janeiro 15, 2005

O tamanho do Horizonte

Quando eu era um menino quase em idade escolar, passada a fase ingénua dos” porquês” e chegada a fase da curiosidade pelas coisa próximas e longínquas, o meu horizonte era enorme para o meu conhecimento e bem pequeno no espaço que se admitia existir.
A linha do horizonte mais distante que eu conseguia alcançar, subindo o monte mais próximo da casa dos meus pais, era um azul de vários tons em que se desdobrava o Oceano e um azul enevoado da serra. Dum lado ao outro não iam mais de 50 quilómetros.
De nada valia perguntar aos meus pais, analfabetos, o que ficava para lá daquelas linhas que tapavam a minha vista. Também não sabiam e, a única diferença entre nós era que, a mim, algo me espicaçava a curiosidade e a eles não.
Os jornais não chegavam à minha aldeia nem lá faziam falta porque ninguém os sabia ler. A rádio era coisa rara e dela apenas a música era ouvida e “entendida” porque os sons não precisam explicação para serem agradáveis.
A televisão, falava-se que iria existir, que existia na América. Era assim um rádio com bonecos como o cinema. E mais não se sabia.
Os olhos das pessoas estava focados na terra que os alimentava. No Universo ficavam as estrelas que Deus tinha criado para nos alegrarem as noites. Tudo para lá do mar e da serra era mitos, contos de fada, fabulações à medida da imaginação ou da ignorância de cada um.
Veio a electricidade e iluminou as estradas e as casas, veio depois a televisão e mostrou o Mundo para lá da serra.
Depois, muito depois, ainda os meus pais viram incrédulos imagens do homem na Lua.
Hoje, pouco mais de 50 anos passados, eu assisto sem qualquer espanto às imagens das galáxias e da superfície de Titã, como se da coisa mais natural se tratasse.
Penso nos meus pais e ainda mais nos meus avós. Como iriam eles assistir a estas imagens?
Por muitas guerras, muitos erros que tenhamos passado nos últimos 60 anos, podemos considerarmo-nos bafejados da sorte por termos vivido neste período.
Os jovens não sabem quanto isto vale.

Publicado por João Norte em janeiro 15, 2005 03:00 PM
Comentários
Pois! Eu, que tenho mais ou menos a tua idade, também já fiz esse raciocínio muitas vezes. Um abração do Zecatelhado Afixado por: zecatelhado em janeiro 15, 2005 07:14 PM
uma bela crónica da simplicidade da vida. Afixado por: fernando esteves pinto em janeiro 16, 2005 05:50 PM