Oiço a minha mãe que no canto da cozinha descasca as batatas que serão o nosso jantar. Não consigo olhar nos olhos dela porque me fala da vida. A vida que foi dela. A minha vida é ainda muito curta, não tenho histórias para contar. Tenho vivências intensas que vou guardando na memória e imagino o meu futuro. Pego no lápis de carvão, no caderno e vou escrevendo. Oiço as palavras da minha mãe, mas não escrevo as palavras da minha mãe. Ela fala-me de vivências dum outro tempo, de pessoas que eu não conheci, como se pretendesse que a sua memória se perpetuasse na minha memória. É uma exigência que os pais fazem aos filhos.
Não olho nos olhos da minha mãe. Há em mim uma necessidade de fugir, de não olhar aquele ventre, que parece querer reter-nos para sempre.
Os meus olhos estão nas palavras da minha escrita. Nos olhos dela passam imagens de um passado concreto que eu não vivi. Nos meus olhos passam imagens que eu invento, passam palavras que escrevem sonhos. A minha vida está no sonho.
Oiço as palavras da minha mãe que passam na minha frente e parecem fugir num espaço que não me pertence. Mas eu escuto-as.
Ela apercebe-se que eu não olho os olhos dela e fica magoada.
- Porque não me olhas quando falo contigo?
- Estou a escrever mãe.
Respondo como se a escrita fosse uma resposta à minha mãe. A escrita é minha, e eu vivo nas palavras da minha escrita. As palavras são o meu refúgio. A escrita é o meu lego em construção. A minha atenção parece estar toda naquela construção dum futuro imaginado onde não entravam as histórias da minha mãe. Mas eu estou a escrever com palavras que foram da minha mãe. Não serão aquelas que ela vai dizendo naquele momento, mas seguramente outras ditas noutros momentos, talvez em momentos de que eu não tive consciência.
Hoje, na solidão desta escrita, eu escrevo as palavras da minha mãe. E, se pudesse, queria contar-lhe histórias do meu passado, as minhas histórias. Talvez as minhas histórias pudessem ensinar a minha mãe uma vida diferente, melhor do que aquela que ela viveu e me transmitiu nas suas histórias. Como se pudesse, agora, ao contrário, perpetuar o meu presente no passado dela e, juntos, imaginarmos um futuro e construirmos outro lego a quatro mãos.
Ou então, em vez de contar uma história, descontá-la. Isto é, escrevê-la de marcha atrás. Talvez fizesse sentido. Mais sentido do que aquelas que eu escrevia imaginando o futuro. E, de certeza, a minha mãe entenderia esta história.
E agora, os meus olhos estão nos olhos da minha mãe guardados na minha memória.