Viver neste país cansa.
Quase todos os dias ouvimos ou lemos apelos à reutilização dos óleos usados. Todos sabemos o problema que causam os óleos lançados nos esgotos domésticos. Quase todos os dias aturamos o Sr. Primeiro-Ministro a gabar o governo pelo fomento de medidas no campo das energias alternativas.
E depois:
Um particular é apanhado a consumir óleo, no seu automóvel; é multado, o carro apreendido e depois de verificarem que não há nenhuma lei que proibisse (o que devia ser incentivado) tem de pagar 180€ para reaver a carro.
A junta de freguesia da Ericeira é multada por usar óleo reciclado nos carros do lixo.
Multa-se quem devia ser premiado!
Não há pachorra!
Não conheço na íntegra o acordo ortográfico assinado entre Portugal e o Brasil.
No entanto, já li e ouvi tanta opinião que já não tenho vontade de ler.
Por mim acho que é desnecessário e inútil. Para uniformizar as duas línguas séculos de trabalho nunca chegariam ao fim.
Para mudar a grafia de meia dúzia de palavras será necessário tanto alarido? Que importa se escrevo “facto ou ótimo”? Ainda não há muito tempo escrevia-se “pharmacia” Os brasileiros empregam centenas de termos que nós não usamos. O que importa se uns dizem autocarro e outro ónibus? Acaso não se encontra nas nossas ruas “ Bus” Há já quem clame “ como ensinar na escola”? Porque não hão-de os nossos jovens aprender que autocarro, onibus, bus ou machimbombo são a mesma coisa? Comboio e trem não se usaram sempre?
A riqueza da língua está na diversidade e não na uniformização.
Claro que os “gramáticos” virão já em defesa das regras, da estrutura, como se uma estrutura fosse, na verdade, uma coisa imutável. Antes de mais, uma língua fala-se!
Um texto de André Pacheco no " Educa Portugal" que transcrevo com a devida vénia ao autor.
Porque concordo com ele ma não teria paciência para escrever tanto.
EducaPortugal - Educação em Debate
QUERO DAR A MINHA OPINIÃO!
abril 08, 2008
As novas pedagogias e o eduquês
Há uns dias, aquando do célebre e triste acontecimento do telemóvel na aula de Francês de uma escola no Porto, foi entrevistada uma pedopsiquiatra num dos canais de televisão. Uma das primeiras perguntas efectuadas pelo entrevistador foi: “Este incidente é consequência das novas pedagogias na escola”?
Não foi textualmente deste modo mas o sentido era o mesmo desta pergunta. A que novas pedagogias se referia o entrevistador? Em que escola? Ele sabia-o? A pedopsiquiatra sabia? As pessoas que estavam a ouvir aquela entrevista sabiam? Temos assim entrevistadores com tantos conhecimentos no âmbito da Pedagogia? Neste caso deveria ser aproveitado para a formação de professores.
A pedopsiquiatra perguntou ao entrevistador a que pedagogias se referia? Não. Limitou-se a responder num sentido totalmente diferente da pergunta realizada ignorando aquele chavão idiota que não mais demonstra do que um profundo desconhecimento sobre o assunto a que aludia. Duvido sequer que o entrevistador saiba em que consiste a Pedagogia, tendo em conta o número gigantesco de vezes em que profissionais da comunicação social utilizam a expressão “numa atitude pedagógica”, referindo-se a atitudes de adultos tomadas em relação a outros adultos, não vendo que na génese da expressão pedagogia se encontra a criança. Deste modo, não se pode exercer pedagogia sobre um adulto. Mas isto ainda perdoo pois trata-se de uma expressão popular que já se enraizou na comunicação oral portuguesa. Mas, sinceramente, não há qualquer problema em que o entrevistador não saiba o que é Pedagogia ou as “novas pedagogias”. Grave é que professores utilizem a mesma expressão, sem saber a que pedagogias se referem, colocando as culpas do estado a que as nossas escolas chegaram em pedagogos que nem o nome conhecem, dos quais não leram uma linha escrita pelos, ou sobre, os mesmos, repetindo aquele chavão que ouvem por parte de outros tanto, ou mais, ignorantes que eles sobre o assunto. Mas, arranja-se um bode expiatório para todos os problemas e está o caso encerrado. Todos poderão dormir descansados.
Custa-me imenso afirmar tais factos, pois em causa estão também colegas meus pelos quais tenho um enorme apreço pessoal e profissional, mas tais afirmações são infelizmente verdadeiras.
Poucos dias depois, o incidente do telemóvel deu origem a um debate num outro canal de televisão. Perto do fim do debate foi colocada uma questão a um dos elementos que estava no palco. Não me lembro sobre o que era a questão, mas ao responder à mesma o entrevistado fez uma referência ao Movimento da Escola Moderna, não sendo essa alusão muito importante no contexto na resposta. No entanto, para um membro presente na plateia a junção das palavras “Escola” e “Moderna” (e, provavelmente, “Movimento”), lançou-o num ataque impregnado de ódio sobre o discurso do anterior interveniente, atacando as “novas pedagogias” e o “eduquês”. Mais uma vez, ninguém lhe perguntou quais eram essas “novas pedagogias” a que fazia referência. E quais as escolas nas quais elas estariam a ser implementadas. O anterior interveniente também não pôde responder ao que este disse, visto não lhe terem dado a palavra. No entanto, mesmo que o fizesse, duvido que a outra pessoa compreendesse a resposta.
Nesse ataque feroz, o interveniente em causa convocou outros dois elementos conhecidos por atacar as “novas pedagogias”: António Barreto e Nuno Crato. Estes dois indivíduos com carreiras importantíssimas no ensino não superior (estou a ser irónico, claro está), têm muito a afirmar sobre o mesmo, tendo em conta a sua vasta experiência nesse nível de ensino (continuo…). Nuno Crato, aliás, utilizou uma expressão da qual Marçal Grilo é autor, a expressão “eduquês”, expressão que se encontra ligeiramente ao mesmo nível da expressão “novas pedagogias”: ambas dão nas vistas, mas são pobres de significado. Não é que Marçal Grilo não tenha razão ao utilizar essa expressão para classificar o discurso teórico de profissionais das Ciências da Educação que vivem a teoria sem a prática, levando a alguns devaneios teóricos. No entanto, a colagem desta expressão a outras tais como a “novas pedagogias”, veio retirar valor à expressão por si inventada.
No livro que intitulou com essa expressão, Nuno Crato faz também alusão a ideias e atitudes que têm tido um papel dominante na política educativa, ideias segundo ele identificadas, nem sempre de forma correcta, com a “escola moderna” ou com o “ensino progressista”. O que Nuno Crato se esquece é que o modo de trabalhar de um professor com os seus alunos não muda por decreto ou por vontade política. E o processo educativo depende fundamentalmente do trabalho efectuado pelos professores e alunos, e o modo como este é organizado depende dos professores. Compreendo que para Nuno Crato só haja uma forma de organização desse processo, tendo em conta que a sua experiência profissional se resume, praticamente, ao Ensino Superior. Neste, salvo raríssimas excepções, há um professor conferencista (no caso do Ensino Superior esta expressão é elevada ao seu expoente máximo), e no final do semestre classifica-se o aluno através de um exame. Chamam a isto um processo educativo? Será por acaso que tantos alunos deixam de frequentar as aulas de muitos professores do Ensino Superior? Por que carga de água vêm opinar estes indivíduos sobre o ensino não superior? Não ponho em causa as intenções de Nuno Crato, que considero as melhores, nem a sua qualidade como cientista. No entanto, penso que ele deveria ter em conta os seus parcos conhecimentos sobre o ensino não superior, alicerçado, sobretudo, no senso comum, e deveria tentar conhecer um pouco mais sobre o modo de organização do processo de aprendizagem por parte de outras correntes pedagógicas, não se limitando a criticar as mesmas usando para tal a censura ao “Romantismo de Rosseau”. Não pretendo de modo algum defender este último, mas considero intelectualmente desonesto usá-lo para atacar homens e mulheres tão importantes como Freinet, Neill, Parkhurst, Washburne e Piaget, entre outros.
Mas nada disto importa. Os que falam nas “novas pedagogias” nunca lerão estas linhas, nunca saberão do que falam, e a tal expressão continuará a ser utilizada num processo bola de neve também conhecido por carneirada do senso comum. O que realmente importa é que os professores do ensino não superior, de uma vez por todas, assumam a especificidade da sua função e se assumam como pedagogos. Não podemos continuar a ser uns meros “dadores de aulas” deixando que todo e qualquer “professor de bancada” nos critique e diga como deveremos exercer o nosso ofício. Longe vão os tempos de expressões como “não conseguiu mais nada, foi para professor”. Grande parte dos professores que actualmente se encontram no sistema de ensino estão lá porque acredita na importância do que fazem. Como tal, devem dizer aos “professores de bancada”: desculpe lá, respeito a sua opinião, mas não passa disso mesmo, de uma opinião; eu é que tenho conhecimentos teóricos e práticos sobre o tema, se um dia quiser saber um pouco sobre o mesmo, terei todo o prazer em elucidá-lo.
Mas para tal há um preço. Para se fazer tal afirmação é importante que a mesma seja verdadeira. Desse modo, os professores deveriam ter um melhor conhecimento sobre, pelo menos, a história da Educação e os alicerces de alguns dos movimentos pedagógicos, para aprenderem algo sobre os mesmos (concordando ou não com eles). Desta forma deixariam de falar, de um modo tão abstracto, próprio do senso comum, sobre as “novas pedagogias”. Por outro lado, deixariam de ter receio da presença de encarregados de educação, entre outros elementos, em órgãos de gestão das escolas, pois caso um deles se imiscuísse em questões pedagógicas a resposta só poderia ser: não fale do que não sabe, cada macaco no seu galho. No entanto, para que os professores passassem a ter tais conhecimentos em Pedagogia teriam de ler.
Muitos dirão que já muito têm que fazer, que não têm tempo para tal. Isto choca-me. É óbvio que todos temos direito a partilhar a vida com os nossos familiares e amigos e a divertirmo-nos, como qualquer outro ser humano. Mas será assim tão difícil ler um pouco de vez em quando? Como reagiria um professor a um aluno que diz não ter tempo para estudar? Como podemos pedir excelência aos nossos alunos se nos contentámos em ser medíocres? A nossa formação profissional acaba quando saímos da faculdade? Aliás, a formação inicial de professores prepara alguém para ser professor? Sejamos honestos: um livro por ano, ou um conjunto de textos sobre temas educativos, juntamente com a reflexão pessoal e conjunta por parte dos professores de uma escola, não poderia ser benéfico para o trabalho efectuado com os alunos na mesma? Ou não acreditamos na importância de aprender?
André Pacheco