Os Verdelhões fantasmas.
Esta história é perfeitamente real.
Vou tentar contá-la com a melhor clareza que a minha memória permitir.
Tinha eu uns oito ou nove anos, o meu primo um pouco mais velho ensinou-me a fazer uma armadilha para apanhar pássaros.
Muito simples, uma espécie de meia caixa feita de cana, com uma verga que servia de mola, sobre a qual um pauzinho mantinha a armadilha levantada. Punham-se grãos de trigo lá dentro e os pássaros, para entrarem, pulavam para cima da verga, esta cedia e a armadilha caía fechando a saída.
É um pouco complicado para as pessoas urbanas, muito simples para aqueles que foram criados no campo, perceberem o que estou a dizer. Por isso adiante.
Na quinta onde fui criado havia ainda a eira, recinto cimentado onde se fazia a debulha e seca dos cereais.
À volta dos muros da eira havia sempre restos de palhas e alguns grãos que ficavam juntos.
De inverno eram aos bandos os pássaros especialmente verdelhões, que ali vinha procurar a comida que não encontravam nos campos.
Colocava-se a armadilha com uns bagos de trigo lá dentro, bem visíveis, e era vê-los aos grupos a saltar para encher o papo. Quando um se empoleirava na verga que servia de mola, lá ficavam alguns, por vezes 6 ou 7 e, ao fim do dia, podia ter umas dezenas.
Eu não gostava de matar os pássaros, aliás nunca os matava, brincava com eles e depois largava-os.
Houve um dia que apanhei muitos, e não sei porquê resolvi metê-los numa gaveta da mesa da cozinha e fui brincar. Uma empregada lá da casa que fazia as limpezas, andava lá nas suas tarefas, abriu a gaveta e levou com uma nuvem de pássaros amedrontados a esvoaçarem-lhe na cara.
A pobre ignorante que acreditava em fantasmas e almas-do-outro-mundo, foi a correr junto da minha mãe dizer que estava a cozinha cheia de fantasmas e almas penadas transformadas em pássaros, que eram pássaros do inferno, que não queria mais trabalhar ali.
Por mais que eu lhe dissesse que eram simples verdelhões, que eu tinha apanhado, que tinha sido eu que os metera na gaveta, a mulher nunca acreditou. Ninguém a convenceu a continuar o trabalho, e penso que morreu a pensar nas almas penadas transformadas em pássaros.