Voltando à conversa, minha amiga e companheira de infância.
Sei que por vezes discordes de mim. É bom ter alguém que discorde. Dois pensam melhor do que só um e eu nunca tive a pretensão da verdade.
Já me tens chamado melancólico, saudoso de um passado que jamais poderia existir agora porque tudo muda, a evolução é constante.
Dizes-me que sou eu que vejo as coisas de forma diferente.
Não digo que não seja um pouco melancólico. É da idade. E sei tão bem como tu, como toda a gente, que a evolução não pára porque é a lei das coisas.
Eu não critico a evolução nem queria a estagnação, critico o mau caminho que lhe deram, porque alguém é responsável por esse mau caminho. A evolução não se faz por si. O tempo também muda as coisas, a vida renova-se naturalmente mas foi o homem que interferiu negativamente nessa caminhada.
Fez muitas coisas boas e é por isso maior o meu lamento. Atingimos um ponto de conhecimento que tanto desejávamos. Sabemos que as estrelas nascem e morrem, que para lá do nosso sistema solar há outros, procuramos indícios de vida noutros planetas e continuamos a destruir o nosso.
Não tenho saudades do velho carvalho que nos fazia sombra apenas por ele. Como ser vivo também ele estava condenado à morte inevitável. Mas aguentou firme tempos e tempestades sem vergar. Serviu-nos de abrigo.
Era firme e duro, como firmes e duros eram os homens que cresceram à sua sombra.
É a falta de firmeza que eu lamento, é dessa que eu tenho saudades.
Hoje os homens são como as palmeiras que importaram, vergam para qualquer lado que o vento os leve. Como as palmeiras sugam o terreno à sua volta matando outras formas e outras vidas.
A sociedade tornou-se mais tempestuosa, e já não há árvores que abriguem os mais fracos.