Não é uma história inventada, foi uma realidade vivida na minha infância, antes de setenta.
Tive a felicidade de ter um pai que, embora analfabeto, era um homem inteligente e de uma integridade a toda a prova.
Desde menino que me ensinou que a Nação era o povo. Era povo que pagava com o seu suor e com os seus impostos os ordenados daqueles que ocupavam os lugares públicos, desde as Câmaras municipais ao chefe do governo ou ao presidente da República. Eles eram nossos empregados e não nós empregados deles.
A todos devíamos respeito como devíamos às pessoas mais velhas. Mas não devíamos olhá-los com medo.
Ensinou-me também que, quando temos razão, devemos defendê-la e, para isso, vale mais partir do que torcer.
Um dia, quando eu tinha os meus catorze anos, mandou-me à Vila sede de Concelho tratar das licenças que todos anos era preciso renovar. Licença para o cão, o cavalo, os bois, etc.
Lá fui na minha bicicleta, de cabelinho cortado, feito homenzinho. Chegado ao guiché da Câmara entreguei ao funcionário os papéis necessários, sem reparar que um deles ia dobrado. O funcionário atirou-me o papel à cara dando início a um diálogo duro:
- Desdobre isso, não seja malcriado!
No meu orgulho de adolescente ferido, atirei o papel novamente pelo guiché respondendo:
- Desdobre o senhor, e malcriado é o senhor, porque eu não reparei que o papel ia dobrado.
- Eu não sou seu criado! Respondeu o funcionário.
- É sim senhor!
- Recebo ordens do Senhor Presidente.
- E ele recebe-as minhas, porque também é meu criado.
O funcionário virou-me as costas. Sentado a uma secretária, o porteiro observava rindo-se.
Leve-me ao Senhor Presidente! Disse eu. O homem olhou para mim com uma gargalhada.
Imediatamente!... ou eu entro sem me fazer anunciar! Disse eu. Perante a minha teimosia, o porteiro lá foi à minha frente. Bateu, abriu aporta do gabinete e disse:
- Senhor Presidente, está aqui um garoto, diz que quer falar com senhor e diz que o senhor é criado dele.
O presidente da Câmara olhou de lado, fez sinal ao porteiro para sair e mandou-me entrar. Fez-me esperar uns momentos escrevendo ou fingindo escrever e depois perguntou-me com um sorriso divertido.
- Então eu sou seu criado?!
- É!... E, sem mais, narrei a cena com o funcionário que se tinha recusado a passar-me os documentos.
- Mas você é um garoto!
- Pois sou, mas não é por isso que tenho menos direitos!
- Explique-me lá essa de eu ser seu criado! Dizia com ar divertido, como se eu fosse o palhaço que lhe ia dar motivo de gargalhada com os amigos.
- Pois explico! Disse eu. Donde vem o seu ordenado? Para que servem os impostos pagos pelo meu pai e outros moradores neste concelho?
O sorriso trocista desapareceu da cara do divertido presidente. E antes de mais eu acrescentei.
O Senhor está ao serviço dos habitantes deste conselho, são eles que lhe pagam, o senhor é um empregado de quem lhe paga, o meu pai é um deles e, neste momento, eu represento o meu pai. O senhor é meu empregado! E faça favor!... quero os meus documentos!
O presidente chamou o porteiro.
- Diga ao sr. Monteiro (era este o nome do funcionário) que passe os documentos deste rapaz.
E depois para mim.
- Você tem razão. Fez-me compreender uma coisa em que nunca tinha pensado. Em troca, dou-lhe um conselho, tenha cuidado.