Da janela do meu antigo quarto, na casa dos meus pais, avisto o terraço daquela que era a tua casa.
Há ainda arames estendidos onde em tempos secavam as tuas roupas. Serão os mesmo? Fisicamente não deverão ser. O tempo passou e nem o metal resistiu à sua força transformadora. Mas eles estão lá, não importa se são os mesmos ou substituídos por fios de plástico. A importância desses fios é muito mais do que a qualidade da matéria física de que são feitos. A importância desses fios são as lembranças que nos trazem. Outros fios que eles puxam, nós que se desatam da nossa memória.
Por eles ocorrem imagens e sons aos nossos sentidos como a antena capta do éter imagens e sons e os coloca no ecrã do televisor, bem na nossa frente, dentro da nossa casa, no nosso espaço mais íntimo, como se fizessem parte da nossa vida, da nossa família, de nós próprios.
As imagens que correm naqueles fios estendidos no terraço da tua casa, essas sim, fazem parte de nós, são partículas deixadas para trás no redemoinho do tempo e do espaço das nossas vivências.
São coisas vivas, moléculas do nosso ser, tecidos dos nossos órgãos com que fomos crescendo, experiências que se foram acumulando. Agradáveis e intensas as que melhor lembramos, mais simples as que foram esquecidas, umas livros carinhosamente forrados que se guardam nas prateleiras do nosso quarto, outras simples papéis perdidos no fundo das gavetas. Esquissos de uma história que se foi escrevendo com amores, paixões e desilusões, umas vezes como heróis, outras pela força das circunstância; umas vezes gozando as delícias da nossa juventude, outras vertendo lágrimas que foram sedimentando no nosso coração.
Recordo com especial saudade o vestido de flores que vestias no primeiro dia de aulas e que tu penduravas junto com os vestidos da tua boneca. Naquele vestido de flores que esvoaçava ao vento eu via dançar as doces formas do teu corpo de quinze anos.
Como eu lembro o teu fato de boneca!