Não era alcunha, era mesmo assim o nome do meu avô. O meu avô não era burro. Quero dizer, em algumas coisas até era parecido. Era forte, muito grande e tinha muita paciência. Aos meus olhos de criança ainda parecia maior, mas era mesmo grande e tinha muita força, mas não fazia mal a ninguém. E paciência ainda tinha mais do que o burro, mas não era burro porque era muito inteligente. Contava-me histórias e, sem saber ler, sabia fazer contas muito grandes e muito rápido.
Eu também não sei se os burros não são inteligentes, se calhar até são e nós é que não sabemos compreender a inteligência deles. O burro do meu avô era inteligente, nunca se perdia, não comia a palha que não lhe agradava e entendia tudo o que o meu avô lhe mandava fazer. Mas eu não queria falar do burro, queria falar do meu avô. E o meu avô, já disse, não era burro. Era grande e era muito velho. Quando eu comecei a conhecê-lo já tinha quase 90 anos e morreu com quase 100.
Nesse dia eu chorei.
O meu avô não era careca como o avô do Zezinho. O meu avô tinha muito cabelo, todo branquinho. Era eu que lhe cortava o cabelo. Só havia barbeiro na Vila e era muito longe. Nas tardes de sol, o meu avô sentava-se numa cadeira à porta e eu cortava-lhe o cabelo com uma tesoura. Muito rentinho. Depois ele dava-me meio tostão para comprar rebuçados.
Um dia piquei-lhe a cabeça com a ponta da tesoura, só uma picadinha, de propósito. Ele fingiu que não tinha sentido. Quando acabei disse-me:
- O trabalhador que não presta atenção ao trabalho não merece a jorna.
E ponto, fiquei sem o meio tostão e sem os rebuçados.
Histórias da minha infância.