Quando era garoto, na minha aldeia só eu e o Zezinho é que tínhamos botas. O Zezinho tinha tudo, era rico.
Eu tinha umas botas cardadas que pesavam muito. Quando ia para a escola e para a catequese não conseguia correr como os meus colegas descalços.
E quando brincávamos ao agarra-e-foge não conseguia competir. Isso deixava-me sempre ficar mal.
Então eu tirava as botas no caminho e quando voltava calçava-me novamente
Um dia fui para a catequese e escondi as botas junto do ribeiro. Algum amiguinho meu, mas mais esperto do que eu, levou-me as botas.
Quando cheguei a casa, pensando que não me livrava duma tareia, inventei que tinha dado as botas ao S. António que estava descalcinho.
O meu pai acenou com a cabeça com se tivesse acreditado e comprou-me outras botas (aquelas também já não eram novas)
Num dos domingos seguintes o meu pai também foi à missa. Eu só olhava para o chão encolhido nas minhas orações.
O meu pai tocou-me no braço, apontou para o S. António e disse:
- Olha João, o Santo também perdeu as botas.