julho 30, 2005

30-07 Os anos da minha mãe

Ruminando pensamentos
Escrevo palavras que ferem,
Com punhais rasgo as veias
Da memória.
Num mergulhar das brumas
Dos tempos que te senti.
E ponho a nu o passado
Enterrado em sonhos desfeitos
Em nuanças da saudade,
Com a idade,
Ferem estes meus jeitos
De viver o que não vivi.
Como quem cava dia a dia
Os sete palmos da sepultura
Nesta ideia pró alem
a que nos leva a cultura.

Hoje lembrei-me de ti
Mãe.

João Norte

Publicado por João Norte em 06:24 PM | Comentários (14)

julho 25, 2005

Já escolhi o Presidente.

Brincando com coisas sérias, posso dizer que já escolhi o próximo presidente da República.
Alem da simpatia pessoal, o Cavaco é feio, tenho de seguir o espírito da economia e da legalidade.
Começando pela legalidade, o professor Cavaco ainda não tem 65 anos e, por isso, deve continuar professor como manda a lei.
Pela economia:
Ora o Dr. Mário Soares já recebe a pensão de Ex- Presidente, e como a lei não lhe permite receber duas, o país poupa dois ordenado, o de presidente em duplicado e o do professor que iria substituir o professor Cavaco.
Este deve ter sido também o raciocínio do primeiro ministro. É de apoiar!

Publicado por João Norte em 02:25 PM | Comentários (9)

julho 24, 2005

Imigrante/terrorista.

Afinal, aquilo que nos foi apresentado por um possível perigoso terrorista, era, afinal, um inofensivo imigrante trabalhador brasileiro.
Este facto coloca-nos perante um dos aspectos mais importantes deste problema e talvez um dos objectivos pretendidos pelos bombistas– o medo e a insegurança generalizados.
A polícia londrina, que no dia 7 pretendeu enviar ao mundo uma imagem de eficácia e calma, está completamente assustada, destrambelhada, sem controle.
Se o homem abatido tivesse alguns traços de “árabe” podiam ainda dizer que a fisionomia os confundiu, mas o que ficámos todos a saber é que não era assim, e mais ainda, que o homem já estava completamente dominado, manietado no chão, quando foi morto à queima roupa com 5 tiros na cabeça.
É uma nódoa na apregoada calma e eficácia da polícia londrina.
Todos temos alguém em Londres (eu tenho um filho), todos temos alguém nas estâncias turísticas, todo mundo hoje é local suspeito, todos ficámos mais expostos, porque, se já estávamos expostos ao terror dos bombistas, estamos também expostos ao MEDO e à BRUTALIDADE das polícias.
Ao reflectir sobre este caso, veio-me à memória uma imagem. Depois da polémica se houve ou não o arrastão em Carcavelos, foi ainda publicada uma imagem em que se vê na praia um polícia português encostando o cano da metralhadora à cabeça de um jovem negro. Afinal porquê? Também aqui se trataria de “um perigoso possível terrorista”?

Publicado por João Norte em 01:39 PM | Comentários (7)

julho 23, 2005

Perguntas sem respostas.

Porque se matou em Nova Iorque, na Indonésia, em Madrid, em Londres e hoje em Sharm El-Sheikh ?

Haverá uma resposta? Uma causa? Várias causas concorrentes?
Parece ser uma pergunta a que todos gostaríamos de saber responder mas não sabemos. Porém, talvez possamos pensar na caminhada da história do século XX , nas tentativas de colonização sorôdia do Próximo Oriente pela Europa e pelos Estados Unidos.
Talvez possamos pensar no preço que os deuses fazem pagar aos homens que não pensam pela sua cabeça mas pelas forças emotivas, maniqueístas e exclusivistas, das religiões, nos ódios ( e não o apregoado amor) que lhes estão subjacentes.
Talvez possamos pensar nas humilhações que o dito Ocidente tem feito aos outro povos.
Talvez possamos pensar que estamos a pagar o preço do nosso bem estar feito à custa da exploração desses povos.
Talvez possamos pensar muitas outras razões a juntar a estas. Entretanto vamos assistindo aos horrores que nos entram em casa e gerindo o nosso medo e a nossa insegurança.

Publicado por João Norte em 05:57 PM | Comentários (10)

julho 22, 2005

Sem tempo para comentários.

Existe em mim um menino
Em cada palavra que escrevo
É ele que traz o verbo
Em memória pequenino.

Nos tempos da minha infância
Vividos na minha aldeia
Deles guardo a ideia
Que a vida tem importância

Vivo memórias sentidas
De quem comigo viveu,
E ao meu carácter deu
As balizas consentidas.

Tecem-se sonhos futuros,
Vivem-se amores prematuros.
Como quem palpa o terreno,
Num espaço muito pequeno.

Jogos de amor e prazer,
Preparos para uma vida,
Tacteiam-se campo e medida
Daquilo que há por fazer.

As palavras que hoje escrevo
Trazem consigo o passado,
É todo este amassado,
O tanto a que me atrevo.

Sem passado não se existe,
O futuro a Deus pertence,
É louco se alguém persiste,
Dizer do que não conhece.


João Norte

Publicado por João Norte em 09:54 AM | Comentários (12)

julho 20, 2005

Mentiras & Vídeos.

Como se justifica o texto anterior.

Ouvi hoje, finalmente, a televisão esclarecer que não houve nenhum “arrastão” na praia de Carcavelos.

Já sabíamos que assim era. Mas a irresponsabilidade dos meios de informação portugueses na sua ânsia de encher o público de imagens “espectaculares” e quanto mais mórbidas melhor, fizeram passar para fora do país uma imagem de insegurança sem pensarem nas consequências que isso traria ao turismo e, consequentemente, à economia.
Mais grave ainda é que, o próprio comando da polícia, na ocasião, noticiou a existência de “bandos organizados” umas vezes falando em 400 outras em 4o indivíduos.

Publicado por João Norte em 12:01 PM | Comentários (115)

julho 19, 2005

OBESIDADE MENTAL

Uma amiga enviou-me por e-mail. Não conheço a obra citada, mas porque achei pertinente, aqui fica com a devida vénia.


OBESIDADE MENTAL

O prof. Andrew Oitke publicou livro polémico : «Mental Obesity»,
que revolucionou os campos da educação, jornalismo e relações sociais
em geral. Nessa obra, o catedrático de Antropologia em Harvard
introduziu o conceito em epígrafe para descrever o que considerava o
pior problema da sociedade moderna.

«Há apenas algumas décadas, a Humanidade tomou consciência dos perigos
do excesso de gordura física por uma alimentação desregrada. Está na
altura de se notar que os nossos abusos no campo da informação e
conhecimento estão a criar problemas tão ou mais sérios que esses.»

Segundo o autor, «a nossa sociedade está mais atafulhada de
preconceitos que de proteínas, mais intoxicada de lugares-comuns que
de hidratos de carbono. As pessoas viciaram-se em estereótipos, juízos
apressados, pensamentos tacanhos, condenações precipitadas. Todos têm
opinião sobre tudo, mas não conhecem nada.

Os cozinheiros desta magna fast food intelectual são os jornalistas e
comentadores, os editores da informação e políticos, os romancistas e
realizadores de cinema.

Os telejornais e telenovelas são os hamburgers do espírito, as
revistas e romances são os donuts da imaginação.» O problema central
está na família e na escola. «Qualquer pai responsável sabe que os
seus filhos ficarão doentes se comerem apenas doces e chocolate.

Não se entende, então, como é que tantos educadores aceitam que a
dieta mental das crianças seja composta por desenhos animados,
videojogos e telenovelas. Com uma «alimentação intelectual» tão
carregada de adrenalina, romance, violência e emoção, é normal que
esses jovens nunca consigam depois uma vida saudável e equilibrada.»

Um dos capítulos mais polémicos e contundentes da obra, intitulado "Os
Abutres", afirma: «O jornalista alimenta-se hoje quase exclusivamente
de cadáveres de reputações, de detritos de escândalos, de restos
mortais das realizações humanas. A imprensa deixou há muito de
informar, para apenas seduzir, agredir e manipular.» O texto descreve
como os repórteres se desinteressam da realidade fervilhante, para se
centrarem apenas no lado polémico e chocante. «Só a parte morta e
apodrecida da realidade é que chega aos jornais.»

Outros casos referidos criaram uma celeuma que perdura. «O
conhecimento das pessoas aumentou, mas é feito de banalidades. Todos
sabem que Kennedy foi assassinado, mas não sabem quem foi Kennedy.
Todos dizem que a Capela Sistina tem tecto, mas ninguém suspeita para
que é que ela serve.

Todos acham que Saddam é mau e Mandella é bom, mas nem desconfiam
porquê. Todos conhecem que Pitágoras tem um teorema, mas ignoram o que
é um cateto.

As conclusões do tratado, já clássico, são arrasadoras. «Não admira
que, no meio da prosperidade e abundância, as grandes realizações do
espírito humano estejam em decadência. A família é contestada, a
tradição esquecida, a religião abandonada, a cultura banalizou-se, o
folclore entrou em queda, a arte é fútil, paradoxal ou doentia.

Floresce a pornografia, o cabotinismo, a imitação, a sensaboria, o
egoísmo. Não se trata de uma decadência, uma «idade das trevas» ou o
fim da civilização, como tantos apregoam. É só uma questão de
obesidade. O homem moderno está adiposo no raciocínio, gostos e
sentimentos. O mundo não precisa de reformas, desenvolvimento,
progressos.

Precisa sobretudo de dieta mental : COM QUALIDADE.


Publicado por João Norte em 01:59 PM | Comentários (15)

julho 17, 2005

Ultrapassar os limites.

Todos os grupos atingidos pelas medidas restritivas do governo reagiram mais ou menos pela perda das regalias ou direitos que viram ser-lhe cerceados.
Todos têm o direito de reclamar e defender o que acham lhe pertencer.
Mas há quem esteja a ultrapassar os limites.
Os Srs. Juizes recusam ser contactados fora das horas de expediente. Penso que isto é ilegal. É caso para lhe perguntar o que diz a Lei.
Parece (digo parece porque não tenho informação para afirmar) que a polícia já conseguiu manter quase todas as regalias que tinham, todavia, vão fazer greve às multas. Isto é um convite ao cidadão incumpridor para desrespeito pelas leis que a Polícia está encarregada de fazer cumprir. Em meu entender, é pior do que fazerem greve de facto, porque não trabalham e recebem.
Porém, o inconcebível é ouvir “responsáveis” pela polícia dizer que “fariam bloqueio nas pontes 25 de Abril e Vasco da Gama. Um bloqueio ao movimento dos cidadãos feito pela polícia é um desrespeito pela ordem pública que assume foros de “declaração de guerra”. Simplesmente intolerável.

Publicado por João Norte em 02:20 PM | Comentários (8)

julho 14, 2005

Pacheco Pereira e o Terrorismo


O José Pacheco Pereira, com aquela cabeçora cheia de intelectualidade, que no 11 de Março teimava em atribuir os atentados de Madrid à ETA, quando já todos percebiam que não eram, encontrou, agora, a explicação mística para o fenómeno terrorista.
Segundo ele, atribuir à fome, à miséria, à exploração dos pobres pelos ricos qualquer causa do terrorismo é perfeita ignorância e um pensamento perigoso.
Ainda segundo a sua clarividência não há causas para o terrorismo. Não é a pobreza, mas também não lhe aponta nenhuma. Nem sequer dizer que a pobreza não é causa única. Este termo é meu.
Segundo o Pacheco, o terrorismo “ é uma guerra apocalíptica, política e religiosa” ponto final!
Estamos todos esclarecidos.

Publicado por João Norte em 02:35 PM | Comentários (27)

Para descontrair.

Amigos. Deixem lá de pensar em coisas sérias por um tempinho.

Este post foi-me enviado por e-mail. Não resisti, parece tirado duma prova de exame do 9º Ano.

Cinderela - versão com linguagem do séc XXI

Como contar a história da Cinderela às crianças, para que não nos chamem "Kotas"

«Há bués da times, havia uma garina cujo cota já tinha esticado o pernil e que vivia com a chunga da madrasta e as melgas das filhas dela. A Cinderela, Cindy p'ós amigos, parecia que vivia na prisa, sem tempo para sequer enviar uns mails. Com este desatino todo, só lhe apetecia dar de frosques, porque a madrasta fazia-lhe bué da cenas. É então que a Cindy fica a saber da alta desbunda que ía acontecer: uma party!!!

A gaja curtiu tótil a ideia, mas as outras chavalas cortaram-lhe as bases. Ela ficou completamente passadunte, mas depois de andar à toa durante um coche, apareceu-lhe uma fada baril que lhe abichou uma farda baita bacana, e ela ficou a parecer uma g'anda febra. Só que ela só se podia afiambrar da cena até ao bater das 12.

A tipa mordeu o esquema e foi p'ra borga sempre a abrir. Ao entrar na party topou um mano
cheio da papel, que era bom comó milho e que também a galou. Aí, a Cindy passou-se dos carretos, desbundaram "ól naite long" até que, ao ouvir as 12, ela teve de se axandrar e bazou. O mitra ficou completamente abardinado quando ela deu de fuga e foi atrás dela, mas só encontrou pelo caminho o chanato da dama.

No dia seguinte, com uma alta fezada, meteu-se nos calcantes e foi à procura de um chispe que entrasse no chanato. Como era um alta cromo, teve uma vaca descomunal e encontrou a maluca, para grande desatino das outras fatelas que ficaram ànhar.»

Fim :)))))


Publicado por João Norte em 02:20 PM | Comentários (17)

julho 12, 2005

Palpites IV. Questões pedagógicas.

Nota.- Este texto não tem pretensões científicas, apenas referenciais.

No texto anterior referi a formação de professores em anos de estudo e bases científicas, refiro agora a ”confusão” pedagógica que decorreu paralelamente.
Ao longo do Século XX decorreu ainda o modelo da Escola Tradicional. Mas já na segunda metade veio a Escola Nova, a Escola Moderna, a Escola Não Directiva, a Escola Activa, a Escola Construtivista, a Escola Conducionista, para só referir os modelos mais conhecidos.
Estes modelos subdividem-se em práticas diversas e assentam em correntes filosóficas que se contrariam ou se completam, mas todas exigem uma atenta e perspicaz leitura.
Correntes filosóficas estruturalistas, behavioristas, evolucionistas.
Linguagens como John Watson, Skinner Pavlov, Carl Rogers, Piage, A Neill, Young, Illich, Hassenforder, Mager, Landsheere, Bloom, e muitas outras.
Pessoas com uma formação básica do 5º Ano não têm capacidade de compreender estas linguagens.
À tradicional autoridade da palmatória opõe-se uma total desordem e desorientação. Onde se lê “ a crianças não devem ser obrigadas a ter a mesma caligrafia, compreende-se que “não se deve ensinar a escrever”. Onde se diz que a criança “não deve decorar a tabuada” lê-se que não necessita aprender aritmética, se a máquina faz equações, não é preciso aprender cálculo. Etc, etc.
No Ensino Secundário a formação de professores andou nas mesmas bolandas. Inspectores orientadores, que de orientadores não tinham nada e muitos formadores engoliram Bloom e uma grelha de planificação, deixando de lado conhecimentos e práticas pedagógicas. A escolas não têm capacidade (nem interesse) em saber quem ensina de verdade, apenas a transição de ano, a resposta à pressão dos pais.
Ao governo apenas interessam os números para constar na EU.
Assim, chegou-se ao mau trabalho que alguns professores estão a fazer. Mas note-se que estes professores trabalham e muito. E há professores a fazerem óptimo trabalho. É preciso separar trigo do joio. Por isso eu disse em texto anterior que não é diabolizando uma classe que se melhora o ensino.

Porém os alunos chegam ao 9º ano e não sabem escrever nem ler.
Os pais, após a revolução de Abril confundiram liberdade com irresponsabilidade. Para as crianças e adolescentes o professor é o murro a derrubar. As escolas passaram a ser mais “uma arrecadação de alunos” do que um espaço onde todos se esforçam para melhorar a aprendizagem.
Duas notas que ilustram:
1- Porque me recusei a decifrar gatafunhos que não entendia, passei várias aulas ao 10ºAno a ensinar como se faziam as letras, porque ninguém tinha ensinado alunos inteligentíssimos que um z, f ou h se faziam de forma diferente, que um com e um sem têm valor contrário.
2 – Alunos do 12ºano pediram-me para lhes ensinar como se faziam contas de dividir com 2 algarismos no divisor.( alunos de economia).

Talvez os exames venham por um pouco de ordem, não porque , por si só, avaliem alguma coisa, mas porque exercem pressão sobre os alunos, os professores e os país.

Publicado por João Norte em 02:32 PM | Comentários (4)

julho 10, 2005

O piar do melro

Enquanto farrusco, o rafeiro, guardava as vacas que pastavam pachorrentamente, Alexandre esperava.
Pelo regato, que pouca água levava naquele verão extenso e seco, corriam os seus pensamentos e desejos. Os desejos voavam para muito longe dos outeiros que fechavam o horizonte, para lá do tempo e do espaço conhecido, atrás do sonho.
No pensamento estava a imagem dela.
Esperava.
Esperava vê-la aparecer como prometera. A ansiedade crescia. Seria que a mãe dela teria descoberto que a demora das compras não se devia à ausência do Xico merceeiro, mas às passagens pelo ribeiro onde ele habitualmente a esperava.
Ela aparecia no seu vestido de chita, as sandálias penduradas na mão, os pés pequenos e descalços chapinhando, e o coração dele pulava, quase saltando do peito naqueles poucos metros que corriam ao encontro um do outro, até se fundirem num só corpo saciando o amor esperado.
Naquele dia ela não vinha.
O silêncio pesava na tarde que caía sobre os salgueiros cinzentos. Só o triste piar de melro, no seu preto de luto, se fazia ouvir.
Também o melro esperava?

Publicado por João Norte em 02:05 PM | Comentários (6)

julho 08, 2005

Um beco sem saída.

Já li tanta coisa, tanta opinião de pessoas mais ou menos seguras do que dizem sobre o atentado em Londres, que não me apetece dizer nada. É não me apetece!... Mas, para desabafar, porque a sensação é mesmo de sufoco, cá vou dizendo.
Quando do 11 de Setembro, por muito horrorizados que tenhamos ficado, a coisa era com os americanos. Encontrávamos mil razões. A Palestina, O Irão, o Afeganistão e os americanos que eram(não digo que não são) os maus da fita.
Depois, perante a invasão do Iraque, quase todos pensámos que iria haver mais terrorismo. O Bush e os seu seguidores estavam convencidos que iam acabar com ele.
O 11 de março em Madrid deixou muitos baralhados. Lembram-se dos grandes comentadores da nossa praça que, até à última hora garantiam que tinha sido a ETA sem atenderem aos sinais que tinham na sua frente?
Quando deixou de haver dúvidas de onde vinha aquela onde destruidora começaram, de facto, as nossas angústias por percebermos que estávamos perante um problema tão complexo que ultrapassava as culpas e as soluções fáceis de Bush e companhia.
O Iraque pós invasão talvez seja o espelho que melhor reflecte a realidade a que assistimos. Mas como o hábito amolece, já não olhamos para as impressionantes imagens de terror e destruição de vidas humanas e inocentes que nos entram todos os dias em casa. Porque essas não são do “nosso” mundo.
Agora foi em Londres, essa cosmopolita cidade europeia. Agora percebemos que todos nós podíamos ter estado em Nova Iorque, no comboio de Madrid ou no metro de Londres.
Deixou de haver locais seguros. Estamos todos sentados na mochila de um terrorista. Estamos todos num beco sem saída.

Publicado por João Norte em 06:53 PM | Comentários (6)

julho 05, 2005

Palpites III - continuação

Que me desculpem alguns leitores do meu blogue.
Calculo que estarei a ser maçador com esta questão do Ensino, mês eu li coisas escritas aqui pela blogoesfera de pessoas que, aproveitando o momento político, descarregavam o seu fel sobre os professores, quando eles próprios nem escrever sabiam.

No texto anterior resumi o que foram as mudanças na formação dos professores. Neste momento quase todos os professores no Ensino Básico são portadores de formação científica e pedagógica ao nível de licenciatura e no Ensino Secundário licenciatura e muitos mestrados
Não é justo que o governo, por razões apenas económicas, e depois dos seus antecessores terem feito os erros apontados, venham cortar a carreira dos actuais.
E não venham os habituais atacantes “do funcionário publico” a correr com as suas habituais prosas. Os professores em exercício ingressaram no Ensino com uma situação (um acordo se quisermos) tendo em vista uma carreira, por isso se limitaram a ordenados muito baixos no início dessa carreira.
Não comparem com os privados. Na actividade privada, um licenciado pode ganhar tanto logo no primeiro ano, ou ao fim de 3 ou 4 como o que um professor ganha no fim da carreira. Porque o professor tem uma carreira que lhe foi apresentado pelo seu patrão ( o governo) e não é justo que, quando muito bem entendo, um dos contratantes rompa o contrato. E muitos dos actuais professores rejeitaram ofertas no privado por optarem por uma carreira de que gostavam.
Há excepções? Pois há! Há maus professores? Pois há!
Mas meter tudo no mesmo saco, e pagarem os justos pelos pecadores, não é correcto.
Quais serão os resultados colaterais? Quanto irão custar?

No próximo falarei dos aspectos pedagógicos.

Publicado por João Norte em 05:34 PM | Comentários (2)

julho 04, 2005

Farrapos.

Olho o passado
E vejo nuvens,
Farrapos.
Restos de esforço empurrado,
no parto da vida.
Obstáculos derrubados, paredes erguidas
Em cada dia.
Numa porfia
esgotante, constante.
Rasgo os restos da poesia.
Rasuro as palavras,
que se colam à minha pele.
Afasto do meu corpo molhado
O teu suor.
Quero apenas ficar com o teu amor.

João Norte

Publicado por João Norte em 04:27 PM | Comentários (3)

julho 03, 2005

Palpites III

Continuando a falar do Ensino.
De 8 para 80 ou a metáfora das abelhas:- por uns pagam os outros.

Para compreendermos minimamente a situação do Ensino em Portugal é necessário recuar pelo menos 30 anos.
Nos anos 70, antes da Revolução de Abril, havia uma enorme falta de professores. Eram mal pagos, não ganhavam nas férias, que iam de 15 de Julho a 1 de Outubro.
Houve um grande acolhimento nas Escolas do Magistério. O curso de Professor Primário constava do 5º ano do liceu ou equivalente, (curso comercial, formação feminina, etc) e mais 2 anos na Escola do Magistério que incluía estágio e Exame-de-Estado. Havia ainda em exercício algumas regentes.
Educadores de Infância era coisa de que não se falava, pois ao Salazar na interessava a educação infantil. Havia, porém, algumas educadoras e auxiliares “formadas” em escolas particulares (João de Deus e outras).
No Ensino Secundário e Preparatório o panorama era idêntico ou pior. Grande parte dos professores não tinha mais do que o 7º ano dos liceus e os chamados “mestres” nas escolas industriais tinham apenas o 5º ano.

Após a revolução de Abril, os governos tentaram melhorar a preparação dos professores, alargar a rede de Ensino e corrigir situações anteriores. Começam a correr em paralelo dois conceitos: preparação científica/pedagógica e trabalho igual/salário igual.
Assim, todos os que tinham passado anos a ensinar foram considerados professores, independentemente das suas habilitações científico/pedagógicas.
Para o Ensino Básico, as Escolas do Magistério exigem o 12º Ano e dois anos, dá-se início aos cursos de Educador/a com a mesma exigência.
Para o Ensino Preparatório e secundário, define-se habilitação própria (licenciatura ou bacharelato) e habilitação suficiente. Continuamos aqui com o problema, - trabalho igual, salário igual.
Por outro lado, os curso das Escolas do Magistério têm um tempo de currículo equivalente ao bacharelato. Por isso lhe foi atribuído também os mesmos direitos.

Repare-se que já temos aqui professores executando o mesmo trabalho com três níveis de preparação diferentes: regentes, professores com 5º+2, 7º+2 ou 12º+2.
Começa a discutir-se o Estatuto da Carreira Docente. Os governos lançam mão de dois processos.
A aposentação dos professores, chegando a conceder 20% do tempo necessário e a possibilidade das regentes e auxiliares de educação que conseguissem obter o 5º ano ou equivalência, frequentarem as Escolas do Magistério em regime pós laboral.
(abro aqui um parêntese porque fui professor de alguns destes cursos para dizer da pressão que os responsáveis dos ministérios faziam para que facilitássemos o curso a estas pessoas “coitadinhas”)
A estes novos “velhos” profissionais era contado todo o tempo que tinham trabalhado, pelo que ficaram logo próximo do fim das carreiras, e com equivalência a bacharelato.
Discutido e aprovado o Estatuto da Carreira Docente este estabelece 10 escalões de ordenado. Os bacharelatos terminariam no 9º escalão e só os licenciados alcançariam o 10º.
Faltava a última achega.
Havia dinheiro e pressão da EU para a Educação. O ministério facilita aos professores de Ensino Básico e Educadores aquilo a chamou “complemento de Formação. (óptima intenção) que equivaleria à licenciatura, porque entretanto o curso das Escolas Normais, antigas escolas do magistério passou a licenciatura. Só que este complemento formativo vai ser feito nas faculdades, nos institutos públicos e particulares, por acordos ( uma espécie um tanto por cabeça) nem sempre com as exigências que deveria ter.
Se houve professores ainda jovens que com direito e qualidade fizeram estes cursos, uma grande parte foram os professores primários( com 5ºAno+2 e as educadoras comas mesmas habilitações) que estando à beira da aposentação, aproveitam. Acabam esta “formação” (arremedo de licenciatura) e gozando do estatuto que lhe permitia aposentação aos 55 anos de idade, pedem a aposentação, agora com direito ao 10º escalão da Carreira docente.
Podemos imaginar o arrombo que levou a Caixa Geral de Aposentações.

Continuarei.

Publicado por João Norte em 12:11 PM | Comentários (3)