Escrever por escrever pode parecer uma ilusão, uma perda de tempo, consumo de energia, desperdício de imaginação.
Pode parecer discussão sem adversário, conversa sem assunto, sexo sem parceiro.
São palavras, só palavras, palavras perdidas, falar de loucos.
Mas não é.
Escrever é um exercício gratificante, sinal de vitalidade.
A procura das palavras, do sentido das palavras, a harmonia do texto é um exercício de construção, de escultor que modela a peça, de pintor que se matiza nas cores.
Escrever é o jorrar de uma energia que não pode ser contida.
Quem escreve vira-se do avesso, exterioriza o que lhe vai na alma, na memória, nos sentidos. Coloca na escrita, ainda que não pareça nem ele tenha disso consciência, pedaços de si próprio, partículas do seu eu que, ao longo da vida, foi construindo.
Cada frase é parte do seu todo, cada letra é uma gota do sangue que lhe corre nas veias.
Escrever como simples exercício pode ser interessante, bonito estimulante pela capacidade de escolher as palavras, organizá-las numa frase, dar-lhe sentido, estabelecer as suas relações, aplicar o adjectivo que melhor caracteriza o sujeito, utilizar o verbo que melhor descreve a acção, dar cor ao texto, dar-lhe som, musicalidade, imprimir-lhe convicção, apelo ou imposição, ordem ou súplica, blasfémia ou oração.
Cada texto é um grito, uma rotura com a solidão, uma brecha na muralha que a vida construiu à nossa volta.
É um brado de liberdade, liberdade de fazer o que não lhe pedem nem lhe mandam fazer.
Pode não atrair muitos leitores, pode não agradar a parte deles, mas é obra, é criação.
Cada um de nós é feio ou bonito, mas todos somos gente.
Ainda ninguém deixou de fazer um filho por pensar que pode sair feio.
Escrever por escrever é melhor do que não escrever.