Aquele que escreve abro-se, expondo as entranhas nas palavras. É o seu íntimo, o seu pensamento, a cultura que recebeu, a sua sensibilidade, o seu carácter que se plasma nas palavras. Há uma contínua corrente de esforço entre o seu interior e a escrita. Pode, aparentemente, ser falsa, resultado de uma vontade de ir ao encontro de quem o lê, sem sinceridade, mas isto nunca é totalmente verdade. Ninguém dá o que não tem, por muito alto que respire não conseguirei trazer do ar o que não há no meu interior. É um momento de esforço, de busca em si próprio, de pensamento e inspiração, de procura do termo correcto, do encontro à compreensão. Até parece simples, apenas desenhar as letras ou bater as teclas. O problema não é escrever, é sentir o que se escreve.
Dá o melhor que tem, tudo o que guardou da vida que viveu. Porém, esse legado não é só seu, é de todos os que viveram consigo, não apenas juntodele, mas em todo o espaço que pode alcançar.
A leitura tornou esse espaço ilimitado. Todos vivemos num espaço ilimitado, depende nós o pedaço que tomamos.
As minhas palavras de hoje, são as tuas de ontem. Hoje são minhas, porém eu não nasci com elas, fui buscá-las, ou outros mas trouxeram. Emprenhei-me delas. São também tuas e dos outros.
Se falaste, se escreveste, então fazes parte deste meu mundo. Mesmo que eu não te tenha lido directamente, li-te através de outros, ou então ambos lemos outros e, assim, temos em comum esse legado. É uma cadeia interminável. Somos irmãos nas palavras. Palavras velhas, sempre iguais mas sempre novas, como flores que se renovam a cada primavera, e renascem na boca de cada um, naquilo que cada um escreve ou diz. Algumas são espinhos que nos rasgam, ásperas, cortantes; outras coloridas como rosas de vários tons; outras vermelhas como as papoilas, como o sangue que nos corre nas veias; outras suaves como os recônditos de uma mulher, doces como os beijos das amantes, aveludadas como a pela duma menina melodiosas como o som do violino.
Neste mundo das palavras todos expomos parte de nós. O poeta é fingidor, mas só ele é capaz de captar a sensibilidade do mundo; o escritor pode ser apenas o transportador de dramas e tragédias que são de todos. Que são teus, que são meus. Nenhum é puro inventor. Mas sentem o mundo de uma forma mais arguta. Por isso nos revemos nas palavras de quem escreve.
Eu revejo-me, recrio-me, nas palavras que tu escreves.
Escreve mais. Eu espero por elas.
João Norte