Sem suspeitar que iria perder tão grandes investidas políticas, aproveitei a ponte e gozei quatro dias de descanso sem ler jornais nem ver televisão.
Ontem quando escrevi as poucas palavras “ quem disse que não havia censura” estava ainda pouco informado da questão.
Sejam quais forem as conversas de circunstância, sejam quais forem as tentativas de explicação que nos venham dar, sejam quais forem as palavras que acabem por sair da Presidência da República, há factos que já ninguém pode apagar.
Ninguém poderá apagar as palavras de um ministro do PSD que chamou mentiroso e sem vergonha a um comentador respeitado pelo público independentemente das opções políticas de cada um.
Isto é muito grave.
Grave porque vem da boca de um ministro que, pelo cargo que ocupa, devia ter contenção na língua. É ministro não é comentador.
Grave porque mostra a arrogância a que este governo, ou pelo menos alguns dos seus membros. Chegou.
Grave porque se trata de cortar o direito e liberdade de opinião.
Grave porque mostra a obediência política de um canal de televisão a um governo.
Se assim não fosse não teríamos as declarações públicas de homens como José Pacheco Pereira ou Marques Mendes. Se Pacheco Pereira é um comentador, Marques Mendes é um político refinado, sempre fiel aos interesses do PSD. Para que Marques Mendes tenha vindo a público é porque a “coisa” não se lhe afigura grave.
Não importa, por isso, que o primeiro ministro venha compor o ramalhete, foi um membro do seu governo que se sentiu com força e com “direito” de ofender um seu “ camarada” que não é uma pessoa qualquer, e para impedir assim a livre expressão crítica.