitei a nossa aldeia. Que tudo estava mudado, tudo que pertencia ao nosso tempo, à nossa infância, à nossa memória, tinha desaparecido.
É o progresso! Dizem-me.
Não sei que conceito têm de progresso? Para mim não é progresso nem regresso. É o inverso. O inverso das valores em que nos criaram, o inverso das sensibilidades que se viviam, da paz e tranquilidade que se respirava, o inverso do convívio fraterno entre vizinhos. Agora não há vizinhos.
É insucesso.
Insucesso da sociedade nesta caminhada que nos envolve a todos e em cada um teima em caminhar sozinho, sem olhar sequer à sua volta nem se aperceber que, perdendo a amizade dos outros, perde todo o sentido da vida.
Viver é conviver. A frase não é minha mas eu sinto-a, aprendi-a com a educação que me deram e com o que a experiência me ensinou.
Ali a vida escorria nas nossa veias, por entre os nossos dedos, por entre a família e os vizinhos como a água corria no ribeiro.
Tudo fazia parte de nós. E nós éramos eu, tu, os nossos pais e avós, as pessoas vizinhas os animais e plantas em equilíbrio numa comunhão perfeita. Homens, mulheres e crianças cresciam e reproduziam-se com a Natureza.
Éramos livres como os pássaros que cantavam nas árvores que nos faziam sombra.
Havia paz, tranquilidade e respeito.
Havia por vezes pequenos desentendimentos, mas não me lembro de agressões, de mortes violentas, de destruição. Havia valores.
O respeito pelos mais velhos, o carinho pelas crianças, pelos animais e até pelas plantas.
Os nossos avós e os nossos pais eram analfabetos, mas não eram insensíveis.
Nós queríamos saber mais. Queríamos saber o que se passava para lá do nosso pequeno horizonte. Acreditávamos que aprendendo mais tornaríamos o mundo melhor.
Agora, que o meu horizonte é já maior que o planeta, eu quero ainda continuar a acreditar. A memória do teu carinho ajuda-me nesta crença que ainda me resta.