Debaixo da nogueira dos meus avós
Recordo a voz,
Nos ambientes frescos do rio
Que se move como serpente
Por entre cana e salgueiros,
camadas de lírios brancos
E verdes algas,
Onde cresciam enguias,
Esguias à minha mão.
A minha ilusão cheira aos frutos
Que cresciam nas árvores do quintal.
As amoras negras, as uvas roxas,
As maçãs douradas e doces
Nas manhãs de orvalho coberto
Pelas brumas da paz que se elevam
Nas casas caiadas de branco
Do outro lado da Vila.
Velhos sentados na soleira
Jogam, sobre o banco,
As cartas gastas pela mãos calejadas
Das enxadas distantes,
E esperam viajantes
Que não voltam.
Na capoeira canta o galo
Capitão da banda,
E os pavões inchados
Mostram o magnífico leque
Brilhante,
Como navegante que iça a vela
E se faz ao mar,
Os dias deixam cair o manto da noite.
Ao longe ouve-se a água
Que corre na fonte,
Onde as raparigas vão encher
Os cântaros.
E cantam cantigas de amor,
A mirar-se no canal sem maldades.
Sentadas sob a parreira
As mães entoam baladas
Mais antigas que as raparigas
E vivem de saudades.
Tilintam os guizos das mulas
Por caminhos errantes
Dos feirantes,
Derramando nos lugares impuros
O seu grito ao dinheiro,
E o cheiro dos campos
Aromatizam na noite
A comida dos jornaleiros,
Enquanto engolem o pão suado
Da jornada.
Quase-nada!
Dançam no terreiro,
E sonham com visão de belas moças
Como se fossem felizes.
João Norte