abril 30, 2004

Um País Tolhido

Uma sondagem dava-nos há pouco tempo como o povo mais pessimista de Europa. Já sabíamos que ser pessimista, fatalista, saudosista, gostar de fado, não acreditar em nada que seja nosso, gostar de comprar tudo o que é feito lá fora ainda que seja pior do que os portugueses fazem, são características que nos vêm de muito longe, talvez desde que verificámos que a Índia não nos enriquecia e que nos estão coladas como parte da nossa pele.
Porém o problema actual não é infelizmente apenas uma característica. Não era disso que a sondagem falava como não é disso que falam os números, tanto os do FMI como os do Banco de Portugal. Esses números falam da quebra do poder de compra e da quebra do consumo daí resultante. Os números falam da diferença entre a média dos salários nacionais e a média europeia. Os números falam do maior custo de vida em Portugal do que a média europeia. Os números falam de muitos milhares de pessoas portuguesas que passam fome. Os números falam da falta de cuidados de saúde e da espera por cuidados que deviam ser imediatos. Os números falam de creches a fechar e nenhuma a abrir. Os números falam de meio milhão de portugueses sem emprego. Os números falam dos lucros desenfreados da banca e das grandes companhias de serviços necessários e seguros. Os números falam do défice descontrolado, apesar do governo nos querer tapar os olhos vendendo o que outros anteriores tinha guardado. Os números falam de corrupção que se estende pela sociedade portuguesa como uma epidemia de tuberculose incurável, misturando política com futebol e negócios imobiliários, os números falam da compra de carros de luxo atentatório à dignidade de quem paga impostos. Os números falam-nos em tantas coisas que nos deixam envergonhados quando falamos com estrangeiros.
Há dois anos estávamos de “tanga” agora estamos a nu.
Será que ainda alguém espera que os portugueses tenham vontade de rir?

Publicado por João Norte em 05:42 PM | Comentários (2)

abril 29, 2004

É preciso acreditar.

É preciso a pessoa não parar de acreditar que a vida um dia vai trazer uma surpresa.
(Lídia Jorge) in O Jardim sem limites

Publicado por João Norte em 09:56 PM | Comentários (3)

abril 28, 2004

Um Deus Matando

Este tempo em que vivemos é tramado.
Há homens e monstros
Que circulam tão armados,
legais ou legalizados,
Quase honestamente apresentados.
Lobos de cordeiro disfarçados
Prontos a matar por um deus desconhecido.
E nem sequer se mostram arrependidos
Que de nada já nos valer podia,
O negrume da morte vem de dia,
Nos caminhos das armas percorridos.
De grandes impérios enriquecidos,
Pensam o mundo subjugar
E quem como eles não pensar,
Ao jugo serão submetidos.
Em nome de valores que são só seus,
Porque de deus se julgam enviados,
Os fanáticos pelo mundo andam espalhados.
Um deus matando, em nome doutro deus.
...../......
João Norte

Publicado por João Norte em 09:42 PM | Comentários (6)

Óbidos Está na Moda

E faço esta afirmação com orgulho e com muita esperança que assim vá continuar. Óbidos é para mim uma vila vizinha, terra de familiares mas é sobretudo uma Pérola Histórica bem conservada. Passear pelas ruelas históricas de Óbidos é rever a História em cada canto, em cada pedra, em cada arco encrostado nas paredes existentes e ali religiosamenmte conservado, nos quadros da Josepha. Óbidos é as saudades dos tempos passados no Bar do Montez, onde se conversava pacatamente de tudo incluindo política antes do 25 de Abril de 1974, onde escrevi muitas, e das melhores, das minhas poesias. Óbidos é a bica tomada quase com devoção no bar da Pousado do Castelo. Óbidos é as noites da ginginha na Cave do vale. Óbidos são tantas recordações da minha infância que posso sintetizar dizendo que Óbidos faz parte de mim próprio.
Por tudo isto, sinto orgulho da candidatura que Óbidos vai apresentar a Património da Humanidade. Para mim Óbidos já é Património da Humanidade. A equipe de cientistas e investigadores que vai preparar a candidatura não podia ser melhor. Nela estão grandes figuras da investigação universitária.

Mas não há bela sem senão.
Óbidos e os concelhos vizinhos esperam há muito pela construção do IP16 que ligará o A8 a Peniche e a toda a zona do Baleal e Praia d’El Rei que se encontra em grande desenvolvimento.
Finalmente, o primeiro ministro veio ao Oeste, com pompa e circunstância, inaugurar um troço do IP16,
É uma ligação há muito esperada, há muito planeada, e muito discutida. Pelas palavras de Durão Barroso e do seu colega de partido o presidente da Câmara de Óbidos (Óbidos agora está também na moda política) até parece que o IP16 é obra deste governo e que, com ela, vêm fazer um favor ao Oeste. Quando foi construído o primeiro troço do A8, inaugurado por Cavaco Silva, já previa a construção do IP16 como prova a saída logo construída. O que o primeiro ministro e o seu colega presidente da câmara não disseram é que este projecto se arrastou há anos pela discussão do seu traçado e pela sua largura, (uma ou duas faixas) Por esse arrastamento, por essa discussão ou por erro de visão, esta obra tem sido feita ao contrário. O troço agora inaugurado vai de Peniche até à Serra d’ El Rei. Isto é, não liga coisa nenhuma a coisa nenhuma. Vejamos:
O grande tráfico comercial de Peniche faz-se para o A8 ou para a nacional nº8 ligando para Lisboa via sul, Santarém via interior Espanha ou para Leiria via Norte. Não estando feito o troço entre a Serra d’ El Rei e o cruzamento da Dagorda, o que está feito não serve para nada. O mesmo se pode dizer do movimento turístico que é feito em sentido contrário. As praias de Peniche, Baleal e El Rei, o campo de golfe e o Hotel de cinco estrelas no empreendimento turístico d’ El Rei atraem milhares de turistas. Mas estes vêm do sul ou do norte pelo A8 e do interior pelo A15. Sem a ligação a estas vias ficam com os mesmos constrangimentos. Vamos assistir (aqueles que se arriscam, eu não) no verão ainda a maiores filas de trânsito no cruzamento da Dagorda. O que deveria ter sido feito em primeiro lugar era o troço que continua por fazer. Esse sim, permitia o acesso e regresso do fluxo turístico das vias principais à paria d’ El Rei, Baleal e depois Peniche, porque é exactamente na serra d’ El Rei que se separam os respectivos destinos. O que está feito será importante quando estiver acabado. Até lá, o Sr. Primeiro Ministro e o Sr. Presidente da Câmara de Óbidos bem podiam e deviam ficar calados.


Publicado por João Norte em 01:01 PM | Comentários (0)

abril 27, 2004

Pela Voz da Poesia

Pela voz da poesia,
Canto o teu nome,
E estrofes que jamais esquecerei,
Porque outro nome amar não sei
Continuo nesta nossa fantasia.
De inventar o mundo em cada dia
O dia em que nasci, esse eu não sei.
Sei apenas o dia em que te vi
E nesse mesmo dia
Por ti me enamorei.
E mesmo que após esse teu dia
Muitos dias, alguns anos têm passado,
Pela voz da minha poesia,
Continuo a cantar enamorado.
Os dias menos bons serão esquecidos,
Os dias de mais amor serão lembrados,
Porque deles se alimenta o dia-a-dia
Daqueles que não vivem separados.
São eles que suprimem o cansaço,
E dão alegria ao que faço,
Só assim a vida tem sabor,
Não sei viver sem este amor.
....../......
João Norte

Publicado por João Norte em 09:39 PM | Comentários (1)

Mascar Pastilha? ! Que bela Educação

Gosto de escrever sobre as coisas quando há já serenidade para as analisar. Por vezes como todas as pessoas deixo-me entusiasmar e escrevo a quente e digo coisas pouco agradáveis. Esforcei-me, por isso, para não falar do 25 de Abril nos dias que o antecederam, muitos o fizeram com mais qualidade do que eu teria e também queria deixar assentar a poeira e falar depois.
Mas, como cidadão já com alguma idade, educado à maneira antiga, isto é, no respeitinho pelas pessoas e pelas ocasiões, como professor e por isso educador, não gosto de meninos mal educados. Na dúvida consultei um manual de etiqueta e lá vem:- “ mascar pastilha elástica em público é falta de educação”.
Por tudo isto eu acho que quem masca pastilhas perante o Sr. Presidente da República e na Respeitável Assembleia da mesma.
É malcriado.
É um menino mal comportado do Ensino Primário
Faz figura de otário.
Se mais não houvesse, bastava isto para não dever ser ministro!

Publicado por João Norte em 05:02 PM | Comentários (5)

Por Favor informem-me.

Por favor.
Alguém que me possa informar onde é o encontro de bloguistas no próximo Sábado e como me inscrever que me mande um e-mail ou deixe aqui em forma de comentário.
Certo que haverá alguém, os meus agradecimentos.

Publicado por João Norte em 03:05 PM | Comentários (1)

O Blogue como Espaço de Intervenção

Num dos meus textos mais virado para a crítica política, em comentário, o amigo Fernando Esteves Pinto diz:- “este blogue é cada vez ,mais um espaço de discussão. Interventivo.”
É um comentário agradável, não porque contenha palavras elogiosas, palavras muito bonitas como o Fernando tão bem sabe escrever mas porque é directo franco e certeiro. A grada-me que o meu blogue seja um espaço de discussão porque a discussão implica que haja quem o leia, quem concorde e quem discorde. Nada mais saudável do que o debate de ideias. Sendo o blogue uma página onde expressamos as nossas opiniões é assim que ele cumpre a sua função. Entendo perfeitamente o que o Fernando pretende dizer com interventivo. Mas quero dizer-lhe a ele e também a todos que escrevem e lêem blogues que todos eles são interventivos. Em meu entender, não é só quando criticamos o governo ( embora considere que isso deveria ser uma preocupação de todos os cidadãos) que somos interventivos. Não há escrita neutra. Seja prosa ou poesia. Mesmo a poesia escrita com as palavras mais adoçantes, tristes ou apaixonadas, é sempre interventiva porque ela resulta de um modo de sentir, de um expressar o que nos vai cá dentro, e esse resíduo resultou da vida que foi e é uma parte da sociedade
Quero com isto dizer, que também os bonitos e tão bem elaborados textos do Fernando, e os de outros bloguistas de qualquer estilo e de qualquer quadrante político ou de sensibilidade são sempre uma forma de intervenção.
O meu blogue é uma página onde encontrei espaço para escrever porque gosto, desabafar porque preciso, criticar porque devo. Permitiu-me tomar contacto com um grande número de pessoas que escrevem muito bem e cuja leitura me dá grande prazer. E permite-me também expressar as minhas opiniões sobre o quotidiano que (sempre e hoje cada vez mais) exige ao cidadão que não é amorfo que não fique calado.

Publicado por João Norte em 11:57 AM | Comentários (5)

abril 25, 2004

VIVA A REVOLUÇÃO

Hoje faz 30 anos a REVOLUÇÃO de Abril e quem lhe chama evolução ou é parvo ou quer fazer dos outros parvos, tal como faziam os governantes de antes do 25 de Abril 1974.

Estão enganados o povo não é parvo. Não era antes e hoje muito menos.

Viva a REVOLUÇÃO.

Publicado por João Norte em 12:29 AM | Comentários (4)

abril 23, 2004

A GNR no Iraque

Como se distorcem ideias e informações.

A minha opinião em relação à presença dos nossos militares da GNR no Iraque já é conhecida. Nunca deviam ter ido. Em minha opinião a sua eficácia é pouca e apenas serve para nos colocar aos olhos dos iraquianos como fazendo parte das forças de ocupação. Os nossos militares são 130 com armamento emprestado pelos italianos num conjunto de 155 mil militares. 1/1600. Alguém me convence da importância eficaz dos nossos soldados?! Todavia, estamos lá. Nunca defendi que as tropas que lá se encontram devam abandonar porque este ou aquele país foi atacado por terroristas, mas entendo que, aos olhos dos terroristas que alegam a ocupação do Iraque para o seu ódio, nós estamos lá. O que também não compreendo é a sanha arreganhada de alguns dos nossos comentadores e da nossa direita política, contra o actual governo espanhol. Zapatero retirou as tropas espanholas no cumprimento de uma promessa eleitoral. É um problema da soberania espanhola. Também não é verdade o que diz José Manuel Fernandes no Público de hoje (23-04-04) sobre o mandato das Nações Unidas. A resolução 1511, ponto 13 e 14, autoriza uma força multinacional sob comando unificado com a missão de assegurar as condições necessárias à transição de poderes e pede aos estados membros para, no quadro deste mandato contribuírem com assistência necessária, incluindo forças militares, para a missão da força multinacional. Ora, em meu entender, esta força, neste quadro nunca foi constituída. Não são as Nações Unidas que organizaram nem têm o comando, nem nos pediram coisa nenhuma, são os americanos com a arrogância e sem qualquer mandato da ONU.
Os nossos homens estão lá de forma ilegal, não são significativos pelo seu reduzido número e falta de armamento adequado, e colocaram Portugal numa situação que não nos ilustra antes nos arrisca.

Publicado por João Norte em 12:20 PM | Comentários (6)

Ainda os Submarinos

O Dr. Paulo Portas com a seu palavreado fácil, (falar é sempre fácil pagar é que é difícil) vem justificar a compra dos submarinos dizendo que Portugal é soberano e tem o direito de defender as suas águas. Isto são daquelas verdades de que ninguém duvida e ninguém põe em causa. Mas este discurso serve apenas para desviar atenções e para satisfazer quem não pensa. Há quem entenda que Portugal não necessitaria de forças armadas. Eu não defendo isso, muito embora não goste de armas e muito menos de guerra. Porém sempre fomos uma nação que se afirmou no mundo e, já agora, devemos continuar a afirmar a nossa independência, apesar de esse conceito no ceio da União Europeia ser cada vez menos válido. Mas adiante.
O que eu não concordo, como muitos não concordam é na escolha dos submarinos como arma dos tempos actuais. O submarino é um navio muito caro, pesado e de baixa velocidade. A vigilância das nossas águas necessita de meios rápidos e tecnologicamente avançados. Precisamos de lanchas rápidas, aviões de controlo, radares etc. Penso ser nesse sentido que iam as opiniões da própria NATO. O dinheiro utilizado nos submarinos é completamente inútil. Talvez sirva para ocupar meia dúzia de oficiais ociosos e para dar enorme despesa de manutenção. O Dr. Paulo Portas não passa de um nacionalista barato e medieval. Talvez muitos se tenham esquecido, eu não esqueci, da sua verborreia contra a entrada na União Europeia e contra o Euro evocando a perda da nossa soberania, dos nossos símbolos etc, etc.
Outra falácia com que nos querem tapar os olhos são as contrapartidas. Tal como nos vêm dizer até parece que os construtores nos oferecem os submarinos e ainda mais não sei quantas coisas. As contrapartidas existiriam da mesma maneira se Portugal encomendasse fragatas ou outro navios que seriam muito mais úteis.
Enganam o povo, não todos, nem durante todo o tempo. Alguns estão acordados, outros mais irão acordando. Assim espero.

Publicado por João Norte em 11:38 AM | Comentários (1)

abril 22, 2004

O Medo e a Esperança

O medo é irmão da esperança. Isto que eu acabei de dizer, porque ao dizê-lo acabei por pensá-lo, parece um absurdo. Será?!... O pensamento, às vezes, é um vento que sopra desordenado, sem nexo nem lógica e nós compreendemos que, aquilo que acabámos de pensar não tem lógica. Mas, para compreendermos o que pensámos, é necessários organizar o pensamento logicamente, analisando o que pensámos. O medo assusta-nos, por vezes tolhe-nos os movimentos, prende-nos ao chão, retira-nos as forças, bloqueia-nos os movimentos, retira-nos as capacidades. Outras vezes dá-nos forças que desconhecíamos, impulsiona-nos, empurra-nos, imprime-nos velocidades, aclara-nos os pensamentos. Catapulta-nos.

A esperança, essa não tem nada de negativo. Sendo que negativo aqui é considerado aquilo que nos tolhe. A esperança é sempre alegre. A esperança canta e dança na nossa cabeça, pula e brinca na nossa frente, chama-nos, abre-nos caminhos, constrói-nos castelos, cria-nos ilusões, dá-nos novas forças, traça-nos projectos.

Então, o que eu pensei não faz sentido!... Mas eu pensei-o . Se não faz sentido porque é que eu o pensei?

Quando é que sentimos medo? Quando ainda temos esperança. Medo e esperança convivem no mesmo espaço e no mesmo tempo pessoal. Temos medo quando temos alguma coisa a perder: O Amor; os que amamos, a saúde , a segurança, o emprego, os bens; a Vida. Algo que queremos conservar. O medo é, assim, o sentimento da perda possível. É a posse ou a perspectiva da perda dessa posse que nos provoca medo. Quem não tem nada a perder não tem medo. Mesmo os condenados à morte continuam a ter medo enquanto têm vida. Por isso se diz “ enquanto há vida há esperança”
Teremos de perder o medo?... Não!
Só há medo enquanto há esperança. Por isso, ultrapassemos o medo, agarremos a esperança.

Publicado por João Norte em 10:15 PM | Comentários (3)

Com Palavras se faz a Poesia


A poesia ocorre-me com o sonho. Meio a dormir meio acordado, naquele estádio sem ser estado, o sonho já sonhado se separa e foge. As palavras correm, vêm e voltam, porque a noite que as trouxe se vai afastando, e o dia que as leva vai chegando. Não há ainda realidade. Não há verdade. Há sombras e imagens, há sonho inacabado. O dia traz o real e, no real, não há sonho. O real penetra nos sentidos, afasta o sonho, abafa a poesia. O real magoa. E, se fechamos os olhos, ficam os sons e os ruídos que ferem os ouvidos. O real permanece dentro de nós, impõe-se sem perguntar se o queremos suportar.
De manhã, antes do dia chegar, havia poesia. Eu não escrevi a poesia, deixei fugir as palavras que havia no poema. Quanta poesia ficou por escrever? Quanta poesia ficou por fixar. Então eu chamei as palavras, uma a uma, por vezes, só uma sílaba, uma frase solta, desordenada. As palavras que eu queria fixar na poesia. Coloquei as palavras, cada uma no seu lugar. O verbo, o adjectivo. Organizei o sentido, compus o texto. E o texto foi crescendo, foi falando, foi dizendo o que eu sentia e nasceu a poesia. Por vezes correndo à minha frente impondo-se na minha mente. Apenas me pedindo a caneta e o papel. A poesia organizando-se dentro de mim.Com rimas ou sem rimas. Apenas texto, apenas ideias, sentimentos, dores, amores e sofrimentos. Passado, memória, às vezes sem glória. Palavras tristes, sem cor, falando de mim, falando do que amei e do que sofri. Outras coloridas como flores plantadas num jardim. Canteiros de palavras geométricas. Palavras tétricas, falando de morte. Palavras sem norte, desvairadas, desorientadas. Palavras ácidas, que ferem, que não se querem , palavras agressoras que magoam. Palavras inimigas, ofensivas, carnais, intestinas, cretinas, rudes, brutais. Palavras sem importância, de circunstância, banais. Palavras finas, delicadas, preparadas, doces enfeitadas, cativantes, aliciantes, encantadas. Palavras perdidas, sofridas sem rancor. Palavras de AMOR.

Publicado por João Norte em 03:09 PM | Comentários (3)

abril 21, 2004

VAI DE FÉRIAS

Se o mundo te pesa, vai de férias.
Vai nem que seja ao fim do mundo,
Onde a terra acaba e o mar começa.
Vai onde ninguém te conheça.
Ali entre o azul do mar
E o verde da serra,
Sente a calma que te espera.
Esquece a vida!
Esquece quem és.
Não digas o teu nome,
Quem quiser que o adivinhe
E se ninguém adivinhar melhor.
Foge donde todos te conhecem
Onde até os objectos sabem o teu nome
Onde cada hora te consome
E as coisas gritam por ti.
Vai!
Esquece o trabalho e o ordenado,
Esquece a curva regular do tempo,
A vertigem das ruas e das praças
Esquece as notícias e as desgraças,
Deste mundo imundo do poder,
Esquece a política.
Esquece os ódios e vinganças.
Esquece o ministro das Finanças.
As perfídias mentiras
O cansaço da miséria
Esquece tudo isto.
Esquece, sobretudo, o teu PRIMEIRO MINISTRO.

João Norte
Abril de 2004

Publicado por João Norte em 05:42 PM | Comentários (2)

Uma correcção ao texto anterior.
Onde disse " oito milhões queria dizer oitocentos milhões"

Publicado por João Norte em 02:15 PM | Comentários (0)

Escrever com Raiva

Hoje escrevo com raiva e por raiva. Acordei naqueles dias em que não apetecia fazer nada. Ainda por cima o tempo não ajuda , a chuva voltou. A chuva põe-me triste. Mas a minha maior tristeza, a minha raiva veio-me das notícias. Do Iraque continuam os acontecimentos que, infelizmente, eu previa. As mortes às centenas, a confusão total. Não vou aqui fazer mais comentários a isso. Ontem deitei-me com o sabor amargo e o ruído de mais escândalos no mundo do futebol. Mais suborno, mais falcatrua, no fundo, mais roubo do pobre povo que, de boa fé, vai pagando para que alguns “espertos” se vão enchendo. Como se isso não fosse o bastante para irritar qualquer cidadão contribuinte e funcionário, chegou-me a notícia que o governo tinha assinado a compra de dois submarinos que vão custar oito milhões. Nunca ninguém me convenceu da necessidade e da utilidade de submarinos para as nossas forças armadas. Considero uma arma completamente obsoleta sem qualquer utilidade. Sempre tentaram convencer-me evocando o facto de fazermos parte da NATO e como tal precisarmos de estar equipados para as missões no quadro da NATO. Agora é a própria NATO que vem dizer que se trata de um desperdício. Afinal eu tinha razão. É a única mas triste consolação que me resta.
Num país com uma crise económica em que se pedem ao povo sacrifícios quase insuportáveis, onde a Educação é uma desgraça, a Saúde uma miséria, o desemprego uma avalanche, onde mais de 200.000 pessoas passam fome e muitas outras vivem com um pão e copo de leite, onde os ordenados são os mais baixos da Europa, onde os défices crescem na vertical, onde não há aumentos para os trabalhadores e funcionários, estas notícias só podem causar raiva.
Até quando este povo irá continuar a aturar ( e pior votar) estes governantes?! Não custa nada aos governantes fazer compras inúteis se é o pobre povo que as paga. Já me parece que, afinal, não houve Revolução ou estamos a precisar de outra.

Publicado por João Norte em 11:13 AM | Comentários (3)

abril 20, 2004

Perdeu-se A Poesia

Perdi o gosto de cantar.
Não sei se é do tempo
Do que vivo ou do que vivi
Se é da saudade que tenho de ti.
Porque deixaste de amar.
Não sei cantar o amor adolescente
Aquele que parece durar sempre
E não dura.
Porque o tempo da fotografia
Daquela que permanece na moldura,
Aquele tempo mudou.
Mudou-se a paisagem
Mudaram os sons,
Esquecemos a mensagem,
Perderam-se os dons.
Perdeu-se o colorido da tua infância
Do azul dos teus olhos
Perdeu-se a alegria,
Perdeu-se, daquele dia, a claridade
Perdeu-se aquela Liberdade.
Perdeu-se a poesia.

João Norte
13-04-04

Publicado por João Norte em 04:41 PM | Comentários (3)

abril 19, 2004

Revolução ou Evolução

Acabaram-se as férias. Como sempre foram curtas. Antes de mais, quero agradecer a todos que aqui me deixaram os seus votos de boas férias. Espero que elas tenham sido de bom descanso para todos.

Durante as férias desliguei, ou quase, das notícias e especialmente da política portuguesa. Férias são férias e o seu objectivo é o descanso e a quebra da rotina diária. Retomado o vício das notícias, entre muitas palavras, a brutalidade das imagens da televisão sempre igual na sua ânsia de ver quem mais choca mais vende, deparei-me, pela mão da Ana Sá Lopes, de quem me orgulho ter sido professor, com uma coisa de veras interessante:- a discussão sobre as comemorações do 25 de Abril, que uns querem que seja Revolução outros Evolução.
Pensava eu que este país era povoado por um menor número de idiotas. Enganei-me!...Como me enganarei sobre muitas coisas. Em 25 de Abril de 1974 eu era um jovem estudante. Ingénuo mas não tanto que não estivesse atento ao que se passava. Deu para compreender que a chamada “primavera” marcelista não passava de uma hipocrisia, que só alterava o nome das coisas, para que tudo continuasse na mesma. A guerra nas colónias continuava com as mesmas esfarrapadas justificações, a censura a tudo que era comunicação, jornais teatro, cinema continuava e, para não dar mais exemplos, direi apenas que nunca antes a PIDE tinha invadido as Universidades com a brutalidade e o desrespeito pela liberdade de estudantes e professores como nessa ocasião.
Não havia nenhuma intenção no governo de Marcelo Caetano de acabar com a guerra, descolonizar, acabar com a censura ,permitir a liberdade de expressão e movimentação dos cidadãos portugueses, permitir o estabelecimento de partidos ou a realização de eleições livres. O país estava mergulhado no total descrédito internacional. As eleições em 69 foram uma vergonha.
Querer separar A liberdade, o fim da guerra, a descolonização ou mesmo a evolução económica da Revolução de Abril é como querer separar a Luz os objectos e as sombras. Mesmo para aqueles que não viveram antes do 25 de Abril, só os que não pensam acreditam que Portugal pudesse ter evoluído sem a revolução de Abril. Nenhum país tinha entrado tanto por um beco sem saída. Nem sequer se trata de Esquerda ou Direita. É claro que houve exageros! Nenhuma revolução foi isenta deles.
O que mais “chateia” é ver o primeiro ministro, ainda por cima com um passado revolucionário, embora agora se queira livrar dele por compadrio político ou submissão ao PP e à sua ideologia de direita saudosista, alinhar nesta idiotice.

Publicado por João Norte em 06:30 PM | Comentários (3)

abril 06, 2004

BOA PÁSCOA

Este bloguista vai de férias.
Só voltará depois do dia 20

Aos colaboradores/as, aos meus leitores e a todos os bloguistas desejo uma muito boa Páscoa.

Publicado por João Norte em 09:42 PM | Comentários (7)

O Ninho das Vespas

As vespas começaram a mostrar os seu ferrões.
Esta imagem de “um ninho de vespas” referindo-se ao Iraque, foi utilizada por mim quando critiquei a ida dos nossos soldados da GNR para o Iraque e foi também utilizada por comentadores muito mais abalizados do que eu. Mas só que tem conhecimento de um ninho de vespas na realidade, pode ter entendido toda a sua extensão.
Talvez agora, esta imagem comece a ser ,mais clara para todas as pessoas incluindo o nosso governo que, de certo não conhecia.
Vamos aos factos, infelizmente muito mais perigosos do que o ninho das vespas. Ao americanos foram para o Iraque convencidos que após a queda de Sadam teriam o apoio dos Xiitas que, durante a ditadura tinha sido oprimidos. Fizeram mal a análise tanto do pensamento e sentir daquele povo como das fracturas e rivalidades entre eles. Os Xiitas são de todos os povos muçulmanos os mais agarrados à religião. São muito poucos, só os mais moderados e ocidentalizados, que aceitariam um governo separado da “República Islâmica” a maioria defende apenas este tipo de governo. Parece que os americanos não aprenderam nada com o Irão. Está, agora a vir à superfície a parte mais radical com o seu culto da guerra e da morte. Foi relativamente fácil entrar com um exército altamente especializado, actuando do ar e silenciar um exército de velhas armas. Agora a coisa é diferente. São milhares de homens armados, de arma na mão. Não é possível, nem teórica nem praticamente, atirar-lhe com “ Napal” para cima. è preciso controlá-los no terreno e o terreno é deles.
Mas o Iraque é uma coisa muito mais complicada. Não é fácil num texto pequeno fazer a análise de todos os seus aspectos. Tentemos visualizar o mapa. Os Xiitas dominam o Sul e parte de Bagdade. È neste território que se situa um dos grandes campos petrolíferos do Iraque. Parte de Bagdade é dominada pela seita mais radical dirigida por Moqtada Sard. Esta zona é um espinho cravado a sul nos moderados e a norte no território Sunita que apoiou a ditadura e onde se encontram as antigas tropas de Sadam. Por sua vez o chamado “ triângulo sunita” vem fazer fronteira com o território Curdo onde se encontra o segundo centro petrolífero Kirkuk.
Os Xiitas, porque são maioria e porque foram oprimidos pelos sunitas não deixarão de reclamar para si o governo. Já vimos que não se entendem. A revolta da facção Sard dará aos Sunitas mais razão para voltar à guerra, os Curdos não aceitarão o domínio nem dos Xiitas nem dos Sunitas.
Vale a pena ainda reparar que a Turquia, a Síria e a Jordânia não estarão interessados num domínio Xiita pela ligação destes ao Irão.
No meu modesto entender, estão iniciadas as primeiras manifestações da guerra civil. E o que podem fazer os americanos? Abandonar? Expondo-se à crítica e ao ridículo do mundo?! Reforçar o número de efectivos? Não sei.
Por mim, se fosse religioso, rezaria a todos os deuses para que não tivesse razão nesta simples análise.

Publicado por João Norte em 05:57 PM | Comentários (4)

Eu Preciso Ver O Mar

Eu preciso de ver o mar.
Preciso viver o mar.
Todos os mares.
O mar calmo,
O mar encapelado,
O mar Pacífico,
O mar irado,
O mar chão
O mar cão,
O mar solto,
O mar revolto,
O mar plano,
O mar Oceano,
O mar Índico,
O mar Atlântico,
O mar dos deuses,
O mar dos homens.
O mar de todos os nomes
O mar da palha,
O mar dos sargaços,
O mar Arábico,
O mar Árctico,
O mar Antárctico,
O mar Adriático,
O mar Cáspio,
O mar da China
O mar Asiático,
O mar Morto,
O mar Vermelho,
O mar Negro,
O mar Egeu,
O mar que é teu,
O mar que não vejo,
O mar que vejo daqui
E o mar azul dos teus em que me perdi.

João Norte

Publicado por João Norte em 05:17 PM | Comentários (1)

abril 05, 2004

As Palavras que Escrevi.

Todas as palavras que eu disse deixaram de se minhas.
Espalhei-as, lancei-as ao vento,
E o vento levou-as tão longe que não mais as alcancei.
Tomaram pernas e fugiram,
Tomaram asas e voaram,
Para lá dos montes
Para lá do horizonte.
As palavras eram tudo o que me restava.
As palavras eram as minhas armas.
As palavras eram o meu património.
As palavras eram a minha memória.
As palavras eram o meu passado.
As palavras eram tudo o que eu tinha.
As palavras eram eu próprio.
E, agora, as minhas palavras são de quem as leu,
De quem as ouviu,
De quem as utiliza novamente.
Anda na boca dos outros,
E na minha boca ficou a ausências
Das palavras.
Na minha boca restam apenas as tuas palavras.
As tuas palavras ditas com paixão.
Resta a tua palavra - Amor.
Essa mora no meu coração.

João Norte

Publicado por João Norte em 06:00 PM | Comentários (5)

abril 04, 2004

Regionalização ou talvez Não


O referendo recusou a regionalização. Porém, será bom lembrar como decorreu a campanha. E a sua análise mostra-nos duas coisas.
Os partidos mudam de opinião logo que os seus interesses, isto é, a sua ânsia do poder, se encontra satisfeita.
O povo, essa entidade tão indefinida, deixa-se facilmente manipular pelos demagogos.
Lembremo-nos de como a direita, mais concretamente o CDS manipulou a opinião dos eleitores. Todos nos lembramos de ver em todos os cruzamentos das nossas estradas, nas ruas das nossas cidades e vilas, o nosso mapa em cartazes rasgado aos bocadinhos. A nossa bandeira cortada em bocadinhos. A demagogia da união do país contra aquilo que chamavam a perda da identidade nacional.
Agora o CDS está no governo e, nem uma palavra contra a divisão do país não em quatro ou cinco regiões, mas, agora sim, em bocadinhos ao sabor dos arranjos municipais ou da cor política dos autarcas.
Não vou analisar sob o ponto de vista económico/funcional se esta partilha, não lhe chamo regionalização, é melhor ou pior do que aquela que foi referendada. Não tenho bases nem conhecimentos de ordem económica. Penso ainda que nenhum estudo sério foi feito nesse sentido. Tento analisar o comportamento dos políticos e do povo. Agora não há referendo nem ninguém pergunta aos munícipes se querem juntar-se aos concelhos a norte, a sul, a este ou a oeste. Decidem os presidentes de câmara como donos do território, e pronto. O povo não é para aqui chamado.
Parece, segundo o que tem vindo a público, que a própria lei nem sequer ainda definiu as competências administrativas desses agrupamentos ( os agrupamentos urbanos).
Estas indefinições, este “faz como puderes) ou entendam-se uns com os outros tem dado azo a peripécias muito engraçadas.
Vou falar apenas de uma que conheço. O Agrupamento Urbano do Oeste, e O agrupamento Urbano de Leiria.
Parece que a lei nem permitia a nomeação de Agrupamento Urbano de Leiria. Mas o caso caricato que mostra como estas coisas estão a ser feitas é o caso da Nazaré. A Nazaré só tem fronteira com o mar e com o concelho de Alcobaça. Está rodeada por Alcobaça. Segundo a lei, um dos princípios de agrupamento é a continuidade. Lógico! Não se vê como um concelho do Algarve pode fazer agrupamento comum do Minho.
Mas os compadrios políticos têm voltas que nem lembra ao diabo. Nesta região o concelho de Alcobaça situa-se numa posição que tanto podia juntar-se a Leiria como os concelhos do sul, ditos do Oeste. Segundo conta, o Presidente da Câmara de Alcobaça foi o único que encomendou um estudo económico a um professor de economia que se pronunciou a favor da sua junção aos municípios do Oeste. Isto obrigaria a Nazaré a ficar no mesmo agrupamento. Mas o presidente da Nazaré devia ter já empenhado a sua fidelidade a Leiria. Agora, os políticos estudam a ridícula possibilidade de a continuidade exigida ser pelo mar, embora nem pelo mar ela exista, isto é, existe tanta como existe entre o Algarve e o Minho.
Assim vai a nossa política.

Publicado por João Norte em 06:39 PM | Comentários (3)

abril 03, 2004

Poema de Abril

Procuro-te

Procuro-te nas sombras da noite,
Que me perseguem.
Procuro-te nas mãos que me estendem,
Me afastam e me repelem.
Procuro-te na frescura das plantas,
Na robustez das árvores,
No perfume das flores.
Procuro-te na inteligência dos homens
Que me entendem.
Procuro-te na beleza da Mulher,
No sorriso da juventude,
Na inocência das crianças.
Procuro-te nas tristezas e nas folganças.
Procuro-te na melodia da música.
Procuro-te na tela dos artistas.
Procuro-te no ar que se respira,
No horizonte que se avista.
Procuro-te no bulício da cidade,
Mo silêncio dos bosques,
No eco da montanha,
No encanto do jardim.
Procuro-te perto e longe de mim.
Procuro-te no Amor,
Na Solidão,
Na Amizade.
Procuro-te na Escola,
No Liceu,
Na Faculdade.
Em lado algum te encontro.
LIBERDADE!

........../.........
João Norte

Publicado por João Norte em 04:16 PM | Comentários (4)

abril 02, 2004

A Morte de quem se Amou

Dentro da urna parecia dormir serenamente. Ali estava imóvel. Pareceu-me mais bela do que nunca.(...) Pousei-lhe um beijo na testa gelada e com um gesto de desalento, coloquei a seus pés, as flores que tinha comprado ainda com tanta esperança.
Fechei os olhos e vi pontos de luz. Pequenos pontos que nos habitam quando fechamos os olhos. Pontos de luz que se aproximam e se afastam na escuridão cada vez mais negra, cada vez mais absoluta. Eu avançava naquela escuridão. Eu avançava na escuridão dela. Aquela mulher que eu amava, aquela mulher partira de dentro de mim, do lugar onde tinha estado durante muito tempo. E, nesse lugar tinha deixado um buraco negro que devorava, uma dor, um frio, uma escuridão. Agora, que eu sentia essa dor, que só via essa escuridão, nessa dor eu ouvia as palavras dela, as nossas palavras, ditas em momentos de amor. Agora fazíamos ambos parte de um infinito na escuridão. E, nesse infinito, era real cada um de nós. E as nossas palavras perdiam-se no vazio dessa escuridão.
Ouvi as palavras dela, as palavras de nós, que tinham sido ditas em momentos de amor, e senti culpa. Culpa e medo. Culpa porque fugira dela, fugira de mim, fugira do amor. O único que tivera. Medo das suas palavras doces e meigas que ressoavam na minha memória e me culpavam da sua perda, da perda do amor dela. Medo do castigo, da esperança que corria na minha frente sem se deixar alcançar. O espaço do medo infinito. O espaço da culpa era grande. Só a escuridão continuava, espessa e impenetrável.
Quis dizer-lhe tantas coisas que ficaram por dizer. Quis dizer-lhe que era mentira, que não estava ali no silêncio daquela sala de morte. Quis dizer-lhe que queria dançar com ela aquela música suave e alegre no clube da vida. Para toda a vida. Quis dizer que não haveria mais música sem a sua presença. Quis dizer-lhe que o gerente tinha fechado o clube.
Quis dizer-lhe a dor que sentia dentro de mim, que a sua imagem caminhava dentro de mim. O silêncio daquele lugar onde dormia o sono da morte caminhava dentro de mim. Tudo o que tinha estado antes daquele lugar avançava dentro de mim. A luz as sombras, os sons e os silêncios avançavam dentro de mim como facas cortantes. Quis dizer que errei, que fracassei. Quis dizer-lhe que também estava morto.
Recostei a cabeça e quis descansar da exaustão. Eu via uma estrada negra por onde ela caminhava e eu caminhava também nessa estrada negra. A sua beleza afastava-se. Devagar, muito devagar, para longe, para muito longe, até desaparecer sem lhe poder tocar.

Trecho de um romance meu em preparação.

Publicado por João Norte em 01:54 PM | Comentários (3)

abril 01, 2004

Coisas sérias a 1 de Abril

1de Abril de 1748
Parte par a Índia uma armada de 5 navios em missão de soberania.

1 de Abril de 1751
Publicado o regimento que regula a estracção de tabacos e açúcar no Brasil

1 de Abril de 1799
Criação dos Correios em todas as cidades e vilas de portugal

1 de Abril de 1939
As trpas fascistas de Franco apoiadas por Hitler, Mussolini e Salazar vencem definitivamente os republicanos espanhóis.

1 de Abril de 1981 O governoapresenta uma proposta de lei para dispensar do serviço militar os objectores de consciência.

1 de Abril de1986 é abolido o papel selado nos documentos oficiais.

Publicado por João Norte em 06:25 PM | Comentários (0)

SOLIDÃO

Passei por ti na rua. Fingiste não me ver. O teu olhar seguiu as pedras da calçada como se só elas, no seu silêncio te merecessem atenção, te atraíssem, te prendessem. Deixei-te seguir o teu caminho, silenciosa, cabisbaixa, acabrunhada, virada par dentro de ti mesma, como se o mundo ao teu redor não existisse, não te interessasse, nada tivesse para te dizer. Como se apenas tu existisses na imensidão deste cosmo em que rodamos sem poder contrariar a sua velocidade e sua direcção. Não quis falar contigo naquele momento, porque sei que há momentos que precisamos estar sós para nos encontrarmos, para fazer as pazes com os nossos sentimentos que vida perturba. Amamos, odiamos, sofremos e sentimos a nossa pequenez e nossa incapacidade de fazer com que o mundo se volte e siga o rumo que nós queríamos que ele seguisse. Não conseguimos que a nossa vontade comande o mundo. Queríamos que os outros seguissem o nosso caminho, viessem ao encontro dos nossos desejos, das nossas necessidades. Eles não vêm. Aquele que amamos ignora-nos. É cruel este mundo. Mas é assim. Esse outro que nós amamos é um ser igual a nós. Também ele não consegue mudar o mundo. Também ele ama e, talvez também não seja amado como gostaria e como tinha direito. Todos temos direito à satisfação dos nossos desejos, dos nossos sentidos, ao gozo e usufruto da beleza, da arte da música, da poesia, ao amor.
E o que fizeste tu para mudar este teu estado de sofrimento? Pensaste que não és a única?! Que também aqueles que passam por ti, mesmo aqueles que parecem ser felizes, também podem não o ser? O que fizeste para sair da tua solidão? O que fizeste para reparar, para minimizar a solidão dos outros? Ofereceste um sorriso ao teu vizinho? Telefonaste aquela tua amiga que já não vês há muito tempo? Convidaste os teus amigos, as tuas amigas para um chá, um café em tua casa ou na pastelaria onde passaram bons momentos? Lembraste-te de oferecer uma flor a quem está perto de ti.
Não!... não te lembraste disso. A tua solidão voltou os teus sentidos para dentro de ti.
Eu não quis dizer-te nada naquele momento. Digo-te agora. Os outros podem fazer alguma coisa por ti. Mas és tu....só tu... que podes fazer todo o bem por ti própria.
Sai de ti.... volta-te para o mundo, para os outros, sorri, fala, comunica, oferece, dá de ti tanto que tens para dar, e encontrarás o teu caminho, o remédio para a tua solidão.
Eu estou à tua espera do teu amor.

Publicado por João Norte em 11:39 AM | Comentários (4)