dezembro 04, 2004

O teu fato de Boneca

Da janela do meu antigo quarto, na casa dos meus pais, avisto o terraço daquela que era a tua casa.
Há ainda arames estendidos onde em tempos secavam as tuas roupas. Serão os mesmo? Fisicamente não deverão ser. O tempo passou e nem o metal resistiu à sua força transformadora. Mas eles estão lá, não importa se são os mesmos ou substituídos por fios de plástico. A importância desses fios é muito mais do que a qualidade da matéria física de que são feitos. A importância desses fios são as lembranças que nos trazem. Outros fios que eles puxam, nós que se desatam da nossa memória.
Por eles ocorrem imagens e sons aos nossos sentidos como a antena capta do éter imagens e sons e os coloca no ecrã do televisor, bem na nossa frente, dentro da nossa casa, no nosso espaço mais íntimo, como se fizessem parte da nossa vida, da nossa família, de nós próprios.
As imagens que correm naqueles fios estendidos no terraço da tua casa, essas sim, fazem parte de nós, são partículas deixadas para trás no redemoinho do tempo e do espaço das nossas vivências.
São coisas vivas, moléculas do nosso ser, tecidos dos nossos órgãos com que fomos crescendo, experiências que se foram acumulando. Agradáveis e intensas as que melhor lembramos, mais simples as que foram esquecidas, umas livros carinhosamente forrados que se guardam nas prateleiras do nosso quarto, outras simples papéis perdidos no fundo das gavetas. Esquissos de uma história que se foi escrevendo com amores, paixões e desilusões, umas vezes como heróis, outras pela força das circunstância; umas vezes gozando as delícias da nossa juventude, outras vertendo lágrimas que foram sedimentando no nosso coração.
Recordo com especial saudade o vestido de flores que vestias no primeiro dia de aulas e que tu penduravas junto com os vestidos da tua boneca. Naquele vestido de flores que esvoaçava ao vento eu via dançar as doces formas do teu corpo de quinze anos.
Como eu lembro o teu fato de boneca!

Publicado por João Norte em dezembro 4, 2004 02:43 PM
Comentários
São assim os fios das nossas memórias. Um texto tocante sobre uma coisa aparentemente sem importância: o estendal da roupa. Muito bonito. Afixado por: pedra em dezembro 4, 2004 07:14 PM
Oi, João! Lindo texto o teu... as lembranças realmente nos fazem voar... Um beijo grande e muito obrigada pelas visitas lá no covil da Loba. Afixado por: LobaMorena em dezembro 4, 2004 09:58 PM
Ternurento João este tempo que foi teu. Bonito texto. Às vezes a lembrança é tão forte que dói. É um recordar sofrido, lentamente trabalhado, revendo detalhes... Há que se sacolejar lembranças, recordações, sonhos, fantasias, assim nasce um belo texto como este, na base de sentimento. Gostei muito desse momento e continuo aqui a sonhar contigo. beijos. Afixado por: anne em dezembro 5, 2004 07:07 PM
Gostei imenso da poesia do teu texto. Eu também tenho escrito sobre memórias. Um beijo :-) Afixado por: LolaViola em dezembro 7, 2004 12:47 PM
A maior parte das pessoas não compreende a diferença entre SER triste e ESTAR triste!... Afixado por: blueshell em dezembro 8, 2004 08:57 PM
excelente ensaio guardado no sótão do passado. Afixado por: hammer em dezembro 10, 2004 09:48 AM
as tuas recordações são como bolas de sabão. muito lindo Afixado por: fairy_morgaine em dezembro 10, 2004 02:31 PM