Responsabilidade moral da Ministra
Num comentário a uma das minhas postagens, o nosso colega Henrique Santos afirma que não é demagogia atribuir à Sra. Ministra da Educação a responsabilidade moral pelos insultos, vexames e agressões de que os professores são diariamente vítimas na escola.
Estou plenamente de acordo com ele.
As leis distinguem entre a autoria material de um crime e a sua autoria moral. É lógico que façam esta distinção: se a não fizessem, deixariam impune quem manda cometer um crime ou cria as condições para o seu cometimento, punindo apenas aquele que, por assim dizer, apertou o gatilho.
Que eu saiba, a cidadã Maria de Lurdes Rodrigues nunca andou pela rua aos gritos a ameaçar de morte um professor; nunca forçou fisicamente a entrada numa sala de aula; nunca chamou «puta» a uma professora; nunca berrou nos corredores duma escola que os professores só lá andam para se comerem uns aos outros; nunca andou com pregos a riscar automóveis; nunca deu a nenhum professor uma tareia que o mandasse para uma cama de hospital.
Materialmente, nunca terá feito nada disto; mas moralmente tem-no feito, e mais, e pior; e prepara-se para continuar a fazê-lo.
Maria de Lurdes Rodrigues torna-se culpada da violência sobre os professores por várias formas e por várias vias. Desde logo ao intensificar as campanhas de desinformação que já vêm dos seus antecessores, campanhas essas destinadas a promover na opinião pública um clima de animosidade que torne politicamente possível sobrecarregá-los cada vez mais de trabalho pagando-lhes cada vez menos. (A opinião pública desinformada tem desculpa para pensar que os professores trabalham pouco; mas a Ministra, que sabe muito bem que na sua maior parte os professores trabalham demais, não tem desculpa para alimentar e promover esta mentira).
Torna-se culpada, em segundo lugar, ao tentar transformar os casos de violência sobre os professores em conflitos privados entre cidadãos individuais. Ficou tristemente célebre a sua resposta estilo Marie Antoinette quando confrontada com estes casos: «Eles que chamem a polícia». Esta é uma política que vem de longe; mas enquanto o Estado Português não vir nas agressões aos professores aquilo que elas realmente são - ataques, muitas vezes com algum nível de organização, à instituição «escola»; e por essa via ataques aos restantes alunos e à sociedade civil - todo e qualquer responsável político do Ministério da Educação terá que ser considerado autor moral de todas e cada uma dessas agressões.
Torna-se responsável, finalmente, ao lançar para o espaço público mensagens que podem ser verdadeiras em si mesmas sem cuidar das deturpações que possam sofrer até chegarem aos seus destinatários. É verdade, por exemplo, que a escola existe para os alunos; mas é grave que esta verdade se transforme, de retransmissão em retransmissão, naquilo que a semana passada um aluno agressor disse à professora agredida, tratando-a por tu: «Olha que agora os professores estão muito lá em baixo e os alunos é que estão por cima».
Qualquer pessoa que tenha por profissão comunicar - professor, jornalista ou político - sabe, ou devia saber, que não basta enviar a mensagem, é preciso controlar o feedback. Maria de Lurdes Rodrigues não faz este controlo - não sei se por incompetência, se por indiferença, ou se de propósito. O certo é que temos alunos agressores que acreditam, na sua brutal inocência, que estão a agir com autorização da Ministra. E perante isto Maria de Lurdes Rodrigues cala-se e consente.
Publicado por João Norte em novembro 2, 2006 02:29 PM