Quem pode hoje assistir às imagens do funeral de Arafat, se tiver olhos para ver, talvez compreenda o que eu dizia num texto escrito neste espaço, em 18 de Março intitulado “ as regras do jogo”
Sempre que falemos dos povos e dos seus comportamentos devemos ter em conta a sua cultura, o seu modo de pensar, o seu passado histórico.
A primeira impressão que se fica ao olharmos para aquela multidão e o seu comportamento é da força emotiva que move aquelas pessoas.
Ali não se chorava a morte de um ente querido da mesma forma que nós (europeus) o fazemos. Ali não eram apenas os sentimentos que se expressavam, eram as emoções que comandavam.
Para compreender aquele povo devemos lembrar também os sentimentos que ali se expressam.
Aquele povo é talvez o único num espaço que podemos chamar de” velho mundo” que não tem uma pátria. É o povo que tem sido mais humilhado na sua dignidade, pobre, sem armamento, roubado e humilhado por outro povo que, esquecendo aquilo por que passou, repete no outro a mesma atitude de arrogância pela força.
É um povo que não tem nada a perder com a violência e que também não é tratado senão com violência.
Não chamem terroristas a quem morre por uma pátria, porque esses mesmo que assim pensam, chamariam heróis se dos seus se tratasse.
Por isso, embora não seja como ninguém é, futurologista, não espero que a paz naquela região possa vir nos próximos tempos.
A paz, naquela região, está dependente da vontade dos israelitas e do governo americano. Uns vão continuar a sua força e o seu cinismo para manter a ocupação dos territórios que tomaram indevidamente. Outros, com um governante que não vê um palmo que não seja guerra, também não irá perceber o caminho da paz. Ali não há petróleo e a comunidade judaica na América é muito importante.
Gostaria poder aqui escrever outra coisa, um sinal de esperança mais imediata, mas não a vejo.