Estou fartos dos “sábios” lisboetas.
Quando leccionava a cadeira de Pedagogia na Escola Normal, tinha a meu cargo a orientação de cerca de 20 grupos de educadoras a estagiar em jardins de infância e instituições que iam desde Mafra a Fátima. Tinha apenas um dia por semana para verificar no local como estava a decorrer o seu estágio pedagógico.
Um dia em reunião de trabalho no Ministério da Educação, a Srª Inspectora directora do departamento achou que eu estava a fazer muitos quilómetros com a minha viatura. Entendia a dita responsável que eu devia utilizar os transportes públicos. Quando lhe perguntei qual o número do autocarro que ligava Vale Côvo a Mira de Aire porque tinha de lá ir no dia seguinte ficou a olhar para mim com cara espantada porque não sabia onde isso ficava.
Veio-me isto à cabeça a propósito das recomendações político económicas do Sr. Governador do Banco de Portugal.
O Sr. Doutor Victor Constâncio é um técnico reconhecido. Como político, todos estão lembrados, nem tanto.
Tenho pelo Sr. Governador o enorme respeito, mas não é menor o que tenho pelo meu vizinho que trabalha a partir pedra na Serra dos Candeeiros. Será talvez menos inteligente, ou terá nascido e crescido sem condições para ser doutor. A calçada que ele parte e que o Sr Governador deve apreciar quando pisa, é importante, e ele é honesto e trabalhador.
A grande diferença é que o Sr. governador ganha (merecidamente) 5.000 contos mensais e o calceteiro ganha( também merecidamente) 50.
O Sr. Governador terá carro de luxo e motorista à nossa conta, o calceteiro não tem.
Todavia, o combustível que o Sr. Governador não pada, e devia pagar, o calceteiro paga, e o pequeno fiat que usa é ele que o paga às prestações. Ao fim de 3 anos, pelas más estradas da serra, terá dado cabo dele sem que tenha ganho para comprar outro.
Já ouvi o Sr. Governador, no tempo do governo de Durão defender o congelamento dos ordenados da função pública esquecendo que também ele é funcionário. Agora defende o aumento do imposto automóvel e dos combustíveis. Isso também eu, e até o meu vizinho calceteiro sabia fazer.
Gostaria de ouvir o Sr. Governador dizer o que deve ser feito para que se acabe com a economia paralela e a fuga ao fisco. Isso sim é política.
Sr. Governador, aqui ao lado, na vizinha Espanha, os automóveis são mais baratos e o combustível também em cerca de 20%, e não é por isso que a economia espanhola não está a crescer.
Estou farto de políticas fáceis em que são sempre os pobres a pagar.