outubro 01, 2004

Quero ainda acreditar.

Há dias disse que visitei a nossa aldeia. Que tudo estava mudado, tudo que pertencia ao nosso tempo, à nossa infância, à nossa memória, tinha desaparecido.
É o progresso! Dizem-me.
Não sei que conceito têm de progresso? Para mim não é progresso nem regresso. É o inverso. O inverso das valores em que nos criaram, o inverso das sensibilidades que se viviam, da paz e tranquilidade que se respirava, o inverso do convívio fraterno entre vizinhos. Agora não há vizinhos.
É insucesso.
Insucesso da sociedade nesta caminhada que nos envolve a todos e em cada um teima em caminhar sozinho, sem olhar sequer à sua volta nem se aperceber que, perdendo a amizade dos outros, perde todo o sentido da vida.
Viver é conviver. A frase não é minha mas eu sinto-a, aprendi-a com a educação que me deram e com o que a experiência me ensinou.
Ali a vida escorria nas nossa veias, por entre os nossos dedos, por entre a família e os vizinhos como a água corria no ribeiro.
Tudo fazia parte de nós. E nós éramos eu, tu, os nossos pais e avós, as pessoas vizinhas os animais e plantas em equilíbrio numa comunhão perfeita. Homens, mulheres e crianças cresciam e reproduziam-se com a Natureza.
Éramos livres como os pássaros que cantavam nas árvores que nos faziam sombra.
Havia paz, tranquilidade e respeito.
Havia por vezes pequenos desentendimentos, mas não me lembro de agressões, de mortes violentas, de destruição. Havia valores.
O respeito pelos mais velhos, o carinho pelas crianças, pelos animais e até pelas plantas.
Os nossos avós e os nossos pais eram analfabetos, mas não eram insensíveis.
Nós queríamos saber mais. Queríamos saber o que se passava para lá do nosso pequeno horizonte. Acreditávamos que aprendendo mais tornaríamos o mundo melhor.
Agora, que o meu horizonte é já maior que o planeta, eu quero ainda continuar a acreditar. A memória do teu carinho ajuda-me nesta crença que ainda me resta.

Publicado por João Norte em outubro 1, 2004 03:28 PM
Comentários
Pois é caro João, quanto maior for a competição mas se acentua a divisão entre as pessoas. O sentido da entre ajuda que era comungada pelos aldeões hoje é desvirtualizada pelos figurões. Afixado por: congeminações em outubro 1, 2004 10:25 PM
GRANDE POST, Companheiro! Sem dúvidas cá para o je, o melhor dos melhores esta semana. Acabas de ganhar o Óscar do Tadechuva. Um abração do Zecatelhado Afixado por: Zecatelhado em outubro 2, 2004 10:17 PM
fazes-me sonhar com essa realidade que nunca foi a minha. Afixado por: fairy_morgaine em outubro 3, 2004 12:02 PM
Ainda é possível mudar o Mundo meu amigo. Um excelente texto muito reflexivo. Um abraço ao meu amigo João Norte. Afixado por: LetrasAoAcaso em outubro 4, 2004 10:34 AM
Peço desculpa. Não devemos estimular a mistificação. Conheço a aldeia na carne e já há muito que a conheço por fora. É um mundo sedutor e horrível. Como sempre foi, nada mudou. É uma área parada de pântano. A aldeia mudava como as estações. Hoje muda como um ser vivo, substituindo células. Não é melhor nem pior do que antigamente, é igual. É o que é, ponto final. Quem mudou foste tu. E os putos de hoje vão subscever teu texto daqui a vinte anos. Erradamente. Afixado por: Barbant em outubro 4, 2004 04:16 PM
Creio no Zeca quanto à qualidade do Blog, creio no Barbant quanto à total realidade do Post. Provávelmente só mudou o melhor, meu Amigo... os males de que fala o Barbant têm raizes profundas. Um abraço Cotada Afixado por: Cotada em outubro 4, 2004 09:50 PM
O progresso que não nos leve a vontade de viver, nunca!! Bonito texto. Afixado por: Oféliazinha em outubro 6, 2004 02:20 PM
Vamos para la direitinhos,a desconfiança,a vontade de ser o primeiro a bater, de todos de tudo basta um movimento para que esta euforia do mal saia dentro de nos.Tal como o dise hoje um antigo menistro Françês,todos os dados estâo la para que isso acontêça Afixado por: zim-zim em outubro 6, 2004 11:15 PM