novembro 29, 2004

Vai mais uma posse?

Mas como é que o governo pode governar?

Passa metade do tempo a caminho das inaugurações.
Outra metade a caminho do Palácio de Belém a tomar posse.

Enfim, como diria o meu avô

- trabalhador que não toma atenção no serviço não merece meio tostão..

Publicado por João Norte em 02:45 PM | Comentários (2)

novembro 27, 2004

O meu avô Burreco.

Não era alcunha, era mesmo assim o nome do meu avô. O meu avô não era burro. Quero dizer, em algumas coisas até era parecido. Era forte, muito grande e tinha muita paciência. Aos meus olhos de criança ainda parecia maior, mas era mesmo grande e tinha muita força, mas não fazia mal a ninguém. E paciência ainda tinha mais do que o burro, mas não era burro porque era muito inteligente. Contava-me histórias e, sem saber ler, sabia fazer contas muito grandes e muito rápido.
Eu também não sei se os burros não são inteligentes, se calhar até são e nós é que não sabemos compreender a inteligência deles. O burro do meu avô era inteligente, nunca se perdia, não comia a palha que não lhe agradava e entendia tudo o que o meu avô lhe mandava fazer. Mas eu não queria falar do burro, queria falar do meu avô. E o meu avô, já disse, não era burro. Era grande e era muito velho. Quando eu comecei a conhecê-lo já tinha quase 90 anos e morreu com quase 100.
Nesse dia eu chorei.
O meu avô não era careca como o avô do Zezinho. O meu avô tinha muito cabelo, todo branquinho. Era eu que lhe cortava o cabelo. Só havia barbeiro na Vila e era muito longe. Nas tardes de sol, o meu avô sentava-se numa cadeira à porta e eu cortava-lhe o cabelo com uma tesoura. Muito rentinho. Depois ele dava-me meio tostão para comprar rebuçados.
Um dia piquei-lhe a cabeça com a ponta da tesoura, só uma picadinha, de propósito. Ele fingiu que não tinha sentido. Quando acabei disse-me:
- O trabalhador que não presta atenção ao trabalho não merece a jorna.
E ponto, fiquei sem o meio tostão e sem os rebuçados.

Histórias da minha infância.

Publicado por João Norte em 04:51 PM | Comentários (4)

novembro 26, 2004

Morreu Francisco Manuel Felizardo

Acabo de receber, mesmo neste instante, a notícia da morte de um amigo. Francisco Manuel Felizardo. 62 anos.

Era a pessoa mais bem disposta que conheci e sempre disponível que ajudar qualquer amigo.

Rádioamador, bombeiro, sócio de tudo o que fosse beneficência.

à família, que são geralmente meus leitores, apresento os meus sentimentos .

Neste momento não sei mais o que dizer.

Publicado por João Norte em 11:37 AM | Comentários (3)

novembro 23, 2004

As Blotas do Santo

Quando era garoto, na minha aldeia só eu e o Zezinho é que tínhamos botas. O Zezinho tinha tudo, era rico.
Eu tinha umas botas cardadas que pesavam muito. Quando ia para a escola e para a catequese não conseguia correr como os meus colegas descalços.
E quando brincávamos ao agarra-e-foge não conseguia competir. Isso deixava-me sempre ficar mal.
Então eu tirava as botas no caminho e quando voltava calçava-me novamente
Um dia fui para a catequese e escondi as botas junto do ribeiro. Algum amiguinho meu, mas mais esperto do que eu, levou-me as botas.
Quando cheguei a casa, pensando que não me livrava duma tareia, inventei que tinha dado as botas ao S. António que estava descalcinho.
O meu pai acenou com a cabeça com se tivesse acreditado e comprou-me outras botas (aquelas também já não eram novas)
Num dos domingos seguintes o meu pai também foi à missa. Eu só olhava para o chão encolhido nas minhas orações.
O meu pai tocou-me no braço, apontou para o S. António e disse:
- Olha João, o Santo também perdeu as botas.

Publicado por João Norte em 10:21 AM | Comentários (7)

novembro 22, 2004

Há Dias Assim

Hoje não me apetece escrever. Nem escrever nem fazer coisa alguma. Escrever não sei. Não sei hoje como não sobe ontem e não saberei amanhã. Tudo o que escrevi são coisas sem valor e sem importância.
Mas mesmo sem importância hoje não saem.
Faltam-me as palavras. Há, dentro de mim vontade, ânsia, necessidade de dizer coisa aos outros. Coisas que eu vivi, que só eu vivi e que gostava de partilhar.
Criticar o mundo estúpido que me rodeia.
E nada!
Não sei. Falta-me a arte. Escrever é uma arte que não se inventa, não se aprende olhando a escrita. Ninguém poderá dizer-nos como devemos escrever, as palavras têm de estar dentro de nós e, quando não estão ninguém as vai lá por.
Eu hoje não tenho palavras dentro de mim. Estou vazio. Não posso ir ali ao mercado, ao super, comprar palavras, comprar a arte de escrever. Não se vende. Mesmo aqueles que a têm, e há quem tenha muita, não conseguem transferi-la para outros. Nem sequer é hereditária. A arte faz parte de nós tão intrinsecamente que não a podemos deitar fora.
Mas por vezes essa arte parece abandonar-nos. E nós ficamos assim como esmagados pela realidade.
Tanta coisa a necessitar de ser dita. Tanta coisa a exigir que falemos. Tanta coisa a exigir a nossa opinião.
E nada!...
Não sai nada!
Que raiva......

Publicado por João Norte em 10:15 AM | Comentários (5)

novembro 20, 2004

O Canto da Cigarra

Com tempo, se gasta o tempo,
O tempo que se demora,
Inseguro movimento
Até chegar nossa hora.

Toca o sino as badaladas.
Coração descompassado,
Desse pobre desgraçado,
Com vida cheia de nadas.

O tempo arrasta a desgraça
Os infortúnios da vida.
Por vezes não foi comprida
Tão rápido o tempo passa.

O tempo trás a velhice,
O que já não é novidade.
Quem não pensa sem vaidade
Na mente tem parvoíce

A cigarra passa o tempo
A cantar, sem nunca se aborrecer,
Quando não tem que comer,
Vai-se a música em desalento.

Se perdeste a mocidade
Sem cuidar do teu futuro,
O tempo trona-se duro
Com o passar da idade.

Jovem olha o futuro, agora enquanto é tempo.
O tempo não dura sempre
Porque as forças do presente
Só as terás no momento.

João Norte.

Publicado por João Norte em 06:28 PM | Comentários (6)

novembro 19, 2004

A Pergunta

A pergunta para Referendo é como o meu telemóvel. É pequeno mas tem um enorme livro de instruções e mesmo assim eu só entendi 10% das operações.
Tenho a certeza que 90% dos portugueses não entenderão o que ali se pergunta. Falta-lhe o livro de instruções. Eles fazem lá ideia do que é o novo tratado da U Europeia.
Já alguém pensou em explicar primeiro os tratados?
Já alguém pensou no número de portugueses que é analfabeto funcional naquela matéria?


Publicado por João Norte em 05:38 PM | Comentários (5)

novembro 18, 2004

SUPOMOS

Fui á minha aldeia visitar o meu tio Joaquim. É um velhote simpático já na casa dos 80.
Dei com ele sentado à mesa de lápis na mão. O meu tio só tem a 3º classe.
No fim dos cumprimentos habituais as perguntas pela família, os garotos etc, não resisti a perguntar:
- o que faz o tio que não larga o lápis?
- Ora ainda bem que aqui estás. Estou aqui a ver se entendo as contas do governo, vais-me dar uma ajuda.
- Ó tio as contas do governo também não as entendo, isso é coisa muito complicada, coisa para os economistas.
- -É só uma coisinha simples que eu estava aqui a ver se entendi.
- É assim:
- O governo diz que a economia vai crescer 2,2% e diz que vai baixar os impostos.
- Supomos (eu não emendei coitado do tio) que eu semeei a mesma terra, se ela dá mais 10 alqueires são mais 10 alqueires que eu tenho, supomos que não baixava, que as taxas eram as mesmas, eu acho que o governo ia arrecadar mais 2,2%.
- Não é assim sobrinho?
- -Sim, acho que sim.
- Então como é que o governo diz que vai baixar os impostos, vai baixar o IRS, e vai receber muitos mais milhões de Euros? Aqui há gato escondido com rabo de fora.
- Deixe lá tio que eles não vão lá estar muito tempo.
- Não gostava de morrer sem ver estes aldrabões de lá para fora. Eu só queria lá ver alguém que falasse verdade, que não fizesse dos velhotes parvos.
- Esperamos tio, esperamos!

Publicado por João Norte em 09:24 AM | Comentários (5)

novembro 16, 2004

Directores de Informação.

Um dia destes vamos ter a Lili Caneças como director de informação da RTP.


Já não há pachorra para aturar isto.

Publicado por João Norte em 12:36 PM | Comentários (10)

Sentimentos de Criança.

Quando era pequeno, quero dizer, quando tinha poucos anitos, por vezes, ficava muito zangado com o meu companheiro de brincadeira.
Não era que ele me tratasse mal. Não. Era um bom rapaz. Mas era o menino e eu era o cachopo.
Ele era filho do Sr. Dr. , dono da quinta, e eu era filho do rendeiro.
Os vizinhos passavam e:
- Bom dia menino zezinho.
- Como vai o menino Zezinho?
- Como está o papá do menino Zezinho?
E a mim nada!
Ninguém me dava os bons dias. Ninguém perguntava pelo meu pai.
E se falavam comigo, eu era o cachopo.
A minha vingança era que, quando jogávamos ao berlinde, abafava-lhos todos,.

Publicado por João Norte em 09:07 AM | Comentários (5)

novembro 14, 2004

Tomando um Café

Chocam-se lembranças
Tal carrinho de feira.
Lembram-se caminhos
de outra hora vividos.
Que marcaram a vida
à sua maneira.

O tempo passou, mas não apagou
o que foi vivido.
E todo o sentido penetrou na alma.
A mente está calma, a memória cheia.
A saudade recria os momentos mais queridos,
sentidos marcados nesse dia a dia.

João Norte

13-11.04
Faculdade de Letras (30 anos passados)

Publicado por João Norte em 12:13 PM | Comentários (2)

novembro 12, 2004

A Morte de Arafat.

Quem pode hoje assistir às imagens do funeral de Arafat, se tiver olhos para ver, talvez compreenda o que eu dizia num texto escrito neste espaço, em 18 de Março intitulado “ as regras do jogo”
Sempre que falemos dos povos e dos seus comportamentos devemos ter em conta a sua cultura, o seu modo de pensar, o seu passado histórico.
A primeira impressão que se fica ao olharmos para aquela multidão e o seu comportamento é da força emotiva que move aquelas pessoas.
Ali não se chorava a morte de um ente querido da mesma forma que nós (europeus) o fazemos. Ali não eram apenas os sentimentos que se expressavam, eram as emoções que comandavam.
Para compreender aquele povo devemos lembrar também os sentimentos que ali se expressam.
Aquele povo é talvez o único num espaço que podemos chamar de” velho mundo” que não tem uma pátria. É o povo que tem sido mais humilhado na sua dignidade, pobre, sem armamento, roubado e humilhado por outro povo que, esquecendo aquilo por que passou, repete no outro a mesma atitude de arrogância pela força.
É um povo que não tem nada a perder com a violência e que também não é tratado senão com violência.
Não chamem terroristas a quem morre por uma pátria, porque esses mesmo que assim pensam, chamariam heróis se dos seus se tratasse.
Por isso, embora não seja como ninguém é, futurologista, não espero que a paz naquela região possa vir nos próximos tempos.
A paz, naquela região, está dependente da vontade dos israelitas e do governo americano. Uns vão continuar a sua força e o seu cinismo para manter a ocupação dos territórios que tomaram indevidamente. Outros, com um governante que não vê um palmo que não seja guerra, também não irá perceber o caminho da paz. Ali não há petróleo e a comunidade judaica na América é muito importante.
Gostaria poder aqui escrever outra coisa, um sinal de esperança mais imediata, mas não a vejo.

Publicado por João Norte em 04:44 PM | Comentários (3)

novembro 09, 2004

Arafat morreu.

Arafat morreu ou está a morrer.
Amado por uns, odiado por outros, com defeitos como todos, a história não poderá ignorá-lo.
Há 9 anos foi assassinado Shimon Peres.
Há 15 anos caiu o muro de Berlim.

Os israelitas constróem um muro não menos vergonhoso que separa famílias e incendeia o ódio.

Os americanos continuam a bombardear os iraquianos que se matam uns aos outros.

O que é que a humanidade aprendeu nestes séculos de ciência?

Publicado por João Norte em 05:07 PM | Comentários (11)

Alguns Dados da Memória.

Quando o intro.vertido dez o seu 1º aninho, prometi uma resenha dos acontecimentos mais importantes da nossa sociedade durante esse período.
Coisa difícil para meter em pouco espaço. Texto muito grande cansa o leitor e não é lido.
Não houve em Portugal, infelizmente, assuntos de que nos possamos orgulhar, houve alguns que nos envergonham. Dos governos (eleito e não eleito) nada saiu de interessante. Depois do discurso do bota-a-baixo que pôs a economia de rastos a corrupçãozinha começou logo.
Foi o caso da menina filha do ministro por despacho de outro ministro que entre em medicina sem nota para isso.
Foi o escândalo do ministro Isaltino Morais que não sabia dos 120 mil contos na conta da que eram e não eram do sobrinho. Sabemos agora que estava metido noutros grandes negócios mais ou menos corruptos. Todavia está aí pronto para grandes tachos na política.
O caso Casa Pia( de que nunca falei nem falarei) onde houve de tudo desde o enlamear de pessoas à tentativa de arrastamento do Presidente da República e o António Vitorino. Veio depois a Novela Salvado, a demissão de inspectores da PJ e as cassetes. Tudo coisas inocentes. Já vamos na audição de jornalistas. Há pressão na liberdade de expressão? Não!.......
A bronca (sempre inocente) da colocação de professores de que estamos a pagar grande factura, parece ter já sido esquecida e irá ser repetida.
As eleições Europeias cujos resultados foram bem compreendidos pelo primeiro ministro Durão, e a sucessão dinástica de Santana.
Algumas tentativas de condenação de mulheres que praticar (as pobres) aborto e o caso do barco Holandês.
O apoio e a participação na guerra ao Iraque, com os resultados a que estamos a assistir e que só o governo não previa.
Para não dizer só mal, houve o Europeu 2004 que não correu mal.
Não vou citar os números estatísticos que colocam Portugal na cauda da Europa isso todos se lembram porque o sentem todos os dias.
Havia muito mais, fica por lembrar.

Publicado por João Norte em 10:13 AM | Comentários (0)

novembro 05, 2004

RECOMENDO

Porque o tempo está a ser curto e não vale a pena dizer o que os outros já disseram e melhor, RECOMENDO a leitura de Miguel Sousa Tavares no Público de hoje.
Um abraço atodos.

Bom fim-de-semana

Publicado por João Norte em 04:07 PM | Comentários (2)

novembro 03, 2004

Bush faz-me medo.

Que raio se passa no mundo?!

Mesmo depois da ajuda que Bin Laden lhe veio dar à última da hora, como é que os americanos voltam a eleger Bush?

Que custos o mundo irá pagar?

Ninguém conseguirá fazer entender aos americanos que não é com 100 mil mortos, nem com um milhão, que vencerão o mundo árabe?

Ninguém conseguirá fazê-los entender que não será com a guerra, mas com outras políticas que acabarão com o terrorismo?

Se ninguém travou aquele louco com uma eleição duvidosa, quem o travará agora?

Publicado por João Norte em 09:46 AM | Comentários (7)

novembro 02, 2004

Julgamento por Aborto

Jovem de origem caboverdiana, operária, julgada por crime de aborto através de medicamentos denunciada por um enfermeiro.

Não venho aqui falar de aborto. Já disse o que penso disso noutro texto.

Apenas direi que esta jovem podia ser filha de qualquer um de nós, irmã de qualquer de nós, a única diferença seria ter dinheiro ou não ter, mas isso faria a grande diferença.

Enquanto os juizes não conseguirem ver mais do que a lei que têm na sua frente, serem tão cegos como ela (lei) e não olharem à sua volta para a sociedade em que vivemos, vamos ter sempre alguma mulher, caboverdiana ou não, que passará por esta vergonha e nós todos com ela.


Publicado por João Norte em 04:51 PM | Comentários (2)

Conselho de Ancião

<b>Sonha irmão.

Sonha para lá do horizonte.
Escuta o gorjeio da fresca fonte
E pensa que és capaz de chegar longe.

Esforça-te.

Mas tem consciência que o caminho
É longo e torto.
Ao fim de muitos anos, quase morto,
Já só pensarás em viver o dia de hoje.

Não há forma de poderes voltar atrás.
Refazer aquilo de que foste incapaz,
Começar de novo a caminhada.

Vai em frente.

E dá-te por contente.
Aquilo que fizeste, foi melhor que nada.

João Norte

Publicado por João Norte em 09:28 AM | Comentários (5)