A minha égua maluca.
Na aldeia onde fui criado e até depois dos meus vinte anos não havia estradas de asfalto nem macadame. O asfalto mais próximo ficava a cinco quilómetros e o macadame a três. Os caminhos era de terra que, no inverno se transformavam em lamaçais intransitáveis. Só animais leves e ágeis conseguiam caminhar.
O meu pai, que necessitava de se deslocar quase diariamente, comprou uma égua. Um animal corpulento, possante e nervoso que facilmente rompia com os atoleiros dos caminhos. De verão puxava a carroça que para além de transportar a família levava também as batatas e as hortaliças ao mercado.
Um dia exageraram na carga e, depois do primeiro impulso sem conseguir deslocar a pesada carroça a égua recusou-se a puxar. De nada valeram as palavras de incitamento e com as chicotadas foi pior a emenda do que o soneto, não só recusou daquela vez como nunca mais ninguém conseguiu atrelá-la. Restava a sua utilização para cavalgar.
Mas o bicho tinha as suas manias e sua personalidade muito própria, fazia o que muito bem lhe apetecia e pouco o que lhe mandavam. Num inverno depois de o ribeiro ter transbordado as margens com águas barrentas, corria cheio embora de águas límpidas. Quando o meu pai a cavalo atravessava a velha ponte de pedra com a água a bordejar as patas da égua, esta sem aviso, saltou para a água e nadou até lhe apetecer só saindo quando satisfeita com o banho indiferente às espora e aos gritos do dono. Claro que o meu pai foi forçado a tomar banho também.
Saída da água levou uma valente tarei de bengala. Dali em diante ninguém mais conseguiu assentar-lhe a sela no lombo.
Como eram um animal de grande porte, o meu pai resolveu dar-lhe outro aproveitamento, a reprodução. Não faltavam compradores para os potros.
Eu tinha sido habituado a montar desde os meus cinco anos, mas dali em diante a coisa era difícil.
Como eu sabia que “com papas e bolos se enganam os tolos” resolvi aplicar o provérbio à égua. Passei a trazer nas algibeiras mãos cheias de ração, torrões de açúcar e verifiquei que a égua era mesmo gulosa. Então aprendi um truque para montar. Punha o torrão de açúcar na palma da mão e baixava a mão obrigando a égua descer a cabeça até ao chão para apanhar a guloseima. Nesse momento eu agarrava-me às crinas e saltava-lhe para o pescoço. O próprio impulso do animal para levantar a cabeça atirava-me para cima do lombo. Talvez porque não utilizava sela nem freio,
ou pelas guloseimas, consentia ser montada apenas usando a corda com estava presa no estábulo.
Assim, eu era o única que montava a égua maluca que comigo se comportava como um cordeiro e, de tal maneira, que me encarregavam de todos os recados e compras que fossem necessárias da Vila que ficava a sete quilómetros. Aí às compras e a égua andava atrás de mim de loja em loja com um cão que segue o dono.
As pessoas achavam piada e eu um dia disse que dava a égua a quem fosse capaz de a tirar de trás de mim. Pensava eu que ela fincaria as patas e não se moveria.
Porém, aconteceu algo bem pior. Um dia um vizinho resolveu tentar ganhar a aposta, pegou-lhe na corda que pendia do pescoço e puxou. O animal teve uma reacção que ninguém esperava, levantou as patas e tentou atingi-lo na cabeça. Tê-lo-ia matado se eu não estivesse perto para a acalmar.
Histórias da minha infância.