maio 04, 2005

Um Lamento

Os nossos pés desnudados deixam na areia húmida a marca magoada do nosso caminhar penoso. A tua mão prende-se na minha sem alento, simples ligação exterior porque, por dentro, passeiam outras imagens rebuscadas de um passado pegajoso que não te larga.
Evades-te numa defesa da solidão que nos esmaga.
Tu bem tentas sacudir esses adesivos que te prendem. Arrastas com eles toneladas de um mundo não vivido, mas fabricado na tua imaginação, por algum amor que inventaste por desejo. Mas o amor não se inventa, vive-se quando nos bate à porta. Não vale a pena procurá-lo como quem procura caça num deserto. Ele virá por seu pé, por caminhos que só ele entende e não revela com qualquer antecedência. É imprevisível e vagabundo, esconde-se por detrás de cada face. Não usa passaporte nem reconhece fronteiras e não pede licença nem precisa chave para entrar.
O meu ombro é apenas o muro onde descansas a tua cabeça, mas não serve de muralha nem prisão ao teu pensamento, que te foge como pássaro bravio que não consente grades.
Entre estas mãos que me dás e os sentimentos que me negas, vão quilómetros de distância, anos de solidão escondida, recalcada na nostalgia dos sonhos que te agitam as noites mal dormidas.
Olho a mar que ondula e se evapora ao nosso lado, alheio aos dramas de quem pisa as areias onde espreguiça os séculos. Nos teus olhos, rola uma lágrima salgada como as suas águas, também ela vem do passado como o mar. Ambos são indomáveis. Ambos fogem ao teu controlo. Não se deixam prender pela razão, nem por essa outra mão que levas ao rosto, rápida e disfarçadamente.
Pára de mentir a ti própria. O amor não se fabrica. Não se compra na banca do mercado. Não se modela na roda do oleiro, não respeita as regras sociais. É uma criança selvagem.

Publicado por João Norte em maio 4, 2005 07:57 PM
Comentários
Oi João, que maravilha de texto, grande verdade contida nestas tuas palavras. Concordo plenamente que o amor "não se inventa, vive-se quando nos bate à porta. Não vale a pena procurá-lo como quem procura caça num deserto. Ele virá por seu pé, por caminhos que só ele entende e não revela com qualquer antecedência. É imprevisível e vagabundo, esconde-se por detrás de cada face. Não usa passaporte nem reconhece fronteiras e não pede licença nem precisa chave para entrar". É isso aí, ele apenas chega e se apossa, toma conta e ficamos impregnados dele. Parabéns! Beijo meu. Gosto qdo vejo que andaste por lá. Afixado por: anne em maio 5, 2005 12:28 AM
Olá... Vim espreitar e encontro este texto que me doeu, que me amargurou, mas num sentido positivo. É como se tivesse sido escrito para mim (tonta pretensão!) mas, no fundo foi a minha primeira sensação, desculpa a ousadia. " ...não se fabrica...; ...não se compra na banca...; ...não se modela...!" Estou em fase de considerar todas estas tuas palavras... Um beijinho pela tua compreensão ainda que não o saibas, nem o tenhas feito propositadamente. Afixado por: Ana Paula em maio 5, 2005 02:43 PM
Gostei muito de ler. Até porque disseste enormes verdades. Ao amor temos que estar receptivos que ele acaba por nos encontrar. Bjs Afixado por: lique em maio 6, 2005 09:48 AM
Sim, o amor é como um criança selvagem. Concordo... Afixado por: Dora em maio 8, 2005 12:06 AM
Tinha-te perdido o rasto!!! Procurei e encontrei, não só o teu blog, mas tb este belíssimo texto. O amor não é... / O amor é... Continuamos na tentativa vã e inútil dett perceber o que une as pessoas, como e para quê. Ebora aceite que o amor é selvagem, mas mais do que isso, se existe (o q duvido, mas sonho...), é sobretudo indómito. Fica bem, p.s. li o teu post deste dia e apraz-me registar o benefício da dúvida que atribuiste ao Primeiro Ministro de Portugal, e que eu partilho ctg (espero que não seja sol de pouca dura...). Afixado por: eu33 em junho 9, 2005 07:30 PM