Abro a gaveta dos sonhos
Que o tempo apagou.
Escuto a criança que palrou,
A inocência da vida por viver.
Acordo no sobressalto
Que abalou o corpo preso à cama
Da noite sem dormir.
Há já operários que labutam,
Os padeiros estão cozendo o pão.
Os galos, inconscientes,
Cantam por instinto e persistência.
Almejo a bengala do velho
Que não sabe sorrir
Porque a Primavera já não volve.
Sinto o silêncio da solidão,
Fantasma de mil dentes
Cravados no medo que me envolve,
Das noites perdidas na existência.
E rendo-me ao cansaço da tua ausência.
João Norte