Começou a campanha para as eleições europeias.
Com um pouco mais de empenho por parte dos partidos do que as anteriores que, por vezes ninguém dava por elas.
Apesar disso, estas também não me parece que tenham começado da melhor maneira.
No PS parece faltar folgo. Ferro Rodrigues, homem que goza da fama de ser honesto, coisa que falta a muitos do PSD, ainda não conseguiu encontrar um discurso dinâmico, apelativo. Sousa Franco tem o mesmo tipo. Resta àqueles que querem votar PS pensar na honestidade destes dois homens e esquecer os floreados do discurso.
O PC faz o mesmo discurso de sempre.
O BE foi infeliz com a imagem de “quem mais bate” já aproveitada demagogicamente pela direita.
Na coligação da direita é uma desgraça. É insuportável a arrogância e o descaramento com que mentem confiantes na curta memória do povo.
Da desfaçatez e falta de educação do Paulo Portas nem já é necessário falar. Continua a comportar-se como um garoto que não sabe respeitar ninguém.
Ontem foi a Leonor Beleza que afinou pelo mesmo diapasão. “ votar no PS é um crime” berrava a senhora. Será que a palavra crime lhe está cravada no inconsciente pela morte dos hemofílicos? Se as pessoas tivessem memória o termo era-lhe fatal e a senhora devia estar mais calada.
Continuam a bater no défice.
Claro que poucos se lembram que os défices no tempo de Cavaco Silva eram de 6% e 7% , e ele assumiu já no tempo deste governo que o défice não devia paralisar a economia.
Mas o défice herdado pelo governo de Durão era de 4,2% e se não fossem as vendas antecipadas de impostos e de imobiliário, hoje seria muito maior estaria nos 5,3%
O João De Deus Pinheiro ao menos pula e dança.
No meio disto tudo talvez a aparente falta de garra do PS seja muito melhor do que o descaramento e a mentira dos outros
Ministério da Educação garante que o ano lectivo começará a tempo
E marca já a data, 15 de Setembro.
Ora bem, isto é mesmo de quem não sabe nada para quem não sabe como funcionam as Escolas. Nada custa marcar o início do ano lectivo. Mas com quem? Se o ano passado que não houve nada das broncas que tem havido este ano a colocação dos professores foi feita no início de Setembro, alguém acredita que, este ano, os professores sejam colocados antes da data marcada para o início das aulas?!
Para quem não sabe como as coisas funcionam, até parece fácil. As aulas começarão com os professores do quadro permanente das escolas.
Fácil não é?!
Cerca de 30% dos professores rodam de escola. Isto bastaria para que os alunos começassem com um terço dos professores a menos. Mas isto seria apenas um pormenor de pouca importância.
Acrescem muitas coisas que só quem está no Ensino conhece.
Os professores que concorreram vão iniciar o ano numa escola e depois vão para outra. Horários diferentes, turmas diferentes. Com que manuais? Isto seria problema dos professores para os quais o Ministro se “está nas tintas” passe a expressão.
O professor que numa escola trabalha num horário e organizou a sua vida familiar de acordo com esse horário, vai para outra escola, tem outro horário. E a família como fica? Para isto o ministro, (idem está-se nas tintas)
No início do ano, antes de se iniciarem as aulas os professores de cada ano, 7º, 8º, 9º etc, etc, planificam as aulas para o ano todo. Os textos, os objectivos, as estratégias a utilizar. Os conselhos de Turma (conjunto de professores de cada turma, para quem não sabe ) fazem também planificação em conjunto.
Se depois de estes planos feitos os professores mudam, como é, voltam a reunir, voltam a planificar? O professor que chega à escola depois do ano começar vai perguntar aos outros : - o que é que eu faço e como faço? E os que estão no quadro permanente estão dispostos a voltar a reunir, fora de horas, para planificar segunda vez? Ou não vai haver planificação nenhuma?
Claro que para a maioria do público, ser professor é apenas saber fazer “blablabla” na sala de aulas.
Será que os Sr. Ministro pensa o mesmo?
Será que assim vamos reduzir o insucesso?
A culpa será dos professores. Já estamos habituados!
Este título não é meu. É do Professor Santana Castilho, que transcrevo com a devida vénia ao autor.
Criticar este governo é já “bater no ceguinho”.
Todavia, o professor Santana Castilho fá-lo de maneira magistral num artigo de duas colunas no Público de hoje, Sábado, 29 de maio, 04, que vale a pena ler.
RAIVAAAAAA
Odeio-te!
Fazes a minha alma sangrar.
Fazes me não amar.
Quero sentir a tua boca junto do meu ouvido.
Ouvir-te gemer de desejo sem sentido.
O qual vou deixar insatisfeito.
Para poder transmitir.
A dor que criaste em mim.
Não tens pudor no teu amor,
Eu não tenho perdão para ti!
Vingas-te de mim!
Ao fazer nascer a chama,
Do amor pelo desejo.
Eu uno mundos de prazer e sentimentos!
Tu experimentas apenas aquilo que eu crio!
É isso que te faz viver!
Vejo-o no teu olhar desesperado pelo
Sentimento de possuir.
Olhar que me faz derreter.
Diluo-me em prazer.
Que nunca acaba por contentar,
A ansiedade da minha alma.
Odeio-te!
Quando te esvazias,
Enches-me da tua cobardia.
Que provem da tua insatisfação.
Os teus medos são os meus receios!
Odeio-te!
Porque me fazes ver ao espelho.
Odeio o teu desprendimento devido ao medo.
Fazes com que a minha alma escarneça
De fúria cheia de angustia.
Não tens coragem para me amares,
Para me acompanhares.
Escondes-te por trás do desejo imediato,
Perdes-te em mares de lençóis pérfidos.
De líquidos incompatíveis.
Sinto o que sentes!
Tenho o cordão que nos liga enrolado
A volta do meu pescoço.
Sinto o cheiro que libertas quando em êxtase.
Sinto o que anseias!
O que desejas,
Não te darei!
Juro que não o terás também!
Pela simples razão que te odeio.
Esse cordão que nos une,
Sufoca-me de tal modo.
Que sinto a vida a sair de mim.
Sinto a vaguear para que ela te possa atormentar.
És cruel no teu amar.
Roubas-me a felicidade!
Acrescentas-me saudade!
A qual é impossível de recrear e compensar.
Como te odeio e amo.
Sentimentos contraditórios que crias em mim
És o Deus que reina no meu inferno!
Por não compreender.
Por não conseguir romper,
O cordão que nos une.
Que faz de nós o mesmo.
Não o consigo cortar!
Não te posso mais amar!
Decido então odiar-te.
Publicado por Nadir em 12:55 AM | Comentários (0) | TrackBack (0)
maio 24, 2004
Os meus agradecimentos à autora por mais este belo poema
Odeio-te porque não me amas. Embora julgues o contrário. O contrário de tudo. Julgas que te amo só porque me deito contigo. És cega. Não distingues amor de desejo. Sim, eu desejo-te. Desejo-te porque te amei. Amei-te e criei em mim a ilusão que podia criar em ti o amor como se o amor se plantasse como quem planta legumes ou flores, as rega e as vê crescer. O amor não é uma planta, é um sentimento. Agora eu compreendo que em ti não há sequer sentimentos. O único sentimento que se podia dizer que possuis é da posse, mas isso não é um sentimento é um “ismo” uma força bruta que te arrasta e te faz arrastar os outros que queres possuir e chegas a confundir isso com amor. Também eu confundi. Confundi a realidade com os meus desejos. Eu queria amar-te e ser por ti amado. Queria sentir a tua presença mesmo na tua ausência. Queria que estivesses dentro de mim e que nada conseguisse expulsar-te. Que fizesses parte de todos os meus actos, de todas as minhas decisões, de todos os meus movimentos, como se fosse a tua inteligência a decidir com a minha numa só. Queria sentir o teu cheiro e o teu corpo em tudo o que tocasse, como se, na ponta dos meus dedos, estivesse sempre o veludo da tua pele.
Odeio-te pelo sangue das feridas que deixaste abertas e que eu lambo para te sentir. E não consigo expulsar-te porque enquanto as feridas sangram tu estás presente, sinto a dor como se te sentisse. Elas são o teu rasto, a tua obra, o sinal da tua presença, a tua modificação do meu sentir, do meu ser. Um ser que se acomodou à ilusão de te amar e se confunde como tu te confundiste. Odeio-te pela tua ausência, em cada recanto da casa, no frio dos lençóis, na mesa que não enfeitas. Odeio-te na pessoa da florista a quem já não compro flores, porque não há ninguém a quem as oferecer. Odeio-te na figura das outras que se parecem contigo. Odeio-te nos cigarros que fumo para matar o tempo infinito em que não existes, e não sei se são os cigarros que me vão matando se é a tua lembrança. Odeio o cheiro do perfume que te ofereci e que nunca desapareceu deste quarto onde os nossos corpos se abraçavam, se comprimiam, se misturavam, no tempo em que ambos julgávamos que o sexo era amor. Odeio lembrar-me de ti e não conseguir esquecer-te. Odeio esta necessidade do teu sexo esperando por mim.
Odeio-te porque talvez ainda te ame!
Perdi as palavras,
Giram em ciclos viciosos e rotineiros.
Sinto-me presa!
Fico enjoada só de pensar
No que deixo por descrever.
Mundos nascem a todo o momento
No meu pensamento.
Necessitam de se projectar na realidade,
Para se poderem expandir,
E alcançar o seu devir.
São bolhas que crio,
Elas são fertilizadas por Neptuno.
São ondas de prazer fantástico,
Que crescem sem um só minuto parar.
Então a minha mente transforma-se em útero.
É dele que a vida se projecta,
Mundos desconhecidos,
Embriões que nunca deixam de existir.
Eles apenas exigem criatividade.
Não posso parar de pensar,
Fico inebriada só de relembrar.
Sopro nesses universos paralelos,
Neles as regras mudam,
Alternando realidades mutáveis.
A sua realização apenas a mim foi entregue.
De noite quando adormeço,
Por elas navego.
Publicado por Nadir em 12:10 AM |
Unus Mundus
Os meus agradecimentos à autora.
Combinámos encontrar-nos ali. Na beira da estrada. Era uma manhã de Primavera daquelas em que o Sol nasces brilhante, mas o frio da noite ainda se faz sentir até a meio da manhã. Tudo tardavas. Eu esperei sentado na berma sobre um monte de brita. Brita partida à mão por homens de tronco nu, que durante doze horas, sentados ao sol, martelavam sem descanso as grandes pedras ali deixadas. Dois homens fardados e armados de espingarda montavam guarda aqueles outros cerçando-lhe as liberdades.
Sentado ali sentia-me suspenso sobre o vale como borboleta na brisa fresca da manhã, sustendo a minha ansiedade pela tua demora.
Eu só pensava em ti e via em todas as imagens que se aproximavam a tua figura. Mas tu não vinhas. As horas passavam. Eu brincava atirando pedrinhas que planavam no ar, sobre o vale como aves de rapina.
Olhava o firmamento cristalino e procurava a lua que nos tinha acompanhado no nosso primeiro beijo. A lua não estava lá. Ela muda. Muda de face e de posição. Uma constante mudança que me assustava. Serias tu como a lua?! Terias mudado?! Recordava as tuas palavras. Dentro das palavras procurava o sentido e a solidez dos teus pensamentos ditos à luz do luar. Procurava o som das palavras e só encontrava o silêncio, o peso do silêncio maior do que o peso das pedras da estrada de macadame que eu pisava. O silêncio doía. O tempo corria com a ausência do teu corpo, das tuas palavras, e eu já via o fim da tarde, o sol que desaparecia por trás do outeiro, e de ti nem o cheiro que eu guardava nas minhas narinas. Eu a sentir-me destruído com a ausência das tuas palavras. Eu que pensava que o amor não necessitava de palavras. Isso seria verdade se houvesse presença. Se o teu corpo estivesse ali. Se eu pudesse sentir-lhe o calor, tocar-lhe, percorrê-lo com os meus dedos ou com os meus lábios, as palavras seriam desnecessárias. Mas não havia nada. Esse nada tornou-se demasiado denso, demasiado pesado, o meu corpo foi vergando. A dor da tua ausência foi-se instalando. A luz do sol fugiu, os homens que partiam as pedras foram embora, os pássaros calaram-se, a lua voltou sozinha.
E eu fiquei com as lágrimas da primeira desilusão.
Estive o fim-de-semana com uma irritante infecção na vista que me impediu de ler jornais ou escrever. Restava-ma apenas ouvir.
Como não gosto de deixar passar as coisas importantes, fiquei a ouvir o congresso do PSD. Pensava que iria ouvir coisas interessantes. Todavia, no fim lembrou uma anedota que me contava um velho amigo que fora juiz em Angola.
Um ocasião dois africanos cometeram um crime (não interessa o quê)
Foram a julgamento. Aconteceu que nenhum deles falava português. Então foi contratado outro africano da mesma tribo que sabia português para servir de interprete.
No julgamento, o juiz mandou que os réus contassem a sua versão dos factos.
Depois de ouvir os três a falarem durante uma hora, perguntou ao interprete.
- Então o que é que eles disseram?
- Nada Patrão, só falaram.
Blogues com ou sem nome.
Já muitos escreveram, de certo melhor do que eu, sobre este assunto e também sobre os blogues admitirem ou não comentários.
São portanto, as minhas opiniões sobre estes dois casos próximos mas com algumas diferenças.
O universo dos blogues tem hoje uma dimensão que muitos de nós, bloguistas, não prevíamos quando iniciámos estas páginas.
Para muitos de nós elas eram e são apenas um divertimento, um passa tempo ou uma simples página pessoal onde se descarregam desabafos e emoções como quem escreve papéis e os arruma na gaveta.
Para outros, são um local onde, a coberto de um pseudónimo dão largas à sua imaginação poética, erótica ou literária. Coisas pessoais, sem intenções de análise, crítica ou intervenção político social. Para esses admite-se o anonimato, ainda que nada deva existir sem alguns limites apenas ditados pelo bom senso e tendo em conta que esta ”gaveta” não tem chave e o seu acesso é incontrolável. Do outro lado no espaço electrónico estão crianças e adolescentes cuja personalidade é ainda demasiado plástica, demasiado frágil para todas as leituras e observações.
Porem, quando o blogues é usado também como página de crítica ou opinião política as coisas são diferentes. Quem opina e critica deve assumir as suas opiniões e responsabilizar-se pelas suas críticas.
Pior e lamentáveis são os blogues anónimos ou os que, embora com nome, não admitem comentários.
A estes autores eu chamo pregadores . Não são jornalistas nem comentadores, nem criadores. São pregadores como os sacerdotes de qualquer religião ou seita, que do seu próprio púlpito pregam a sua dogmática doutrina sem admitirem discussão ou contra argumentação.
Alguns há que aos seus textos acrescentam os chamados “textos de leitores”. Presume-se que estes textos tenham sido enviados por e-mail permitindo-lhes uma selecção, publicar quem concorda, sonegar quem discorda.
Sem querer ofender, eu atrevo-me a dizer que há aqui uma dose de cobardia. Usa-se o blogue como o jornal do partido que se envia aos filiados. Só que no espaço electrónico não há endereços pré definidos, nem destinatários seleccionados.
Resta-me dizer que continuo a entender o blogue como espaço de liberdade individual. Mas mesmo este conceito, muito respeitável, não é ilimitado.
Bem aventurados os pobres de espírito.
Esta é uma frase atribuída a Cristo. Não sei se é dele ou não, mas sempre me fez confusão porque sendo Deus sabedoria absoluta, como podia fazer a apologia da idiotice.
Depois, muitos anos depois, outra figura polémica nos alerta. Erasmo na seu “Elogio da loucura”.
De facto, no país em que vivemos e na sociedade actual que nos rodeia, já não sei se, tanto Cristo como Erasmo não eram os únicos com razão.
Por cá, o governo ou desgoverno que temos continua, na sua arrogante maioria, a aprovar e a desaprovar que muito bem entende ou interessa aos seus confrades e que ninguém sensatamente aprovaria. Exp: a Lei de Bases da Educação. Privatiza tudo desde que haja interessados em comprar sem olhar minimamente aos interesses nacionais e muito menos do povo. Dizem-se e desdizem-se como peixeiras no mercado sem controlo nem orientação. Dão aos cidadãos os piores exemplos desde os gastos luxuosos em tempo de crise, nos “esquecimentos” ao fisco. O descontrolo no país é total. Ninguém se entende na Educação, nas Finanças, na justiça, na Saúde, na Economia.
Lá fora, no Iraque e no Médio Oriente a brutalidade e a insensatez assustam, espantam, horrorizam até os menos sensíveis.
E o mundo dos políticos, dos responsáveis, daqueles que em nome dos cidadãos, com o seu esforço, o seu sacrifício e o seu dinheiro, continua, impávido uns, impunes outros, coniventes alguns e alheios muitos.
Perante este triste panorama só os pobres de espírito e os loucos poderão ser felizes ou talvez menos infelizes.
Estou a ficar cansado.
Chego a casa, ligo o televisor.
Americanos no Iraque disparam do ar sobre um casamento - 40 mortos
Israel dispara sobre civis- 14 mortos, dezenas de feridos.
Vou tomar um comprimido para dormir.
A cidadania é um conceito quase desconhecido dos portugueses. Portugal passou da Monarquia, num pequeno salto atribulado da primeira República, para a ditadura. Não há em Portugal uma vivência duradoura de Democracia que, através da prática, tenha dado ao cidadão tempo e maneira de interiorizar a cidadania. Embora exista nos programas da Escola, a Educação para a Cidadania, é daqueles conceitos a que todos tem direito mas muito poucos sabem o que significa. Em Portugal nunca se passou da letra dos programas escolares, continuamos a não ter nas escolas aulas de educação para a cidadania. Os governos nunca tiveram a coragem de implantar essas aula. E não eram tão difícil como parece. Existem professores, especialmente das áreas da Filosofia, História e Sociologia muito capazes de dar essas aulas com qualidade. As Escolas conhecem os professores. Não seria difícil atribuir esses horários a pessoas ponderadas e habilitadas. Continuamos a ter nas escolas apenas a Educação Moral e Religiosa. Não tenho nada contra a Educação Moral e Religiosa. Todavia, esta é geralmente dada por pessoas pouco habilitadas, que mais não sabem do que o catecismo primário. Dou como exemplo a Escola a que pertenço. Das cinco professoras de Educação Moral apenas uma é licenciada em História, as outras nem o 12º ano têm.
Poucos portugueses sabem como é organizada a nossa sociedade. Por exemplo, se perguntarmos a um ministro se alguma vez pensou que são os cidadãos que lhe pagam o ordenado, nunca terá pensado nisso. Da mesma forma o cidadão também não sabe. Na sua maioria os portugueses confundem Estado com governo, e o governo confunde-se a si próprio com o Estado, e julga-se dono e senhor do país.
Há em Portugal uma confusão generalizada de direitos e deveres. O cidadão ou sabe que tem alguns direitos dos quais abusa e esquece ou procura fugir aos deveres, e os governantes esquecem os seus deveres ou nem sequer sabem que os têm.
A nossa falta de civismo e os nossos comportamentos terceiro mundistas vêm-nos desta falta de educação para a cidadania. O nosso quase desprezo pelos assuntos colectivos, a maledicência generalizada dos políticos, não são atitudes pensadas, opções políticas, são apenas comportamentos ignorantes de um povo habituado à ditadura. Da mesma forma os políticos, uma vez eleitos, comportam-se não como mandatários do povo que os elegeu e lhes paga para governarem no interesse do povo, mas como se o país fosse uma cotada para seu belo prazer e enriquecimento do seu bolso.
É isto a que estamos assistindo, no governo, nas escolas, no futebol, nas estradas, enfim neste país que cada vez mais se afasta dos comportamentos europeus.
Ora aí está a regionalização na saúde.
SA para sul
SA para norte
E quem ficar no meio pode morrer.
É assim no distrito de Leiria. O Hospital de Leiria, desde que foi transformado em SA, não recebe doentes de quatro concelhos do sul do distrito.
Lisboa também não, porque não lhe pertencem. O Hospital das Caldas da Rainha não tem as várias valências.
E os doentes andam de Judas para Pilatos. Já houve um doente que percorreu cinco hospitais, mais de 200 quilómetros de ambulância, e nenhum o recebeu.
Se fosse doença de morte era mais um caso.
Quem se responsabiliza? Ninguém!
Mas não temos um ministro da saúde? Ah ....Não!....
Era eu que ainda acreditava. Que ingénuo que sou.
Leva-me
Leva-me vento
na vontade de ser raiz aérea
vogando pelos desertos, e que
me pesem as areias matéria
e não haja águas e verdes,
ou frescura gélida.
Leva-me, pois a sede cerúlea
onde agora mergulho, já me afoga
e me transforma em salina vermelha
de sangue sol.
Lá, serei um grão - eu sei -,
cacto, gota seca de nada, torrão
aridez doce, escorpião sereia,
em traço visível sem rasto,
ou lenda.
Leva-me.
Serei oco ventre de ti,
Vento.
lu .”Lugar Efémero”
Os meus agradecimentos à autora
Solidão.
Esta carta é para ti. Não sei bem porque te escrevo. Podia antes falar-te, moras tão perto. Mas sei que moras em tantos lugares, em tantas cabeças, em tantos corações, em tantas personalidades. Sim!... tu não te alojas em qualquer lado nem em qualquer pessoa. Escolhes!...escolhes as mentes mais ricas, mais complexas, mais sensíveis, mais informadas. Eu sei!...Não te interessas pelos analfabetos, os brutos, os ignorantes. Esses não te ligam, têm o futebol, as revistas cor-de-rosa, a taberna para se distraírem, sem preceitos nem preconceitos.
Não te alojas nos corações rudes, duros, que não se preocupam com sentimentos, com o amor ou a falta dele, com a pobreza, com a guerra nem com as injustiças. Esses batem sempre ao mesmo compasso, não mudam de ritmo com as emoções porque com nada se emocionam. Não te implantas nas personalidades simples porque essas aceitam qualquer coisa sem exigência, não reclamam.
É verdade que não foste tu que pediste para te instalares, a culpa é deles, dos solitários. Deles e das circunstâncias. As circunstâncias mudam, mas os solitários têm dificuldade em mudar porque tu, quando te instalas, fechas o cerco, cada vez mais num aperto de anéis que vão tapando todas as saídas.
Ah pois ... os amigos!....os solitários fogem dos amigos porque tu és viciante, como o álcool, como o tabaco, como a droga. Os solitários amam a própria solidão?!... Não! Têm medo! Medo de romper o cerco, medo do primeiro passo, medo da aventura, meda da própria insegurança. O medo é a tua arma.
Por isso, aos solitários eu só posso dizer:
- Não tenhas medo!
Vejam o “Abrupto”
O José Pacheco Pereira perdeu a noção de bom senso.
Como é que um homem que criou uma imagem de pessoa inteligente faz uma figura destas?
Que lugar prometeram ao Pacheco Pereira?
Colocar aquela imagem no blogue é colocar-se ao nível de que a praticou.
Para se criticar e defender os nossos pontos de vista, ainda que sejam errados, não necessário descer a tanto.
Lamento!.... Sinceramente, lamento!
O Dia Seguinte
Acordo de um sono estremunhado,
Do sonho que vivi aqui contigo.
Procuro-te na cama a meu lado,
Porque julgo encontrar-te aqui comigo.
Porém, a cama está vazia,
Qual alcofa de bebé nua e fria.
Mostra que nada resta do amor,
Fora do coração e do sabor
Dos teus lábios, como vento de maresia.
Teu cheiro que perfuma o meu quarto,
Preenche o vazio da tua ausência.
Deixaste comigo a tua essência,
No todo deste amor de quanto é grato.
Assim fico alegremente, muito grato,
Gozando a saudade já de ti.
Recordo no presente, esse passado
Do amor que, contigo aqui vivi.
E espero que voltes breve para mim,
Pôr fim a esta enorme solidão.
Só a tua presença porá fim,
Ao gostoso sofrimento da paixão.
......../..........
João Norte
Tinha preparado um texto de crítica a Helena Matos, mas o "Barnadé" adiantou-se. recomendo a leitura.
Os tempos que vivemos são demasiado conturbados, demasiado mediatizados. Para lá do corre corre do ganha-pão, a nossa atenção é solicitada diariamente por assuntos que, pelo seu aspecto mais negativo é mais mediático. Vamo-nos entretendo com os escândalos da pedofilia, do futebol, as atrocidades do Iraque, os deslizes dos governantes. Tudo , sem dúvida, assuntos importantes.
Entretanto, outros assuntos, quiçá tão ou mais importantes mas que, por falta de hábito democrático, por falta de informação dada por quem devia e não faz, ficam esquecidos, não debatidos, e sem que lhes prestamos atenção vêm alterar as nossas vidas como factos consumados. Refiro-me, por exemplo, às eleições europeias.
Quantos de nós poderão dizer:- estou atento, estou elucidado, sei o que vou votar, porque vou votar e em quem vou votar. Se retirarmos a prática puramente clubista de votar no partido mais à esquerda ou mais à direita, naquele em que o amigo vota, naquele em que, disfarçadamente, o Sr, padre manda votar, a percentagem que fica será muito reduzida.
É interessante, a este respeito, um debate, isto é, um poste, no “Aduf”e os respectivos comentários. Nele, o Rui coloca uma dúvida pertinente. Face aos candidatos, poucos dos quais sem defeitos, ou com qualidades para defenderem os interesses do país e não os deles, e aos partidos concorrentes, em que partidos votar mais à esquerda ou mais à direita, voto nos grandes partidos ou nos pequenos, e até a abstenção, o voto nulo etc.
Não venho aqui defender a votação em nenhum dos partidos. Não sou candidato, não me deixo levar por outras cabeças que não a minha.
Todavia, há algo que me permite emitir opinião, a minha idade e a minha experiência.
Infelizmente, a nossa democracia é muito imperfeita. Mas não temos outra. Abstrairmo-nos dela é negar a nós próprios a participação num acto pelo qual lutámos durante cinquenta anos. A Abstenção não é, como alguns defendem, uma atitude, é a falta dela. É a negação do próprio acto de cidadania. Os votos brancos e nulos não têm qualquer significado porque o voto é secreto.
Resta-nos, para que exerçamos o nosso dever de cidadão, votar num dos partidos que se apresentam. E aqui é como na guerra, a boa estratégia é a que melhores resultados apresentará.
No meu primeiro texto neste blogue sobre o terrorismo que ainda pode ser lido, ou relido, fazia uma previsão bastante sombria deste novo século em comparação com o século anterior. Referia-me, claro, ao final do século anterior e ao início deste, pois não havendo futurologia não é possível prever o que vai ser daqui em diante.
Nesse texto chamei ao século passado “ o século da Democracia e a este o século da cobardia”, pensava eu que não haveria maior cobardia do que os ataques de terrorismo onde as mortes indiscriminadas de inocentes. Faltava-me ainda ver muita coisa. O ser humano é uma coisa tão complexa que é capaz de surpreender sempre o mais experiente e vivido. Faltava-me ver muitas brutalidades de vários quadrantes, e especialmente brutalidades de que são capazes indivíduos ditos democratas, enviados para libertar um povo de uma ditadura e livrarem a humanidade de uma ameaça de armas ditas de destruição em massa.
No colóquio de ontem, o general Garcia Leandro diz uma coisa tão importante que seriam bom que todos reflectíssemos nela.” O que está em causa são os valores da cultura ocidental” E acrescentou que “as torturas se inserem (......) num discurso ideológico muito violento” Este discurso, ainda segundo o general, faz-se sentir no cinema e no futebol.
Todos, os que estão atentos, sabemos que assim é.
Importa, porém, sabermos o que são esses tão apregoados Valores da Sociedade Ocidental. Estes valores que deveriam ser escrupulosamente respeitados não nos vêm, como muita gente pensa, só do Cristianismo, nem da Democracia Ateniense, mas essencialmente da Revolução Francesa ( essa a quem ainda nenhum idiota quis retirar o R). LIBERDADE IGUALDADE e FRATERNIDADE. São estes os grandes valores da sociedade ocidental, e são estes que, tão estupidamente, são postos em causa por quem se propõe defendê-los.
José Pacheco Pereira vem hoje no Abrupto com dois textos verdadeiros que não merecem dúvidas de ninguém. Um lembrando os locais onde há insegurança para os jornalistas. O mesmo será dizer que há falta de liberdade. Para depois dizer que em alguns deles não estão os americanos. É outra verdade.
Num segundo texto fala-nos de dois casos. Um livro sobre uma comissão de averiguação à violência de exercida em presos sob responsabilidade militar após o 25 de Abril e nas FP-25.
Estes textos podem ter sido postos hoje por mero acaso.( não há verdades absolutas) mas eu duvido.
Se nos quer dizer que a falta de segurança e de democracia também existe em locais onde os americanos não estão? Muito obrigado! Já sabíamos. Agora se quer com isso justificar os actos dos americanos é melhor repensar. Porque o facto de haver mais ladrões não me legitimam a roubar. O que é mais reprovável nos americanos é que se apresentam como democratas que vão salvar o mundo e comportam-se pior do que os outros.
No caso do pós 25 de Abril, todos também sabemos que houve alguns excessos de ambas as partes(esquerda e direita) mas esses pequenos excessos foram tão poucos que qualquer pessoa de bom senso e que seja capaz de pensar o que pode provocar uma revolução se admira da pequenez. É por ter havido tão poucos “incidentes” que permaneceu, felizmente, a imagem dos cravos.
Fico, portanto, agradecido ao Pacheco Pereira por me ter lembrado aqueles factos. Mas fico muito mais convencido que a sua divulgação não é ocasional e isso fica-lhe mal.
Hoje não me apetece escrever. A culpa é do espelho!
Escrevo mesmo só para dizer aos leitores deste modesto blogue que estou vivo e, felizmente, de saúde.
O Grande problema é um espelho que tenho na casa de banho. Eu ainda tento não olhar para lá. Mas tenho de fazer a barba e, sem olhar para o espelho, não consigo.
Eu explico já para não roubar tempo e paciência a quem ainda a tiver para ler isto. E paciência é uma coisa estimável e que se perde. Eu perdia a minha. Depois de ler o nosso “CATILINA” José Pacheco Pereira, numa página de prosa rebuscada pela sua enorme capacidade oratória, para justificar as atrocidades (coisas da guerra diz Pacheco) que o sr W. Bush e os seus rapazes andam a fazer em nome do Bem por aquelas terras do Mal, só me faltava ver o Durão Barroso aclamar “O Grande Patriota” Alberto João Jardim, que quando se lhe acabar a mama dos fundos estruturais, fará da Madeira “um Reino Unido, uma Dinamarca ou uma Singapura.
Aqui têm meus amigos. Olho-me ao espelho e acho-me com cara de palhaço.
Tentar comentar as asneiras deste governo é impossível. Impossível porque são tantas que não caberiam numa página deste tipo nem talvez num jornal de grande formato. Além disso não as apontei. Para isso teria de despejar os livros que comprei com muito gosto da mente e sacrifício da bolsa, para ocupar o espaço das prateleiras com tanta porcaria. Adiante.
Vamos só às últimas. Depois do ministro da defesa a mascar pastilhas nas comemorações do 25 de Abril vemos agora o ministro da Educação a olhar p’ro ar perante a maior trapalhada nos concursos dos professores desde, pelo menos 1970. O ano passado foram as cunhas para entrada na Faculdade de medicina e a colocação de professores no 3º ciclo por cunha, sem terem sequer horários disponíveis. Feitas as respectivas denúncias o ministro assobiou para o ar. Este ano a trapalhada é tanta que não tem classificação nem ponta por onde se lhe pegue.
Entretanto, vêm alguns comentadores, que fazem lembrar o “João do Coito” dos tempos de Marcelo Caetano que, pago pelo governo vinha à televisão dizer mal de algumas coisas, falarem do que não sabem.
Dizer que a centralizar o concurso, informatizar, publicar listas nacionais, dar aos professores possibilidade de reclamar, “constitui uma boa evolução” ( José Manuel Fernandes- Público de hoje 07-05) é mostrar que não sabe nada do que está a falar. Estes procedimentos existem há muitos anos. A única coisa que este ministério tentou inovar foi a hipótese dos boletins de concurso serem enviados via Internet e a “barraca” está à vista.
Os professores estão em pânico, o sistema à beira da rotura e o ministro continua a olhar para o ar. É caso para perguntar. Será que é porque ainda não arranjaram uma grande empresa onde o colocar como administrador?
Lembras-te daquele passeio que eu te ofereci. Naquelas tardes em que nos amávamos secretamente em espaços proibidos como proibido era o nosso amor. E cada vez que nos encontrávamos sem espaço e sem tempo e tínhamos de, com mil truques de imaginação, inventar o tempo para o nosso amor. O nosso tempo. Prometíamos um ao outro que o tempo havia de chegar. O dia em que o tempo fosse só nosso, em que ninguém pudesse dar-nos ordens, impedir os nossos encontros vigiar os nossos actos. Como éramos felizes na nossa ingenuidade de adolescentes! Como pensávamos que a conquista do tempo e da liberdade é coisa fácil e que apenas o tempo nos permitiria alcançar todos os nossos desejos, realizar todos os nossos projectos. Como éramos felizes no sonho!...
O tempo correu e passou sem precisar do nosso esforço, sem ninguém para empurrar o sol na sua giratória, deixando-nos as noites, o brilho pérola da lua que nos acompanhava, conivente das nossas fugas, dos nossos desvarios, testemunha da nossas promessas, participante do nosso amor e dos nossos sonhos, inspiradora dos versos amorosos que escrevíamos.
E um dia lá fomos no passeio prometido, tantas vezes repetido que já existia, estrada a estrada, passo a passo, rua a rua, na nossa imaginação. Paris. A Paris dos poetas, dos artistas, A Paris da cultura. A Paris da Liberdade. A Paris dos apaixonados. Paris era o nosso destino imaginário.
Subimos a Torre Eiffel onde nos sentimos a voar sobre a cidade e mais perto do céu. Percorremos as galerias do Louvre. Almoçávamos apenas um croissant para tomármos café nas esplanadas dos Campos Elísios. Descemos o Sena nos barcos turísticos onde se falam todas as línguas e todos se divertem acenado para as margens ainda que ninguém nos olhe. Ninguém nos perguntou nada. Ninguém nos impediu de nada. Ali éramos livres. Éramos sempre crianças. Como nós, muitos pares de apaixonados passeavam nas ruas de Paris. Também eles tinham sonhado com a sua liberdade. Eu ofereci-te um perfume, um chanell 4, lembras-te?!
Depois veio a realidade e tu desapareces-te.
Conservo o aroma do teu perfume e, escrevendo, invento a tua existência.
Não sou religioso mas tenho palas pessoas que são religiosas, de qualquer religião, um grande respeito. Acho até que a fé, a prática sincera de um religião pode ser uma forma de interiorizar e praticar valores úteis na sociedade.
O que não aceito é o aproveitamento que das igrejas e dos políticos fazem da boa fé das pessoas religiosas mas menos informadas e menos capazes de pensar. Não acredito em ingenuidades quando as pessoas possuem graus de instrução elevados. O que a direita portuguesa está a fazer é uma infâmia. Utilizar a imagem de Fátima e o nome de Cristo para apelar ao voto e apontar a não inclusão de referência religiosa na constituição europeia é um abuso. Qualquer deputado, por muito beato que seja sabe e compreende que a melhor maneira de a Europa respeitar a religião é não misturar questões de estado com questões de fé. Na Europa há populações praticantes de várias religiões. A única forma de as respeitar e não atirá-las uma contra as outras é colocar as questões religiosas fora do âmbito governamental. Será que a direita nem com os problemas que nos entram todos os dias pelos dentro aprende? Também não é verdade que na génese da Europa esteja a religião cristã. No espaço que hoje se reclama de Europa houveram muitas outras religiões com destaque para a judaica e a muçulmana. E antes de estas se afirmarem já o espaço apresentava alguma hegemonia cultural.
A única coisa que se pode dizer.
TENHAM VERGONHA SENHORES DEPUTADOS DA DIREITA
O serão é ponto de encontro. Depois do trabalho. Encontro na nossa sala. Não há televisão, não outra distracção, só música. A música dos discos que ouvimos, baixinho, muito baixinho para não quebrar a intimidade da tua voz. E eu escrevo. Escrevo a tua voz que penetra no meu coração. Não! Não é nos ouvidos porque tu não estás. Sou eu que te invento. Invento a tua presença. Invento o teu corpo. Invento o teu amor. Invento a tua voz e escrevo as palavras que me dizes. As palavras que tu me dizes não precisam de ruído nem de som, estão gravadas na minha memória. Na memória que eu escrevo porque só se escreve memória. A realidade narra-se, descreve-se, não se escreve. O que eu escrevo está para lá do espaço sem sair desta sala onde o nosso encontro se realiza sem a tua presença, porque ela vive em mim. E se eu estou aqui tu também estás. És parte do meu ser, essa identidade que se foi formando de vivências, que somadas e integradas fizeram o tempo. O meu tempo. Os meus dias e os meus serões. Não! Não há solidão. A nossa solidão somos nós que a fabricamos. A solidão existe quando não temos ninguém. Eu tenho-te a ti. E tu nunca me abandonas quando escrevo. Tu não me pedes para escrever nem para não escrever. E se pedisses eu não podia atender-te. A escrita não é minha. A escrita é tua e de todos os que fizeram todo o meu passado. O nosso passado. O meu passado, só meu, não existe, porque eu nunca vivi sozinho. Só vivi enquanto acompanhado. Se escrevo estou vivo, prova que não morri. Os mortos não escrevem, mas os vivos escrevem os mortos. Porém tu não estás morta. Está aqui comigo, eu sinto a tua presença, lembro o teu olhar, sinto o teu cheiro, o teu calor, as tuas formas e invento as tuas palavras. Sei que se estivesses aqui dirias:- Eu amo-te! E adormecias ao meu colo no sofá desta sala.
E eu escrevo. – Eu amo-te!... E adormeço na tua ausência.
A dor de quem espera é maior,
Especialmente se a espera é de amor.
O tempo pára e cada minuto é uma hora
Em cada sombra vejo a tua imagem,
Tudo se transforma em miragem,
A tua presença demora.
Num deserto de calor.
E a minha espera é dor.
Na procura de alguém que se pareça contigo olho o espaço.
Não sei o que faço,
É loucura,
Este frenesim impaciente que perturba a minha mente,
Enquanto espero por ti.
O espaço vazio é multidão,
As ruas são confusão,
A cidade é um inferno.
Dentro de mim há frio, é inverno,
É medo.
O medo de que não venhas, que vás com outro.
Que te tenhas arrependido.
Medo que me deixa transido.
No relógio o tempo é pouco,
O amante é sempre um louco.
..../.......
João Norte
“Vós mulheres, estai sujeitas aos vossos maridos, como convém ao Senhor”
“Vós, maridos, amai as vossas mulheres, e não vos irriteis contra elas”
“Aos colossenses, cap.3, versículos 18 e 19.”
(in blogue mocho)
Em comentário, prometi escrever sobre isto. Por isso as palavras que se seguem. O meu comentário no blogue “o mocho” foi apenas :- ultrapassado.
De facto, para pessoas com alguma instrução, com um mínimo de inteligência e sensibilidade, estes ensinamentos bíblicos estão ultrapassados. A bíblia mesmo para os não cristãos pode ser e é um livro de referência se for lida e entendida no contexto da sociedade judaica e no tem em que foi escrita. Pena é que os cristãos, tanto os católicos, como as outras seitas ou religiões como queiram chamar-lhe, continuam a interpretar a bíblia à letra. Outros povos, nomeadamente os muçulmanos, são ainda muito mais radicais, mesmo desumanos ( ver Pública de domingo 02-05) no tratamento despótico em que o homem exerce o seu poder sobre a mulher, quer se trate do marido ou do pai. A mulher é vista como um ser servil e, o que é muito pior, pecaminoso. Ao lermos relatos que são feitos por mulheres muçulmanas arrepiamo-nos de tanta barbaridade. Todavia, nós ocidentais, não estamos assim tão afastados duma mentalidade parecida. Na igreja católica e na nossa gente mais dependente da religião, o patriarcado é um valor e uma prática com laivos de poder subjugante. A Igreja ainda não admitiu o direito à mulher de dispor de si própria, e muito menos lhe reconhece o direito ao prazer. O sexo é um pecado para o qual foi criado o dogma do pecado original. Partindo deste dogma estende-se todo o conceito de submissão feminina. A laicização das sociedades, a integração da mulher no trabalho não doméstico e o cada vez maior acesso da mulher à instrução, têm criado, nas sociedades ocidentais, um conceito de igualdade que colocam aqueles versículos ultrapassados.
Há ainda muito por fazer. E são muitas vezes as mulheres, confundindo igualdade com inversão dos papéis, isto é , - até aqui eram eles que impunham, agora somos nós-, que retardam a verdadeira igualdade. Há, por outro lado, muito medo na cabeça de muitos homens. Medo de ser ultrapassado, medo do ridículo, medo de não corresponder aquilo que lhes disseram ser “um homem”.
Nos versículos transcritos existem dois conceitos que vale a pena reter “estai sujeitas” “ amai” como se às mulheres fosse impedido de amar e para os homens isso fosse uma obrigação.
Muito mais haveria para dizer, fica para outro texto.
A liberdade é ao mesmo tempo, um conceito tão vasto e tão restrito que é difícil senão impossível traçar-lhe os limites. Para mim há dois aspectos da liberdade que encerram em si quase tudo o que podemos esperar da liberdade ou da falta dela: liberdade de expressão e liberdade de movimentação.
Um nota antes de continuar. Quando falo de liberdade e da cidadão refiro-me à liberdade que assiste ao cidadão livre, honesto cumpridor das regras do respeito pelo outro cidadão. Não falo, obviamente, do criminoso.
A liberdade de expressão não se confina na possibilidade de publicar um livro, escrever nos jornais, transmitir as notícias tal qual como os factos se passaram, estende-se também à liberdade de cada um falar e contactar com quem quer, falar do que quer e onde quiser. Antes de Abril de 74 não era só nos jornais e livros que existia a censura. Ela estava em cada esquina, na sala de aula, na mesa do café, onde quer que estivesse uma terceira pessoa e muitas vezes mesmo no nosso interlocutor não havia confiança e a comunicação era sustida e cautelosa. As conversas à mesa do café terminava logo que alguém desconhecido se sentava na mesa do lado.
É por isso que me custa hoje assistir à invasão da intimidade de cada um nas escutas telefónicas ainda que compreenda que, dado o nível da criminalidade e corrupção elas são um meio de investigação.
Outra característica da liberdade é a liberdade de movimentação. Sou Universalista. Sempre fui, e tive algumas ameaças como professor por ser contra ao estabelecimento de fronteiras políticas. Imaginem um professor de História que no tempo da ditadura dizia que Afonso Henriques não era nenhum santo, que não devia ter havia a Restauração e que a Península Ibérica devia ser uma federação de povos e estados. Entendo que os povos podem afirmar-se pela sua cultura independentemente da limitação geográfica. Isto parece utópico. Talvez seja. Mas que direito tem alguém, que nada me perguntou, de me impedir de passar daqui para ali, à distância de um passo? Quem retalhou o planeta em pedaços, colocou arame, e disse isto é meu e aquilo é do outro, foi Deus? Se tenho documentos que provam que sou um cidadão honesto, porque é que não posso ir visitar o que me apetece se sou eu que pago as viagens?
Duas conquistas do 25 de Abril!....
Desde muito novo sempre gostei de viajar. Era como sair dum sufoco quando conseguia atravessar a fronteira. Foi das coisas que mais me fez revoltar contra o regime antes de 74 as dificuldades de obter passaporte. Apesar do meu pai ser um pequeno proprietário rural era muito conceituado nos meio concelhio, mesmo assim várias vezes só com o empenho do seu amigo presidente da Câmara conseguia que nos passassem passaporte. Não ia muito longe mas dava para ir ali a Espanha. O meu irmão, mais velho do que eu 9 anos, um dia viu o passaporte recusado com a indicação da PIDE de que ele queria ir para França trabalhar. A situação tornou-se caricata porque o próprio funcionário do Governo Civil de Leiria onde ele pediu o passaporte era inclino dele num prédio na Marinha Grande. Então quando o meu irmão foi para levantar o passaporte o funcionário ficou embaraçado. Não tinha poderes para contrariar a PIDE mas estava perante o senhorio e sabia que o meu irmão vivia de rendimentos. Foi ele próprio apresentar o caso ao Governador Civil que, obviamente, também ficou embaraçado.
Isto é apenas um episódio de muitos que aqueles que nasceram depois de Abril de 74 não sabem avaliar. E agora com a facilidades de viajar pela Europa apenas com Bilhete de Identidade, sem parar nas fronteiras é um alívio, um sabor a Liberdade que não consigo ficar sem me emocionar com a União Europeia como uma realidade. Sempre desde muito novo odiei os nacionalismos. Mais tarde, quando estudante( e digo tarde porque estudei só em adulto) conheci a célebre frase de Sócrates “não sou Ateniense nem Grego, sou um cidadão do mundo) considero dos pensamentos mais importantes da História. Era assim que gostava de me sentir. Foi isso que sempre ensinei aos meus alunos. O ser humano pertence ao planeta Terra. Foram os interesses políticos que lhe criaram fronteiras e lhe limitaram os movimentos.